| 13 de setembro, 2002 - Publicado às 17h52 GMT |
| BC afegão troca moeda para organizar economia |
 Afegão com monte de afeganes que vale US$ 60
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Graciela Damiano, enviada especial a Cabul
Mal esquentou a cadeira, o presidente do Banco Central do Afeganistão, o economista Anwar Ahady, no posto há cerca de três meses, resolveu trocar a moeda do país, o afegane.
"Embora seja muito dispendioso, demorado e difícil, nós devemos comecar de novo, acabar com a moeda antiga e introduzir uma nova para que o Banco Central saiba quanto dinheiro circula", disse Ahady, em entrevista à BBC Brasil.
Mesmo que o governo ainda não controle todo o território do país, onde comandantes de milícias ainda têm muita força, o afegão Ahady está confiante que vai conseguir distribuir o "novo afegane", com três zeros a menos, em todo o país, até dezembro.
Ahady, radicado nos Estados Unidos há mais de 20 anos, voltou à sua terra natal para encontrar pelo menos quarto moedas diferentes em circulação, um banco central que não fixa taxa de juros e não tem idéia da taxa de inflação. "O Talebã nem sabia o que era isso", disse o presidente do banco. Leia abaixo a entrevista de Ahady.
BBC Brasil - O sr. está iniciando uma economia praticamente do zero. Qual é a sua estratégia?
Anwar Ahady - Minha preocupação é com a questão monetária, a moeda e a política monetária. A situação da moeda é terrível. Como o Banco Central não tinha controle sobre a impressão da moeda, várias cédulas diferentes ainda estão em circulação.
Nós não sabemos exatamente quanto dinheiro está em circulação. O dinheiro em circulação não tem registro no Banco Central. É uma situação muito caótica. Então eu pensei que, embora fosse muito dispendioso, demorado e difícil, nós deveríamos começar de novo, acabar com a moeda antiga e introduzir uma nova para que o Banco Central saiba quanto dinheiro circula e tenha controle sobre sua impressão.
Eu quis fazer isso com a finalidade de permitir elaborar uma política monetária. Se eu não sei quanto dinheiro há no mercado, como vou saber se devo contrair ou expandir a base monetária? Então por isso eu decidi de imediato introduzir uma nova moeda, e isso é uma tarefa imensa.
BBC Brasil - Que outros planos o sr. tem à frente do Banco Central afegão?
Ahady - Meus planos não se limitam meramente a uma troca de cédulas. Há várias outras coisas que eu pretendo fazer nos próximos dois anos de governo provisório. Por exemplo, uma mudança legal. Eu gostaria que o banco fosse independente do governo. Nós somos parte do Estado, mas as decisões do gabinete não deveriam ser obrigatórias.
Nós deveríamos poder decidir profissionalmente a política monetária correta e não apenas imprimir dinheiro, porque o governo precisa financiar seu déficit. Eu também quero uma legislação bancária mais liberal para que os bancos estrangeiros e domésticos possam se estabelecer. Outro plano que eu tenho é de informatização das nossas operações. Quando eu cheguei aqui, havia dois ou três computadores, que só eram usados para datilografia. Agora nós temos 15 computadores, mas precisamos de muitos mais e de programas adequados. Nos próximos meses, nós devemos ter informatização de todo o banco, e eu quero que este seja um banco central de fato e não um banco comercial. Tem funcionado como tudo.
 Ahady pretende recuperar economia em dois anos | BBC Brasil - O sr. chegou aqui há três meses. Quanto dinheiro encontrou no banco?
Ahady - A coisa boa sobre o banco é que, graças a Deus, a maior parte das reservas estava na Europa e nos Estados Unidos e quando se impôs um congelamento por causa do Talebã, eles nao puderam mexer. Então nós não estamos numa situação ruim. Na verdade, no que diz respeito às nossas reservas em moeda estrangeira, nossa posição é boa.
Eu não quero dizer quanto dinheiro temos lá, mas são centenas de milhões de dólares. Nós temos ouro no Federal Reserve Bank de Nova York, armazenado no Kentucky, e tem estado lá desde 1949. Alguém teve visão e enviou para lá para que ninguém pudesse tocar nele. E isso ajuda de fato o balanço do banco. Nós não estamos endividados. Nós não temos muito em reservas estrangeiras, mas temos o suficiente para sustentar nossa moeda. Muita gente acha que nós estamos em má situação, mas do ponto de vista de reservas não estamos.
