| 15 de novembro, 2002 - Publicado às 11h25 GMT |
| Um ano sem fumar |

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Pior do que o camarada que fuma muito, só aquele que está sempre parando de fumar. Pior do que os dois, aquele que parou de fumar. Incluo-me na primeira e segunda categoria. Fumei demais, parei de fumar, nunca havia tentado parar de fumar antes.
Neste espaço e tempo que me cabem, deixo de lado o país e o continente e volto-me para mim mesmo, contemplo com a maior isenção possível meu próprio umbigo. Historio-me, como é próprio dos chatos, no bar do botequim ou na coluna de jornal ou site eletrônico.
Há quase meio século, minha mãe desistiu de me proibir de fumar. Admito hoje: foi por sobre o chato. Havia um certo prazer em esconder maço de cigarro e isqueiro no lugar onde ficava a mangueira de incêndio, naquele sétimo andar da avenida Atlântica, e em chupar tangerina e esfregar bem a casca nas mãos e em torno da boca.
Minha mãe tinha um olfato de tuberculoso, conforme se dizia no século passado. Ah, sim. Eu falei em isqueiro. Claro que tinha que ter isqueiro. Fumar era um ritual a ser cumprido em seus mínimos detalhes, ao menos para mim.
Se eu tivesse de resumir os motivos que me levaram a fumar, teria que dizer que, em primeiro lugar, era culpa do cinema e de ver todos os adultos em torno de mim fumando adoidados.
Quer dizer, não eram só Humphrey Bogart e Bette Davis os culpados. Todo mundo fumava, inclusive, ou principalmente, meu pai. Minha mãe não. Mantinha o olfato intacto só para me flagrar no ato impuro e que, me afirmavam outros adultos, iria me impedir de crescer.
Muito bem, aos 16 anos, então, lá fiquei eu: sem rebeldia e sem causas. Sobravam-me apenas os cigarrinhos que, naquela idade ingrata, ajudavam-me a encontrar algo a fazer com as mãos nas horas em que não estava às voltas nem com o dever do colégio nem com a missão de goleiro de futebol de praia.
Tosse? Falta de ar? Bafo de tigre? Esse mínimo – e bato três vezes na madeira para que fique por aí – levou uns bons 30 anos para aparecer. Dá para dizer que foi bom enquanto durou.
No dia 21 de novembro do ano passado, eu resolvi parar de fumar. Cansei. Parei. Sem remédio, esparadrapo ou goma de mascar com nicotina. Nada. No peito, na raça e na valentia, conforme se dizia quando passei a me dedicar ao vício com seriedade.
Mais não digo para não ser um chato. Não prego sermão, não me recuso a ficar no mesmo recinto onde outros fumam. Passei a ser apenas o que era de início: um chato. Só que sem cigarro.
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