| 03 de dezembro, 2002 - Publicado às 16h59 GMT |
| Morador da Rocinha tem seu próprio jornal, rádio e TV |
 Enock Guilherme, proprietário da Rádio Brisa
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Rafael Gomez, do Rio de Janeiro
Nas ruas da Rocinha, é possível ouvir o som dos alto-falantes logo ao descer da lotação, ao lado dos camelôs à beira da auto-estrada Lagoa-Barra.
Ouvem-se propagandas de lojas da Rocinha, forró, a música romântica de Charlys - o artista mais conhecido da favela - e um chiado que ecoa na barulheira das ruelas.
Do Largo do Boiadeiro, com suas barracas vendendo legumes, verduras e produtos nordestinos, segue-se rapidamente para uma das vias mais conhecidas da Rocinha, a Estrada da Gávea. É onde vive Enock Meira Guilherme.
Guilherme é o proprietário e a voz da Rádio Brisa, a "rádio de caixinhas", como ele a chama. "São 60 caixinhas de som, distribuídas de forma estratégica em toda a comunidade. Isso leva qualquer notícia e prestação de serviço muito mais rápido à comunidade."
Violência
Dentro da rádio, uma sala reúne o microfone e a mesa de som de Guilherme, uma coleção de CDs e o computador, com o qual ele relaxa entre uma música e outra com jogos.
"Quando se perde uma criança ou um documento, a rádio ajuda de forma imediata", explica ele, pedindo licença para fazer uma intervenção no ar.
"Também ajudo em campanhas de esclarecimento, como a campanha contra a fome ou a da dengue."
A Rádio Brisa é uma das três instaladas na Rocinha. As outras duas são a Rocinha e a Katana, que, ao contrário da Brisa, têm transmissores e uma freqüencia registrada no dial, onde operam em FM.
| DIREITO À INFORMAÇÃO NA ROCINHA | • Três rádios (duas FM)
• Uma TV
• Dois Jornais
• Canal de TV Comunitário
• Rede de TV a Cabo
• 97% das casas têm TV
• Mais de 5.500 pessoas têm telefone celular
• Cerca de 2.000 telefones fixos
| Evandro Rodrigues é locutor da Rádio Katana. Ele diz que ela não foge do seu compromisso de informar as pessoas quando há episódios de violência na comunidade, como tiroteios. Isso apesar da lei do silêncio imposta por traficantes do morro.
"Num outro dia tivemos um tiroteio lá embaixo, na entrada da Rocinha", diz ele.
"Eu estava no ar e informei para o pessoal evitar a área. Mas é raro os moradores ligarem para cá para falar sobre algo do tipo que esteja acontecendo na vizinhança deles. Eles temem que o telefone esteja grampeado."
Jornal e internet
A ONG Viva Rio mantém uma rádio, a Rádio Viva Rio FM, que tem uma preocupação especial em atender as pessoas das favelas cariocas. Eles contrataram um correspondente na Rocinha, Eduardo Casaes.
Semanalmente, o jornalista participa dos programas da emissora contando as novidades no bairro.
Casaes também tem outras atividades: trabalha em uma ONG com trabalhos socio-ambientais na favela, a Rocinha XXI, e edita um dos dois jornais da comunidade, o Rocinha Notícias, com tiragem de 5 mil exemplares por mês.
"Tentamos falar de assuntos mais sérios, como a questão da falta do saneamento, mas também de coisas mais leves. Eu mesmo faço uma espécie de coluna social", conta.
Casaes revela que, desde que o jornal começou, em janeiro de 2001, ele nunca deu lucro. "Ele é gratuito e, com os anúncios que vendemos, conseguimos nos manter. Mas não ganhar dinheiro."
 A redação do portal Viva Favela, no bairro da Glória | O jornalista também trabalha como correspondente do portal de internet Viva Favela, criado pela ONG Viva Rio para atender as comunidades carentes do Rio.
A coordenadora do site, Cristiane Ramalho, diz que um dos planos do Viva Favela é abrigar um novo site para ajudar os moradores das favelas a ter mais acesso à cidadania. "Por exemplo: uma pessoa quer se separar. Como ela pode fazer isso? Podemos explicar."
Para ela, é complicado falar de direitos humanos a um público de comunidades carentes. "Você sempre encontra uma certa resistência, em especial devido ao ceticismo - essas são pessoas acostumadas a não ter acesso ao mínimo."
TV
A Rocinha também tem sua própria operadora de TV a Cabo, a TV Roc, que dá a base técnica do canal comunitário da favela, também chamado de TV Roc (canal 30).
"Os programas comunitários são feitos por estagiários, e o pouco gasto que temos (com fitas, por exemplo) são cobertos com o que recebemos das assinaturas de TV a cabo", disse o diretor da TV Roc, Dante Quinterno.
A TV Comunitária apresenta programas semanais com perfil jornalístico e de variedades, alguns produzidos por pessoas da própria Rocinha.
Quinterno acredita que o mercado das classes mais pobres ainda seja pouco explorado no Brasil e que a Rocinha seja um bom exemplo.
"Antes de nós, ninguém havia explorado esse mercado na comunidade."
 Quinterno, da TV Roc: "Temos um objetivo de cidadania" |
"Temos um objetivo de cidadania com nosso trabalho na Rocinha. Queremos dar a essas pessoas o mesmo acesso à informação que as pessoas de bairros mais ricos têm", explicou.
Atualmente, a operadora TV Roc, com 32 canais, têm 30 mil assinantes. Mas a rede de distribuição da operadora está tão bem distribuída na comunidade que hoje Quinterno acredita que todas as residências da comunidade possam ter acesso à TV a cabo.
O valor cobrado pelas assinaturas também é menor do que em outros bairros - R$ 32 mensais, contra R$ 70 cobrados por operadoras em bairros vizinhos, mais abastados.
Onde obter mais informações
União de Redes de Radiodifusão pela Democracia - UNIRR
Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações
TV Roc |
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