BBC Brasil - Os chamados "senhores da guerra" do Afeganistao (comandantes de milícias locais) imprimiam dinheiro. Quantos fizeram isso?
Ahady - Nós sabemos que o general (Abdul Rashid) Dostum (comandante uzbeque da regiao de Mazar-e-Sharif, hoje vice-ministro da Defesa) imprimiu dinheiro. As pessoas dizem que há dinheiro do (ex-comandante mujahedin Gulbuddin) Hekmatyar. O dinheiro de Dostum você encontra no norte, do Hekmatyar se vê ocasionalmente, mas não há muito.
Há também moeda padrão. Muito foi impresso no regime do Talebã e antes, no governo (de Burhanuddin) Rabbani (1993-1996). Mas essas cédulas não foram impressas pelo Banco Central. Há uns quatro tipos diferentes de cédulas.
BBC Brasil - Moeda é baseada em confiança. As pessoas trocavam cédulas de um tipo por outro indiscriminadamente?
Ahady - Você precisa de dinheiro, então mesmo que seja ruim você aceita. A moeda afegã hoje é uma moeda ruim. Ela está sempre se desvalorizando, usam-se grandes quantidades (que valem pouco). Basicamente é uma moeda ruim, então pensamos em trocar as cédulas. Mas que opções as pessoas têm? Ou elas usam essa moeda ou moeda estrangeira. O governo e os "senhores da guerra" imprimiam esse dinheiro para financiar a guerra, então o povo não teve muita escolha.
BBC Brasil - Como o sr. vai lidar com essas cedulas diferentes quando implementar o novo afegane?
Ahady - Nós decidimos aceitar a cédula de Dostum, de Rabbani e a cédula padrão. As duas primeiras, conhecidas como número de série 35 ou mais, terão a metade do valor. Esse já é o valor no mercado.
BBC Brasil - Essas cédulas são iguais, mas têm números de série diferentes?
Ahady - Elas têm pequenas diferenças. Onde se escreve Banco do Afeganistão, nas cédulas normais as palavras estão mais próximas, na cédula de Dostum o número de série não está muito claro, na normal sim. Se alguém não lhe disser isso, você nem nota.
BBC Brasil - Esses comandantes não estão mais imprimindo cédulas, estão?
Ahady - Dostum não está mais produzindo moeda há algum tempo. As outras notas, soubemos dos impressores que não estão mais fabricando. Provavelmente eles estão falando a verdade, mas nós não estamos totalmente certos disso.
BBC Brasil - O governo ainda não tem o domínio completo do território nacional. O sr. é um técnico. Sente-se mais confortável nessa posição? Acha que consegue uma unidade monetária no país?
Ahady - Mesmo que os "senhores da guerra" sejam muito poderosos, acho que não serve aos interesses deles recusar essa moeda. Eu acho que eles sabem disso. Eles não podem desafiar abertamente o governo central, porque sofreriam a oposição da coalizão internacional. Na prática podem, mas não abertamente. Então eles têm que aceitar a nova moeda. Eu estou confiante de que seremos bem sucedidos.
Do ponto de vista logístico, a operação será difícil. Será muito cara. Este é um país enorme, e há pequenos vilarejos em todo canto. Para algumas pessoas, será difícil ir a um posto de troca, então temos que chegar a eles. Estamos estudando a possibilidade de dar uma comissão para cambistas de acordo com a quantidade de moeda que eles trocarem. Não queremos que o povo saia prejudicado (com a troca da moeda).
BBC Brasil - Qual é o cronograma para a troca da moeda?
Ahady - O período de troca de moeda é de dois meses. Nós vamos começar no dia 7 de outubro e terminar no dia 5 ou 6 de dezembro. Estimamos que 15 trilhões de afeganes estejam em circulação. São cerca de US$ 450 milhões no câmbio atual. Se a minha estimativa é correta, com as nossas reservas estaremos em condições de sustentar nossa moeda. Imprimimos dinheiro suficiente por dois anos ou até mais. As cédulas foram impressas na Alemanha.
BBC Brasil - Que tipo de apoio o banco teve da comunidade internacional?
Ahady - Nós não tivemos nenhum apoio no custo da impressão. Nós pedimos aos países-doadores. Nós pedimos ajuda ao governo alemão, mas parece que o orçamento deles deste ano para o Afeganistão esgotou. Mas para o custo de distribuição esperamos conseguir ajuda de várias organizações, principalmente da Comissão Européia e do governo britânico.
BBC Brasil - Em termos de segurança, o sr. conseguiu promessa de ajuda internacional?
