| 05 de dezembro, 2002 - Publicado às 19h23 GMT |
| Perfil: Vera Lazzarotto |
 Vera (de amarelo) e alguns funcionários da 1º de Maio
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Rafael Gomez, de Salvador
Aos 67 anos, Vera Maria Machado Lazzarotto é certamente um exemplo e uma inspiração para grande parte dos moradores de Novos Alagados, onde desde a segunda metade dos anos 70 se desenvolve um dos projetos educacionais mais bem-sucedidos do Brasil.
Segundo dados divulgados pela Sociedade 1º de Maio, a associação de moradores local à qual ela é ligada desde a fundação, cerca de 8 mil alunos já passaram pelas escolas comunitárias que ela ajudou a fundar em Novos Alagados.
 Fachada da associação de moradores em Novos Alagados | Para se ter uma idéia do que isso representa, a população total estimada de Novos Alagados é de cerca de 15 mil pessoas.
Só não é possível dizer que metade da população de Novos Alagados estudou nas escolas da Sociedade 1º de Maio porque há muitos alunos que vieram de outros bairros próximos – o que só amplia a importância da obra.
Modesta, Vera diz que só ajudou a comunidade a se organizar. Mas ela não nega que teve importância como líder – e é a existência de um líder que ela considera um dos detalhes mais importantes para desenvolver um trabalho social bem-sucedido.
Universidade em débito
"Precisa de um líder, sim", diz ela. "E esse é o papel da universidade. Qual é a porcentagem da receita pública que vai para as universidade? São os privilegiados que têm o conhecimento. Eu sou a universidade aqui dentro."
| SOCIEDADE 1º DE MAIO | •Creche
•Três escolas comunitárias
•Biblioteca
•Clube para crianças e jovens de rua
•Centro profissionalizante
•Grupo de Terceira Idade
•Escola de capoeira e dança afro
•Grupo de prevenção a drogas
| Ex-professora universitária, formada em línguas neolatinas, Vera tem mestrado em educação, poética e ainda formação de arte terapeuta e conhecimento de psicodrama pedagógico.
Natural de São Paulo, ela foi criada no Rio de Janeiro e desde cedo mostrou interesse em trabalhos sociais.
"Nos anos 60 e 70, eu trabalhava com jovens na periferia do Rio e já travava contato com as teorias do educador Paulo Freire, com quem cheguei a trabalhar", contou. "Mas comecei a questionar o fato de eu morar num bairro de elite e ir todo dia para a periferia."
Depois ela encontrou o seu futuro marido, o italiano Antonio Lazzarotto, que já tinha planos de ir a Salvador realizar trabalhos com a comunidade de Novos Alagados.
"Ele decidiu passar dois anos trabalhando como pescador para se inserir na comunidade. Nesse período, eu ainda não morava aqui, mas vinha com freqüência, e sempre surgiam convites para eu abrir uma escolinha."
"Aí, eu decidi vir, mas com uma proposta", disse Vera.
Fé na pessoa
"A escola tradicional é inadequada para a criança da favela porque é única, tem uma única proposta, bem tradicional, e as crianças não ficavam nem um ano. E Paulo Freire acreditava que a escola tem que estar baseada na cultura local."
 Vera acha que a escola tradicional não é idela para crianças de baixa renda |
Vera Lazzarotto explica que o processo de criação das três escolas comunitárias do bairro foi coletivo. Sua função era apenas organizar as idéias e buscar os "canais" para que a proposta pudesse ser levada à frente.
Da mesma forma, os demais projetos da Sociedade 1º de Maio foram sendo desenvolvidos. "Eles sugeriam: 'Vamos fazer um curso de corte e costura?' Eu dizia: 'Vocês que organizem'. Aí eu dava dicas: sugeri que a gente procurasse a LBA."
"Não houve nenhum plano de criar tantos projetos na 1º de Maio. O ser humano, para desfrutar como cidadão, sempre tem uma nova necessidade. A cada degrau que ele conquista, há outro que surge, porque ele vai conquistando auto-estima."
Hoje pessoas que foram formadas nas escolas da sociedade assumiram o controle da organização.
Embora não tenha mais tanto trabalho quanto teve no início da mobilização, Vera ainda está lá, atuando como coordenadora pedagógica e conselheira.
"Acho que minha grande qualidade tem sido saber ouvir, não trabalhar sozinha e ter fé no outro, acreditando que as pessoas possam continuar meu trabalho. A fé absoluta na pessoa."
Sociedade Primeiro de Maio
Rua Nova Esperança, 1
São João da Plataforma - Salvador/BA
Tel. (0xx71) 398 1190
E-mail: primeirodemaio@uol.com.br
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