| 26 de outubro, 2002 - Publicado às 03h16 GMT |
| Analistas e eleitores comentam debate presidencial |
 Petista lidera todas as pesquisas com folga
|
A menos de dois dias do segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Serra (PSDB) realizaram o último debate das eleições presidenciais, com transmissão pela TV Globo.
O debate foi também o último evento de campanha – a partir da zero hora de sábado, os candidatos só podem fazer caminhadas públicas, mas os discursos estão proibidos.
A BBC Brasil convidou os cientistas políticos Gaudêncio Torquato, da GT Marketing e Comunicação, e Christopher Garman, da Tendências Consultoria, e eleitores dos dois candidatos para assistir ao programa e comentar o desempenho dos candidatos.
As opiniões, colhidas pelos repórteres Edson Porto e Paulo Cabral, foram publicadas nesta página durante os intervalos.
Primeiro bloco: Eleitores
A questão que mais gerou discussão entre os dois eleitores de José Serra e os dois eleitores de Lula que vieram assistir ao debate entre os presidenciáveis na BBC em são Paulo foi aquela referente à saúde.
“O Lula está muito bem preparado. Falou do problema de os convênios não pagarem os remédios que e uma coisa que preocupando muito gente”, disse o cardiologista Américo Tangari, eleitor de Serra.
O taxista Fábio de Oliveira Franca - também eleitor de Serra - reclamou que mesmo que o paciente esteja sendo atendido por um convênio, muitas vezes espera muito tempo por um exame. “Não pode ser, ficar esperando dois ou três meses por um exame.”
O radialista Róbson Sousa destaca que os planos de saúde são discriminatórios, porque a qualidade do atendimento depende do valor pago e da categoria de atendimento do plano. “E olha como o Serra está tenso, andando pela arena”, comentou o eleitor de Lula.
O especialista em comunicação Adriano Rodrigues critica os genéricos citados por José Serra.
“Criaram os genéricos, mas os médicos não indicam porque muitas vezes ele não funcionam.” Mas o cardiologista Américo observou que o que mais lhe chamou a atenção no primeiro bloco do debate foi a declaração de Lula a favor da aposentadoria universal.
Primeiro bloco: Torquato e Garman
Os analistas consideraram relativamente rígido o formato do debate.
"Foi muito preso, apesar do movimento no palco, ficou preso”, diz Torquato.
O formato tendeu a beneficiar o Lula, na opinião de Garman, porque não permite o embate direto entre os dois candidatos no primeiro bloco.
“Serra tentou chamar Lula para o embate direto, mas o candidato do PT conseguiu evitar”, disse ele.
A postura dos candidatos - que se mantiveram de pé enquanto falavam e se encararam por boa parte do tempo - chamou a atenção dos analistas.
Os dois quase chegaram a se esbarrar no palco montado pela Rede Globo.
Para Gaudêncio Torquato, a performance de Lula foi mais popular, enquanto a de Serra foi mais técnica. Ele também acredita que isso favorece em alguma medida o candidato do PT.
Na opinão de Christopher Garman, o candidato do PT conseguiu se ligar mais ao público do que seu concorrente.
Embora vejam poucas vantagens de um candidato ou de outro, os dois analistas avaliaram que o debate beneficiou, no primeiro bloco, o candidato Lula.
Segundo bloco: Eleitores
Adriano observou que Serra fala o tempo inteiro em quando foi ministro, mas nunca cita o governo de Fernando Henrique Cardoso.
O taxista Fábio contou que já foi assaltado duas vezes na praça. "Tudo o que eles dois falaram de violência aí é muito bonito. Quero ver é na prática", disse.
Mas, para ele, polícia na rua não é a melhor maneira de acabar com a violência. "Tem de ter emprego e educação, e aí as pessoas não assaltam."
Américo nota que Lula foi muito agressivo durante a questão da segurança "Falou em propina e assim atacou a policia", notou. Mas Róbson rebate dizendo que acha certo que seu candidato esteja sendo "enfático." Américo reclamou que ele não explicou de onde vai tirar os recursos para o salário mínimo.
Américo disse que o bloco foi um show pirotécnico. "Eles deveriam ter técnicos em volta que explicassem direito estas coisas que eles falam."
Segundo bloco: Analistas
No segundo bloco do programa, os dois candidatos continuaram a responder as questões feitas pelos eleitores.
Na opinião dos cientistas políticos, ficou mais evidente a postura dos candidatos durante essa fase: Serra sendo mais objetivo e com mais clareza de números, e Lula mais popular, aproveitando sua empatia.
Para Gaudêncio Torquato, parte das perguntas, por serem críticas à situação do país, colocaram o candidato da posição, José Serra, mais na defensiva, porém ele soube melhorar seu desempenho, afirmou o especialista.
A questão do tráfico de drogas foi uma das que dominou o debate entre os candidatos. Outra foi o salário mínimo.
Para os analistas, Lula se mostrou mais agressivo do que Serra no segundo bloco, mas isso não o teria ajudado.
O candidato do PSDB tentou gerar o debate com a questão do salário mínimo.
Serra frisou o aumento que faria no primeiro ano (para R$ 220) e cobrou de Lula uma posição.
Para Torquato, esse foi o melhor momento do debate até então. “E Serra ganhou”.
Para Garman, Lula não conseguiu deixar clara a sua proposta e isso teria ficado evidente em sua opinião.
O bloco ficou mais favorável a José Serra, na opinião de Garman, por dois motivos. “Serra soube elogiar Lula na questão do sequestro da poupança (o candidato disse que em 1989 quem tomou essa atitude foi o então presidente Coller de Mello) e também foi mais claro ao falar do salário mínimo.”
