| 11 de setembro, 2002 - Publicado às 21h04 GMT |
| Mercado negocia milhões de dólares diariamente |
 Afegão observa notas em mercado de câmbio
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Graciela Damiano, enviada especial a Cabul
Na escola, aprende-se que a Alemanha passou por uma hiperinflação. Nos livros de história, vê-se ilustrações de gente carregando tijolos de dinheiro, às vezes até em um carrinho. Dinheiro cuja impressão vale mais do que o seu valor nominal.
Em Cabul, a imagem é ao vivo e em cores, em pleno século 21. Sarai-e-Shahzada, que em dari (persa) significa príncipe, é um mercado onde, há cem anos, os afegãos e estrangeiros no país trocam dinheiro.
Os cambistas estimam que sejam convertidos diariamente milhões de dólares em operações que parecem extremamente informais.
O presidente do Banco Central afegão, Anwar Ahady, quer trocar a moeda, mas manter o mercado livre de câmbio.
Feira livre
Dentro do mercado, funcionam 300 lojas de câmbio, que trocam de marcos alemães a rupias paquistanesas. Mas a moeda preferida é o dólar americano.
Já na entrada, são vistos homens sentados no chão com sua toalha à frente, e o produto oferecido - como os feirantes que não têm bancas nas feiras livres. O produto são maços de células atadas por elásticos, nos últimos dias 44 notas de 10 mil afeganes.
Quarenta e quatro mil afeganes equivalem a US$ 1.
Uma calculadora, maços de afeganes em uma mão, alguns dólares na outra, talvez marcos, francos e outras moedas nos bolsos, assim alguns agentes licenciados associados a lojas abordam os fregueses.
Eu perguntei se poderia comprar reais. Um cambista disse que já viu o real do Brasil uma vez, mas há muito tempo. Não encontrei reais no mercado nem algum outro negociante que tenha se deparado alguma vez com a moeda brasileira.
Custo de vida
Eu troquei US$ 30 e recebi 132 notas, sem que fosse emitida qualquer forma de registro. As primeiras cédulas já deixei com uma mendiga na porta, que não ficou muito impressionada.
Pão com 200 gramas custa 2 mil afeganes. O litro de leite vale 15 mil, o mesmo no momento da gasolina, que vem do Irã.
O salário mínimo na construção civil é de 50 mil afeganes por dia, o equivalente a pouco mais de um dólar. No mercado há cartazes mostrando ao afegão a cara do novo afegane, que deve ser introduzido em outubro.
Amin Kosti, gerente do mercado de câmbio de Sarai-e-Shahzada, disse que o anúncio da nova moeda levou a uma desvalorização do afegane, que chegou a 52 mil por dólar. "Mas depois subiu um pouco, e quando entrar em circulação vai se estabilizar."
Kosti respira aliviado ao ver que os dias do Talebã estão para trás. Segundo ele, naquela época o afegane valia a metade do que vale hoje, ninguém queria a moeda do país.
A inflação nos últimos três meses no Afeganistão está em 1%, segundo o presidente do Banco Central. Mas não existem dados relativos ao Talebã.
"O Talebã nem sabia o que era isso", disse Anwar Ahady. Que as próximas gerações de afegãos só conheçam os carrinhos de dinheiro em gravuras de livros de história.
Leia também: BC afegão troca moeda para organizar economia
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