| 13 de setembro, 2002 - Publicado às 19h25 GMT |
| Relação entre soldados dos EUA e afegãos ainda é difícil |
 Soldados olham com curiosidade para o tradutor
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Graciela Damiano, enviada especial a Cabul
"Será que eles gostam da gente?" Essa era a pergunta que o capitão Mark Givens tinha na cabeça enquanto era entrevistado por mim na Base Aérea de Bagram, perto de Cabul, a capital do Afeganistão.
Givens, natural do Estado americano de Nova Jersey, olhava com curiosidade para Sayed Hashmatullah, o jovem afegão que vinha trabalhando como o meu tradutor de dari (persa).
Sayed esqueceu de trazer a credencial de imprensa para a visita à base. Foi recebido com cortesia, mas com um misto de curiosidade e desconfiança.
"O povo local é bom, exatamente como eu e você, eles estão tentando sustentar a familia, fazer a coisa certa. O que aconteceu com este país é que foi permitido que esses terroristas viessem e se infiltrassem", disse Givens.
Documentos
Sayed precisou encontrar um de seus documentos para ser copiado. Teve sua foto tirada com uma máquina polaróide. Foi mantido sob vigilância até ser identificado.
Assim que sua identidade foi confirmada, foi cercado aos poucos por alguns soldados americanos.
“Então quer dizer que você é do Talebã?", indagou Givens, tentando uma piada.
Sayed riu, tímido. Expliquei que a família de Sayed, assim como a de vários outros afegãoes, teve que pagar ao Talebã o equivalente a cerca de US$ 50 por mês para que ele não fosse obrigado a lutar para defender o antigo regime que dominava o Afeganistão.
Os soldados americanos olhavam para ele, admirados. E Sayed, silencioso, olhava com admiração para os uniformes.
No fim, perguntaram ao jovem afegão o que o povo achava da presença deles ali.
Sayed disse que o que os afegãos mais queriam era se livrar do Talebã. Se os americanos fizeram isso por eles, a reação era de agradecimento.
Perguntei ao capitão se ele tinha sentido necessidade de odiar a Al-Qaeda e o Talebã para encontrar motivação para lutar.
Em dezembro do ano passado, junto ao Ponto Zero, em Nova York, eu encontrara um soldado americano que me dissera que o ódio era parte da atividade militar.
Tristeza e lástima
“Não. Para mim, é mais um sentimento de tristeza e lástima que alguma pessoa ou entidade tenha sentido que essa é a única forma de ser ouvida. Tento deixar o meu coração não se encher de ódio", disse Givens.
Perguntei se ele não tinha medo dos métodos audaciosos do inimigo. Givens evitou a resposta.
Reservista, ele se viu convertido do dia para a noite de representante de vendas de laboratório médico a soldado do outro lado do mundo.
Mas Givens não reclama.
"Ontem mesmo, eu estava conversando com algumas enfermeiras e chegamos à conclusão de que isto não tem sido divertido, mas é, sem dúvida, uma das maiores experiências de nossas vidas. Estar em uma terra distante, servindo ao meu país. Nosso moral está alto, há muita camaradagem neste lugar e nós sentimos que fizemos diferença no que aconteceu na guerra contra o terror”, disse o soldado americano.
Dos Estados Unidos, este pai de duas filhas pequenas, de 37 anos de idade, confessa ter saudades dos restaurantes de fast-food.
“Eu sinto muita falta da minha família, a quem devo ver nos próximos dias", conta.
Givens leva para as filhas uma lembranca desta viagem: uma foto com um afegão, que diz estar feliz com a presença das tropas americanas no país.
Givens pode estar de mochila pronta para voltar para os Estados Unidos. Mas há muita gente que acredita que os americanos vão ficar em Bagram ainda por muito tempo.
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