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29 de novembro, 2002 - Publicado às 09h15GMT
Bush e a censura



 Clique aqui para ouvir esta coluna do Ivan Lessa

Formidáveis os programas satíricos da televisão britânica. Batem com força. Logo que cheguei aqui pela segunda vez, no início de 1978, como “editor itinerante” do Pasquim, conforme dizia o expediente, eu morria de inveja da liberdade que eles tinham para entrar com os dois, às vezes quatro pés, em cima de autoridades constituídas e celebridades de diversos quilates.

Tudo exatamente o contrário do que, desde 1969, eu conhecia do jornaleco para que trabalhava e que, mais tarde, vim a editar. Não podíamos tocar em quase nada, a censura capava tudo, até março de 1975, quando então ficamos por conta própria, ou seja, sujeitos à pior das censuras: a auto-censura.

E era processo após processo. Lembro-me que peguei três: dois por atentado à moral pública e aos bons costumes e outro me enquadrando na Lei de Segurança Nacional. Isso significava a contratação de advogados, idas ao fórum, não poder sair do país, uma chatice infernal, em suma.

Em suma: eu babava de inveja, conforme vinha dizendo. Depois, com o passar do tempo, a gente se acostuma com aquilo que é natural e nada mais natural do que debochar dos poderosos.

Há sempre um programa de sátira na televisão. Nós ainda, por força do hábito, temos que qualificar. Seja como for, o melhor programa de sátira política na TV daqui, no momento, é um chamado “2DTV”.

Trata-se de uma série, aliás muito premiada, de esquetes animados, daí seu nome: duas dimensões. Os desenhos são toscos mas bolados com a maior sofisticação, meio à maneira dos esplêndidos Simpsons.

O programa pegou e, agora, época de Natal, tem vídeo nas lojas, como sugestão de presente. Só que o órgão responsável por zelar pelos bons costumes na televisão implicou com o comercial. Por que? Porque um deles mostra o presidente George W. Bush pegando uma cópia do vídeo, botando numa tostadeira. O zeloso órgão, que supervisa apenas e sugere, decidiu que a coisa punha em dúvida a inteligência do presidente norte-americano.

Causar ofensa ainda não é crime, segundo o órgão. No contexto de um programa, tudo bem, dizem, pois os telespectadores sabem o que esperar. Fora disso, pouco recomendável, só com a permissão do – no caso – presidente.

Os responsáveis pelo programa e pelo comercial se chatearam e, pelos jornais, já disseram que a sugestão é idiota. Continuo com inveja. Gostaria de poder dizer o mesmo (se jornal encontrasse) quando da época do Pasquim.

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