Ahady - Essa é uma questão dificil. Vou discutir essa questão com o ministro da Defesa, Mohammed Fahim, e tenho certeza de que ele vai cooperar. Mas, enquanto houver esse estado de falta de lei no país, há riscos. E vamos pedir o apoio de autoridades locais.
BBC Brasil - E a inflação? O sr. tem metas? A quanto está a inflação no país?
Ahady - Eu não sei sobre este mês. Mas nos últimos três meses foi bom. A inflação foi bem baixa, de cerca de 1% ou menos. E nós temos algum crédito por isso, porque a nossa política monetária tem sido bem rigorosa. Nós não imprimimos dinheiro e temos usado moeda estrangeira para comprar de volta afeganes e achamos que deu resultado. Infelizmente a moeda sofreu uma desvalorização na semana passada por causa da mudançaa das cédulas.
Eu acho que nesse tipo de situação o problema é psicológico. Às vezes surgem falsos rumores, mas eu espero que com o tempo ela se estabilize. Um país que passa por uma reconstrução recebe muito dinheiro estrangeiro, e quando você recebe esse dinheiro você vai ter inflação, porque a economia não vai acompanhar a quantidade de dinheiro injetada na economia. Então você tem que aceitar um certo nível de inflação, não importa o que você faça. Durante a reconstrução eu vou aceitar de 10% a 15% de inflação ao ano.
BBC Brasil - Qual era a inflação durante os anos de regime Talebã?
Ahady - Eu não sei. Ninguém recolhia dados. O Talebã nem sabia o que era inflação. É por isso que agora nós temos uma tarefa tão árdua pela frente. Nós não temos balançoss, registros de depósitos, nada dos últimos cinco anos.
BBC Brasil - Onde as pessoas mantinham suas contas?
Ahady - As contas estavam todas fechadas, as pessoas mantinham dinheiro em casa.
BBC Brasil - E as taxas de juros?
Ahady - Nós não fixamos taxas de juros. Nós esperamos que em um ano ou dois o banco esteja em condições de fazer isso.
BBC Brasil - Então como se calculam os juros no país?
Ahady - Bom, nós temos uma taxa "de facto", que é com o que se concorda. Depende da moeda que você está usando. Se você usar dólares, seria em torno de 12%, o que é razoável. Mas, se você emprestar a alguém um afegane, quem sabe? Essa é uma das razões por que nós estamos introduzindo uma nova moeda, porque é tão difícil calcular os custos de empresas, se estão tendo lucro ou não. Nominalmente você está (ganhando dinheiro), mas na realidade está tendo prejuízo. Porque mesmo que alguém te dê, por exemplo, 20%, em juros por seu afegane e ele sofre uma desvalorizacao e voceh toma prejuizo.
BBC Brasil - No centro de Cabul, há esse imenso mercado de câmbio. O sr. pretende mantê-lo totalmente livre desse jeito?
Ahady - Nós vamos encorajar o mercado aberto. O banco vai oferecer seus serviços, e vamos competir com eles. Os cambistas não oferecem todos os serviços bancários. Os que oferecerem, nós gostaríamos de converter em bancos. Mas, mesmo nos países desenvolvidos você tem cambistas. É conveniente.
BBC Brasil - O sr. se inspirou em algum sistema monetario para implantar no Afeganistao?
Ahady - Eu tenho um MBA da Universidade de Chicago que é muito prestigiosa, eu trabalhei em banco mercantil em Chicago, sou professor de economia política em Provicence. Eu pensei sobre o assunto. Na verdade, eu propus uma troca de moeda no Afeganistao em 1996. Quando o Talebã assumiu, eu pensei que a situação estava caotica, e eu achei que o dinheiro deveria mudar. A coisa estranha é que o banco central não tem controle sobre a impressão da moeda, e isso é uma estupidez.
BBC Brasil - Em quanto tempo o sr. espera sentir que preside o Banco Central de um país com uma economia estável?
Ahady - No final do governo de transição. Em menos de dois anos. Este governo está no poder há uns dois meses e deve durar dois anos. Até lá deveremos ter tudo: um sistema bancário, todos os indicadores econômicos e macroeconômicos, Banco Central, bancos comerciais, informatização, legislação nova para o setor bancário…
A única coisa que eu não sei se poderei fazer em menos de dois anos é mudança de pessoal. Leva muito tempo para treinar as pessoas. No momento estou trabalhando com afegãos, mas claro que o banco precisa de profissionais modernos. Pelo menos uns 20 ou 30. E eles podem treinar outros.
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