| 16 de setembro, 2002 - Publicado às 10h48 GMT |
| Economista vê lição em 'esforço de guerra' do Vietnã |
 Vietnã está conseguindo avanços na área social
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Rodrigo Amaral
O combate à pobreza exige o forte engajamento do Estado - quase como um esforço de guerra.
É o que diz o economista John Clark, ex-Banco Mundial e hoje na London School of Economics, que cita o caso do Vietnã como um exemplo a ser seguido pelos governos de países onde uma grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza.
“No Vietnã, tem-se a impressão de que a mesma disposição com que eles lutaram a guerra contra os Estados Unidos está sendo dirigida para a guerra contra a pobreza”, diz ele.
A experiência vietnamita também é recomendada por Clark por estar levando em frente outra medida que ele considera fundamental: a delegação de responsabilidades para as comunidades locais.
“Uma medida crítica no Vietnã foi a devolução de poderes para as províncias e para os distritos. Anteriormente, o planejamento era todo feito pelo governo central”, diz John Clark.
“O governo do Vietnã está tentando colocar os pobres no comando de seu próprio desenvolvimento.”
Prioridades
A receita para enfrentar a pobreza é composta de uma série de medidas como investimentos no ensino fundamental e no atendimento básico de saúde, o acesso à Justiça para os mais pobres e outras ações em áreas sociais.
O fato de a fórmula ser conhecida, porém, não significa que ela é aplicada.
John Clark diz que as prioridades de investimentos nem sempre atendem às necessidades dos mais pobres.
“Em muitos países em desenvolvimento, vê-se que os governos gastam quantias consideráveis de dinheiro com a área social, mas os gastos acabam se concentrando nas grandes cidades, ou na educação superior ao invés da primária”, cita ele como exemplo.
“Especialmente em um país grande como o Brasil, é preciso pensar em uma estratégia que coloque o foco nas regiões mais pobres do país.”
Clientelismo
Mas as medidas para criar empregos e melhorar a educação e a prestação de serviços de saúde não dão resultados imediatos. Enquanto os efeitos ainda são parciais, é preciso adotar esquemas para melhorar a situação de quem vive na pobreza. (Clique aqui para conhecer o caso do Oportunidades, no México).
Esse tipo de iniciativa normalmente implica algumas complicações – não raro rendendo acusações de uso político das verbas destinadas a aliviar o fardo dos mais pobres.
Para definir as prioridades, de acordo com John Clark, nada melhor do que ouvir os maiores interessados – ou seja, as pessoas que vivem nas comunidades onde os programas de combate à pobreza serão implantados.
É nisso sobretudo que o Vietnã está conseguindo colher resultados, de acordo com o economista da LSE.
O país asiático reduziu dramaticamente seus índices de pobreza nos últimos anos, apesar de ter sido devastado por guerras nas décadas de 1960 e 1970 e ter mantido sua economia fechada para o exterior até a metade dos anos 1980.
Hoje um vietnamita tem uma expectativa de vida superior à de um brasileiro e uma maior chance de receber alfabetização na escola. Isso apesar de a renda per capita no Vietnã não chegar a US$ 2.000, enquanto a do Brasil passa de US$ 7.600.
Campeão da desigualdade
O Brasil, aliás, é um dos países em que se observa com maior ênfase a existência de níveis extremos de riqueza e de pobreza – não por acaso, é considerado um dos campeões mundiais de desigualdade social.
Segundo números da ONU, os brasileiros que estão incluídos entre os 20% mais pobres detêm uma parcela de apenas 2,2% da renda ou do consumo total do país.
Na América Latina, onde o problema da desigualdade social é onipresente, só o Paraguai possui um índice pior que o brasileiro, e no resto do mundo apenas na República Central Africana, na Guiné-Bissau e em Serra Leoa – três dos países mais miseráveis do planeta – os pobres detêm uma parcela menor da renda nacional.
Mas nem só na renda se reflete a pobreza. A melhoria da situação dos mais pobres pode ser tentada mesmo onde os níveis de renda são bastante baixos – como no caso do Estado de Kerala, que, apesar de ser uma das regiões de menor renda da Índia, apresenta indicadores sociais comparáveis aos de países do Primeiro Mundo.
Isso é feito por meio da provisão de serviços públicos como o saneamento, a educação e a saúde – ou, usando o vocabulário desenvolvido pelo Prêmio Nobel da Economia Amartya Sen, garantindo que as pessoas tenham oportunidades para viver da forma que acreditam ser melhor para si mesmas.
Clique aqui para acessar a série especial As Eleições e a Globalização.
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