Os dois acreditam que Serra melhorou sua postura no debate e venceu o bloco.
Terceiro bloco: Eleitores
Adriano reclama que sente falta de "pegadas mais fortes" dos candidatos ao debaterem uma questão sobre os tributos. Adriano disse que Serra não falou na reforma tributaria porque o governo de Fernando Henrique não a fez. "Mas o PT sempre foi contra a reforma tributária", disse Américo.
O petista Róbson reagiu dizendo que o PT não tinha deputados suficientes para emperrar a reforma tributaria. "Mas era contra", rebateu Américo.
O cardiologista disse que está com a impressão de que Serra está mais à esquerda do que o Lula no debate. "Ele tem de passar esta impressão, mas na verdade não é", disse Róbson.
O taxista Fábio elogia o modelo das perguntas feitas por eleitores indecisos. "A pergunta é mais direta, fica mais fácil mesmo para a gente entender o que se está perguntando", comentou.
Mas Américo reclama que os candidatos não estão respondendo a nada diretamente.
Terceiro bloco: Analistas
A criminalidade dominou o começo do debate no terceiro bloco, e Serra tentou atacar Lula falando de governos petistas, que, segundo ele, teriam visto o aumento da criminalidade.
O candidato do PT se ateve a apresentar o que pretende fazer em relação ao tema.
Impostos também foram um tema importante no bloco. Assim como no caso da violência, Serra procurou falar de prefeituras do PT.
Lula apresentou suas propostas de reduzir impostos para a exportações e produção.
Os cientistas políticos observaram que Serra voltou a criticar Lula por não ser claro nas respostas. “O que está mais evidente à medida que o debate ocorre”, disseram eles.
Na opinião dos dois, Lula preferiu falar com a platéia.
Na opinião de Torquato, Serra se mostrou melhor do ponto de vista técnico, e “puxou orelha de Lula” algumas vezes com relação a números.
Para Garman, Serra tende a se sair mal com questões sociais e bem em questões econômicas.
Na opinião de Torquato, Lula assumiu como presidente em uma pergunta sobre o dólar. “Ele respondeu como presidente.”
Lula falou que era preciso reestabelecer a confiança no país e que acredita que isso ocorrerá quando forem indicados os novos ministros de um eventual governo do PT.
Garman notou dois pontos relevantes. Pela primeira vez na campanha, Serra disse que o presidente do PT, José Dirceu, anunciou há dois anos que não pagaria a dívida externa.
Garman notou também que até o terceiro bloco Serra não havia citado o nome do presidente Fernando Henrique Cardoso nenhuma vez. “Apenas falou genericamente sobre o governo.”
Os analistas avaliaram que o debate até o momento tem potencial muito baixo para mudar a opinião dos eleitores, especialmente levando-se em consideração a diferença nas intenções de votos.
Para Garman, se o debate tivesse ocorrido no começo do segundo turno poderia haver uma mudança na dinâmica da campanha. Agora, as chances são pequenas.
Quarto bloco: Eleitores
A discussão sobre educação foi o que mais chamou a atenção dos eleitores no último bloco de perguntas do debate.
Como seu candidato, José Serra, Américo criticou Lula e Genoíno por serem contra o sistema educacional utilizado hoje, no qual os alunos não são reprovados.
Mas Adriano e Róbson reagiram dizendo que a progressão continuada imaginada pelo educador Paulo Freire é muito diferente da aprovação automática. “Precisa ter prova de dois em dois ou de três em três meses para ver como o aluno está evoluindo”.
Já Américo defende que esta avaliação seja feita no dia-a-dia pelo professor. O taxista Fábio defendeu o modelo tradicional nas escolas, de provas periódicas durante o ano e uma prova no fim de cada ano letivo.
Quarto bloco: Analistas
A inflação foi colocada em discussão no quarto bloco do debate. O retorno da inflação foi apresentado como um "temor" por uma eleitora da platéia.
Para os analistas, Serra perde quando usa exemplos de sua experiência na Saúde ao dar suas respostas. O que tentou fazer ao falar de inflação.
Garman também acredita que Serra desperdiça as chances de falar bem sobre o Fernando Henrique Cardoso. “Quando falou de inflação, Serra conseguiu falar de seu combate a Aids. Parece que está apresentando um currículo e não um projeto para o país.”
Para o analista, essa passagem do debate demonstrou a dificuldade que o candidato teve durante toda a campanha: não conseguiu defender o governo ao qual pertence ao mesmo tempo se apresentando como mudança.
Os analistas acreditam que Lula cometeu um escorregão ao falar que é a “única” alternativa para realizar um pacto social no país. “É um erro, ele se coloca como Deus", disse Torquato.
Serra aproveitou o momento para dizer que é o melhor candidato e não a “única alternativa”.
Lula aproveitou para uma resposta seguinte para dizer que não estava sendo arrogante. “Só que o outro candidato está no governo há oito anos e não fez.”
No fim do bloco houve uma polêmica sobre a questão da educação continuada.
Serra disse que o PT criou a idéia e agora a rejeita.
Lula se irritou. “Lula está visivelmente desconfortável no bloco”, afirmaram os especialistas.
Para os dois analistas convidados pela BBC Brasil, apesar dos erros de cada um – ou por causa deles – deve haver pouca influência até este ponto na opinião dos eleitores.
O bloco foi o último antes das considerações finais dos candidatos no quinto e último bloco.
|
 |
|
|
|