| 16 de setembro, 2002 - Publicado às 10h43 GMT |
| Combate à pobreza exige mais que criação de riqueza |
 A favela de Paraisópolis, em São Paulo
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Rodrigo Amaral
Muitos especialistas dizem que o processo de globalização está aumentando as distâncias entre países ricos e pobres e também entre as classes sociais no interior das nações.
Outros, porém, acreditam que a globalização também traz oportunidades para reduzir a pobreza, e que as riquezas produzidas atualmente estão melhorando a situação dos pobres no mundo como um todo.
O combate à pobreza é um dos maiores desafios para os países em desenvolvimento, muitos dos quais, a exemplo do Brasil, continuam abrigando milhões de pobres apesar de ter apresentado taxas consideráveis de crescimento econômico durante boa parte do século passado.
Os críticos do processo da globalização afirmam que os governos pouco têm podido fazer contra a pobreza no mundo atual. Para melhorar a situação dos pobres, de acordo com esse ponto-de-vista, seria necessária uma mudança da forma como está organizada a economia global.
Mas há especialistas que defendem que o Estado ainda tem, sim, muito a fazer, e que a globalização não pode servir de desculpa para a falta de ação.
“É verdade que muita gente acredita que a globalização restringiu a capacidade dos governos de enfrentar a pobreza, mas a verdade é que não existe nenhuma evidência que comprove isso”, diz o economista Mick Moore, do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento da Universidade de Sussex, na Inglaterra.
Estado maior
Na opinião de Mick Moore, pode até estar acontecendo justamente o contrário do que denunciam os manifestantes antiglobalização.
| Pobreza em números | Pobres no mundo: 1,2 bilhão
Pessoas vivendo em extrema pobreza: 23%
Famílias pobres na América Latina: 36%
Famílias indigentes na América Latina: 15%
Brasileiros que vivem com menos de US$ 2/dia: 26,5%
Brasileiros que vivem com menos de US$ 1/dia: 11,6% | Ele diz que os países mais integrados com o comércio internacional – uma das características mais importantes da globalização – em geral possuem extensas máquinas estatais.
“Isso pode significar que, na verdade, o que a globalização pode fazer é ajudar o combate à pobreza por meio de ações de um governo mais abrangente.”
Outro economista, o canadense Albert Berry, da Universidade de Toronto, considera que a forma como o processo de globalização está se desenvolvendo não ajuda por si mesmo o combate à pobreza.
“Os últimos 20 anos foram um período de crescente desigualdade na maioria dos países da América Latina, e a região também ficou para trás na comparação com os países ricos”, diz Berry, um especialista no desenvolvimento da América Latina.
Isso, porém, não significa que o Estado se encontra de mãos atadas, e sim que precisa procurar soluções alternativas
“Os países ainda possuem um grande espaço para implementar políticas próprias”, afirma Berry. “A globalização torna isso mais difícil, mas não impossível.”
A dificuldade está em buscar soluções além das idéias que têm vigorado nas últimas décadas – e que, na opinião de Berry e outros analistas, não têm dado grandes resultados no que diz respeito ao combate à pobreza.
Desafios do Estado
“A globalização de fato reduziu o espaço de ação para os governos”, afirma John Clark, um ex-economista do Banco Mundial que hoje leciona na London School of Economics.
“É difícil adotar soluções que são radicalmente diferentes das ortodoxias aceitas internacionalmente.”
Paradoxalmente, porém, Clark recomenda que uma das formas de escapar desta arapuca é fazer algo que, à primeira vista, vai em sentido contrário do processo de globalização: devolver poderes para as comunidades locais.
“Um desafio para o Estado nacional vem da globalização e da necessidade de adaptar as políticas nacionais ao ambiente internacional. Mas outro desafio vem de baixo, da consciência de que é melhor ter soberania a nível local, ao invés de a nível nacional”, diz Clark.
Segundo ele, a experiência mostra que os governo centrais são especialmente inaptos na hora de transformar o desenvolvimento em realidade no dia-a-dia das pessoas. (Clique aqui para saber mais.)
Clique aqui para acessar a série especial As Eleições e a Globalização.
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