| 27 de novembro, 2002 - Publicado às 10h50GMT |
| Eu, fura-greves |

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A Grã-Bretanha está passando por uma série de greves que os mais alarmistas já se prontificaram a comparar ao notório “inverno do descontentamento”, aquele que pegou 1978-79 e que acabou sendo o fim do então governo trabalhista.
Esse inverno abriu o caminho para a eleição de Margaret Thatcher e o (quase) solene enterro do sindicalismo.
Depois de quase 20 anos de governo conservador, os trabalhistas, novos trabalhistas aliás, como um refrigerante em embalagem nova, herdaram a paz social e tudo ia muito bem, o Iraque prontinho para ser atacado, coisa e tal, quando, de repente, vêm os bombeiros exigindo 40% de aumento.
Num país com inflação – anual, sublinhe-se – abaixo de 3%, a exigência é, ou parece, descabida. Não opino. Aprendi com os anos a não me meter nessa, contentando-me, no máximo, a torcer à distância por nossos trabalhadores e suas reivindicações.
As greves me afetaram e me chatearam, que é seu objetivo, mas não me envolveram em minha, por assim dizer, alma. A não ser uma vez. Uma vez só. Mas que vez, meu Senhor!
Deve ter uns bons 15 anos e foi aqui na BBC mesmo, em Bush House, sede do Serviço Mundial. Não me lembro o motivo da greve. Deve ter sido o trauma que já vou descrever.
Sei que tinha algo a ver com a parte técnica de quem aqui trabalhava: o pessoal do som, o pessoal responsável por botar a transmissão no ar. Eu era, como hoje, free-lancer. Não comparecer era não faturar meu rico dinheirinho.
No dia marcado, vim meio sem jeito para Bush House. Lembro-me de longe de ver os piquetes e já ir - não há outra palavra - já ir me acovardando.
Na entrada do prédio, um dos piquetes, que eu conhecia apenas de estúdio, “bom dia” e “obrigado” e pouco mais que isso, se aproximou de mim e perguntou, delicadíssimo, se não poderíamos conversar um pouco para que ele me explicasse o que estava por trás da greve.
Daí veio meu vexame: sem peito para olhá-lo nos olhos, murmurando qualquer coisa ridícula como “eu não sou contratado”, “ não posso dispensar o salário diário”, segui em frente.
Segui em frente e passei o resto do meu dia de fura-greves sem graça e pensando pensamentos sombrios. Fiquei esperando mais uma greve para não furá-la.
Não veio. Fiquei algum tempo olhando e vivendo de soslaio cada vez que dava com um dos piquetes que, sempre muito educados, nunca me cobraram nada nem me olharam feio. Muito pior. Não deram pelota para mim.
Em matéria de greve é o que sei, o que aprendi e até hoje não tive como consertar.
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