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08 de setembro, 2002 - Publicado às 18h22 GMT
Jornalistas dormem embalados pelo som dos geradores
Cabul, destruída pelos anos de guerra
Cabul, destruída pelos anos de guerra

Graciela Damiano, enviada especial a Cabul

Cabos e tomadas por toda a parte e nenhum quilowatt à vista. Essa é a rotina de trabalho de muitos jornalistas em Cabul.

O gerador soa como um motor mal calibrado permanentemente acelerado com o pé fundo no pedal, com repiques de serra elétrica. Acaba virando música nos ouvidos de quem tem tanta bateria para alimentar.

O ruído vira parte constante da atmosfera, como a poeira permanentemente no ar da cidade.

A eletricidade vem e vai. Às vezes sente-se um cheiro de queimado, mas eu aprendi a não sair mais correndo com medo de incêndio. Aqui, no momento, é assim mesmo.

À espera dos satélites

Equipamento hi-tech – celulares via satélite de todos os tipos, laptops, câmeras digitais, gravadores de minidisc – tudo isso precisa de bateria.

Antes de dormir, dá-se boa noite a plugues que dormem quentinhos colados à extensão da tomada.

A grande maioria dos afegãos aprendeu a viver com lâmpadas de óleo, aquecimento a gás, velas e escuridão.

Satélites são avidamente esperados no céu de Cabul. Com a precariedade da rede de telecomunicações, a maioria dos telefones que funciona é desse tipo.

Com a falta de iluminação nas ruas, o céu estrelado de Cabul dá um espetáculo à parte. A iluminação urbana é precária. Mesmo porque, como me disse um motorista afegão, no passado as luzes serviram involuntariamente para melhorar o alvo de muito dono de Kalashnikov.

Da meia noite às 3 e meia da manhã, vigora um toque de recolher. Minha colega de quarto na pensão tem acordado todas as noites sobressaltada.

"Helicoptéro americano! É um caça!", diz ela. Mas, fora o ruído ocasional de jatos do aeroporto próximo, ainda não ouvi nada.

E durmo ninada pela "canção" do gerador, confiante de que terei baterias bem nutridas no dia seguinte.

Toda a manhã, você concorre a uma loteria: a pouca água que vem do chuveirinho vai ser quente ou a gelada que dói quando bate na pele?

Os banhos não podem ser muito demorados e a gente se acostuma a conviver com a poeira cinzenta que gruda na pele depois de alguns dias.

Um colega americano comentou que é a poeira de anos de destruição. Acho que o clima seco ajuda na aderência.

Nariz sangrando também é comum para quem não está acostumado com um ar tão seco sob um calor de mais de 30 graus.

Intercontinental

A maioria dos jornalistas e delegados de missões de organizações internacionais se cruza nas pensões e entrevistas repentinas surgem à hora do café da manhã.

As pensões eram mansões de uma elite que se mudou para o subúrbio e aproveitou para ganhar com aluguéis de até US$ 3 mil.

Elas são um contraste com o imponente Hotel Intercontinental, que fica no topo de uma colina. No Intercontinental se vislumbra o requinte de outros tempos em Cabul.

Mas mesmo ali os sinais de descuido são grandes. O vazamento no teto do restaurante e em alguns quartos, por exemplo.

Tudo isso parece diminuir diante do clima de certo otimismo que existe, pelo menos em Cabul.

Um clima que é compartilhado por jornalistas, representantes de organizações internacionais de ajuda e do povo nas ruas. Boa parte dos afegãos está cansada de guerra.

Clique aqui para ler o especial sobre um ano de 11 de setembro
 
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