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27 de setembro, 2002 - Publicado às 15h40 GMT
Lixão de Brasília sustenta 'indústria informal'
Congresso Nacional, no fim do Eixo Monumental
Congresso Nacional, no fim do Eixo Monumental

Paulo Cabral, enviado especial a Brasília

 Clique aqui para ouvir a reportagem de Paulo Cabral

A menos de 20 quilômetros do Eixo Monumental, onde ficam os ministérios, o Congresso e o Palácio do Planalto, cerca de 3 mil pessoas vivem do que Brasília joga fora.

São catadores de lixo que passam o dia andando em cima dos refugos da capital jogados no Lixão – ou Aterro Controlado, na nomenclatura oficial - da Estrutural, buscando tudo o que possa ser usado ou vendido.

"É calor, é poeira é sujeira. A gente não pode ficar aqui assim, morrer de velho em cima do lixo", disse Yorones Gomes dos Santos, 52 anos de idade e 14 de lixão.

"É bom que a gente ganha um dinheiro, que nem é muito. Mas a gente não tem nenhum futuro."

Lixo


Catadores trabalham no Lixão da Estrutural
É pelo dinheiro que estas milhares de pessoas enfrentam a montanha malcheirosa e cheia de urubus todos os dias.

Uma parte dos catadores usa luvas para revolver o lixo, mas muitos trabalham com as mãos nuas. Eles têm de examinar os montes rapidamente porque logo os tratores empurram o lixo para ser aterrado.

Os caminhões não param: são em média 1,8 mil toneladas de lixo por dia.

Um catador rápido e forte, que trabalhe o dia inteiro, pode chegar a ganhar R$ 150 por semana, uma renda boa se comparada aos empregos que um trabalhador com pouca ou nenhuma qualificação normalmente conseguiria.

Mas o mais comum é o catador conseguir algo em torno de R$ 50 por semana, vendendo garrafas plásticas, sacos de lixo, latinhas, placas de computador, aparelhos eletrônicos quebrados e diversos outras sobras da cidade.

Empresários informais


Escritório de compra no lixão
Todo o material é vendido dentro do próprio lixão, a catadores que se tornaram empresários informais e montaram escritórios de compra com papelão e cadeiras encontradas no lixo.

Com sorte, os catadores também encontram roupas e calçados, ou até relógios e celulares funcionando.

E dinheiro cobre o chão do aterro: são notas gastas, falsas ou com falhas, que o Banco Central picota em pedacinhos do tamanho de confete, que acabam se espalhando pela superfície do lixão.

Há um projeto do governo distrital de acabar com o Lixão da Estrutural, que fica ao lado de importantes mananciais de água do Distrito Federal. Mas os moradores resistem.

"A gente não quer acabar com o lixão. A gente quer condições para trabalhar, mais carros, mas aqui é nosso único meio de renda para sustentar nossas família", disse o catador Ronaldo Lima.

Medo de invasão


Lixão surgiu junto com Brasília
Atualmente, apenas quem está cadastrado na Associação de Catadores pode explorar o lixão.

O sistema foi criado porque o Serviço de Jardinagem e Limpeza Urbana de Brasilia (Belacap) temia que uma invasão do aterro atrapalhasse os serviços e acabasse deixando pouco lixo para cada catador.

O Lixão da Estrutural começou junto com Brasilia - em 1961 - e, poucos anos depois, os primeiro barracos de catadores foram montados.

A invasão ganhou o nome de Cidade Estrutural e tem hoje cerca de 5 mil casas e barracos e 20 mil moradores.

Campanha


Claudinei Santos
Com a chegada das eleições, muitos candidatos foram à vila – a entrada deles é proibida no lixão – em busca de votos.

O catador Claudinei Santos espera que as promessas sejam cumpridas.

"Precisa de uma melhora para a população. Precisa de encanamentos, asfalto, escolas", disse. "E um serviço melhor para a gente."


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