| 04 de novembro, 2002 - Publicado às 10h22 GMT |
| Aumenta a distância entre ricos e pobres |
 A feirante Janshao (à dir.) imigrou para Xangai
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Silvia Salek, enviada especial à China
Ao mesmo tempo em que a economia chinesa cresce e fortunas surgem por toda a parte, o país enfrenta também o ônus do capitalismo com o aumento da miséria e da desigualdade social.
Dados oficiais indicam que, nos próximos cinco anos, o número de pessoas vivendo abaixo da linha pobreza nos grandes centros urbanos deve aumentar cerca de 150%, passando de 15 milhões para 37 milhões.
As estatísticas se transformam em realidade em centros como Xangai, onde verdadeiras favelas de concreto ficam ao lado de modernos centros comerciais e prédios de luxo.
Nessas áreas, uma nova geração de profissionais bem-sucedidos como o engenheiro Jinjie Guo, 31 anos, convive diariamente com a pobreza de chineses como o vendedor ambulante Wan Lung, 46 anos.
Colarinho branco
Esses jovens de sucesso, que têm orgulho de se autodenominar trabalhadores de colarinho branco, jantam em restaurantes sofisticados, se vestem com roupas de marcas famosas e freqüentam happy hours após o trabalho.
Levam um estilo de vida bem ocidental, aprendido, em muitos casos, durante períodos vivendo em países como os Estados Unidos e a Inglaterra.
 "Carrões" são sonho de consumo dos novos ricos |
É o caso de Jinjie Guo, que fez MBA na Califórnia antes de receber uma oferta de trabalho em Xangai.
"Sou otimista. Acho que a China precisa se preocupar em crescer primeiro para depois distribuir a riqueza", disse Jinjie.
Divisão do bolo
Mas a teoria de fazer o bolo crescer primeiro para depois dividir não é aceita por outros jovens do mesmo círculo de Jinjie como o também engenheiro Bao Jun, 32 anos.
"Precisamos fazer algo com urgência para resolver esse problema. Não podemos jogar fora anos e anos de comunismo em que a igualdade era a base do sistema", disse Bao, que trabalha em um empresa de computação.
"Não podemos ser comunistas na teoria e capitalistas selvagens na prática", acrescentou Bao.
 Bao Jun se preocupa com aumento da desigualdade |
Ele fala em nome de excluídos como o vendedor ambulante Wan Lung, 46 anos, que ficou desempregado há nove anos e, desde então, não conseguiu outro emprego.
"Não é fácil. A concorrência é muito grande e já estou velho para recomeçar uma carreira", disse o ambulante, que vendia leques chineses para turistas perto de hotéis no centro de Xangai.
Geração perdida
Ele faz parte da chamada geração perdida da China.
São pessoas que cresceram nos anos da Revolução Cultural e, por isso, não freqüentaram universidade nem cursos de formação profissional.
Era um período em que a China mandava intelectuais e empresários para campos de trabalho forçado para reeducação.
 Idosa vende souvenirs do comunismo em Pequim |
Hoje, com o mercado cada vez mais competitivo, essa geração tem poucas chances ao disputar emprego com candidatos mais novos e mais qualificados.
Reengenharia
Wan Lung faz parte de um grupo que está entre os mais afetados pela pobreza, segundo o governo.
São os trabalhadores de estatais que foram demitidos após programas de "reengenharia" ou após a falência da empresa onde trabalhavam.
A maioria tem direito a receber um seguro desemprego, pago pela própria empresa que demitiu o trabalhador, mas esse benefício só é pago por três anos.
Wan Lung, que já está desempregado há nove, não vê a cor desse dinheiro há muito tempo.
Estatísticas otimistas
A situação dos ex-empregados das estatais não é fácil, mas são os imigrantes os mais afetados pela pobreza, segundo o Departamento de Pesquisas de Desenvolvimento, um órgão do governo responsável pelas estatísticas no país.
É que a imigração na China não é livre como em países como o Brasil, onde é possível escolher a cidade em que se quer viver.
Ao imigrar, o trabalhador não pode se registrar na cidade destino e perde uma série de benefícios como seguro-desemprego e acesso a hospitais e a escolas.
Segundo o governo, a proporção de imigrantes vivendo abaixo da pobreza é alta para os padrões chineses: dois em cada dez imigrantes vivem na miséria, uma taxa 50% superior à dos moradores das mesmas áreas.
Janshao Long, 32 anos, deixou o campo no norte da China e vive atualmente Xangai onde trabalha como feirante.
"A vida é difícil, mas é muito melhor do que no campo. Pelo menos posso sustentar minha família que estava praticamente passando fome antes", disse Janshao.
Veja também: Retratos da China
Contribuição da sociedade
Para a empresária de Pequim Shang Danqing, 37 anos, resolver o problema da miséria é responsabilidade de todos e não apenas do governo.
Ela conta que recruta operários para sua fábrica de jóias em Pequim em cidades pobres próximas à capital.
"O governo faz o que pode. Mas a responsabilidade é de todos nós, da sociedade, que deve se preocupar em criar um país sem desigualdades muito grandes", disse a chinesa que financia cursos de especialização para seus funcionários.
Shang faz parte de uma nova geração de milionários que floresce na China hoje.
Leia também: 25% dos milionários chineses são do Partido Comunista |
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