| 17 de setembro, 2002 - Publicado às 11h08 GMT |
| Elites 'sentem vergonha' da pobreza no Brasil |
 Elites não se identificam com pobrez, diz analista
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Rodrigo Amaral
Especialistas afirmam que o combate à pobreza nos países em desenvolvimento poderia ser mais efetivo caso suas elites nacionais estivessem mais envolvidas com esse processo.
Pesquisadores do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento da Universidade de Sussex (IDS), vêm estudando a percepção das elites sobre o problema da pobreza em diversos países e chegaram à conclusão que, se as elites modernas não se opõem a ajudar os pobres, também não conseguem se identificar com a situação vivida por eles.
“A pobreza não é algo de que as elites nacionais estejam conscientes”, afirma o economista Mick Moore, do IDS. “Em geral há uma atitude de distanciamento. Elas precisam de alguma forma ser lembradas da pobreza e dos problemas que isso acarreta para elas”.
A situação não é muito diferente no Brasil, segundo Moore, mas o país apresenta algumas peculariedades que chamaram a atenção dos pesquisadores do IDS.
As entrevistas feitas com membros das elites econômicas e intelectuais do Brasil levaram à conclusão que eles têm vergonha do fato de que ainda exista tanta pobreza no país e são favoráveis a medidas como a reforma agrária.
Desigualdade
“No Brasil, há tanta desigualdade, que, quando se fala de pobreza, as elites logo pensam na desigualdade social”, diz Moore. “É impossível para elas separar esses dois problemas.”
O IDS também chegou à conclusão de que a persistência de altos níveis de pobreza faz com que as elites brasileiras temam pela imagem que o mundo tem do país.
“As elites consideram que o Brasil merece ser tratado como um país em desenvolvimento moderno, o que de fato é”, diz Moore.
“Mas elas acreditam que a existência de tanta pobreza é um obstáculo ao desenvolvimento e um motivo de vergonha.”
Ele afirma que a solidariedade com os mais pobres se manifesta sobretudo em temas como a situação dos camponeses que são explorados por grandes proprietários de terra.
“Há grande simpatia entre as elites brasileiras com relação à idéia dar mais terra para os camponeses mais pobres”, diz Mick Moore.
Engajamento
Mesmo quando existe algum grau de simpatia com o fardo suportado pelos mais pobres, os pesquisadores do IDS afirmam que é uma outra história conseguir engajar os mais privilegiados na luta contra a pobreza.
“Não existe grande oposição ativa a políticas contra a pobreza por parte das elites”, afirma Mick Moore.
“Mas elas podem se opor ao uso de dinheiro público para financiar esses programas, em parte porque são essas elites que pagam os impostos, em parte porque elas podem ter a percepção de que o dinheiro é usado de forma ineficiente ou para fins políticos.”
Ele diz que uma estratégia que pode ser usada para mudar essa situação é mostrar que o problema da pobreza tem um alcance bem mais amplo do que os sofrimentos do dia-a-dia de quem não tem suficientes condições de vida.
Isso pode ser feito mostrando, por exemplo, que a disseminação de doenças como resultado da baixa qualidade de vida em algumas áreas das cidades pode atingir também as famílias privilegiadas.
Outra forma, segundo Mick Moore, é insistir nas vantagens comuns de acabar com a pobreza.
“Pode-se argumentar, por exemplo, que uma sociedade moderna e eficiente precisa de uma mão-de-obra educada, e que portanto a existência de pobreza tem um forte efeito no desempenho da economia.”
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