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03 de setembro, 2002 - Publicado às 11h56 GMT
Obra de combate à seca é retomada no sertão de Alagoas
Delmiro Gouveia retoma obras de combate à seca
Delmiro Gouveia retoma obras de combate à seca

 Clique aqui para ouvir a reportagem de Paulo Cabral

Paulo Cabral, enviado especial a Delmiro Gouveia

Depois de dez anos de paralisação, a mais importante obra no combate à seca no sertão alagoano foi retomada, a menos de três meses das eleições.

Em Alagoas, ninguém discute a importância do Canal do Sertão – um projeto de 600 milhões de dólares para irrigar um terço do interior do Estado com água captada no Rio São Francisco - mas é grande o medo de que ele não passe das eleições.

"Falavam muito deste projeto, mas só agora no limiar das eleições é que alguém se dispôs a conseguir esta verba. Mas isso são coisas de eleição e a gente não tem a menor segurança de que este obra vai continuar", disse o secretário de Administração do município de Delmiro Gouveia, onde as obras foram reiniciadas, José Clênio dos Sasntos.

"Esse canal, se Deus ajudar que ele seja concluído, vai ser a salvação econômica do Estado de Alagoas, como a irrigação salvou Petrolina, em Pernambuco", disse.

Longo prazo

O governo de Alagoas garante que os recursos para a primeira fase do projeto estão garantidos e que o canal vai continuar.

"Esta é uma obra de longo prazo que nem renderia votos agora. Não faz nenhum sentido falar em projeto eleitoreiro", disse o secretário de Infra-estrutura de Alagoas, José Jaílson.

O Canal do Sertão é um dos projetos estratégicos do programa Avança Brasil – outro argumento usado pelo governo para negar o risco de paralisação – e a União paga 90% dele, enquanto o Estado entra com uma contrapartida de 10%.

A liberação dos primeiros R$ 9 milhões no Orçamento Geral da União (OGU) de 2001 para a primeira fase – e a garantia de mais R$ 21 milhões no OGU de 2002 – foram conseguidas principalmente pela pressão dos senadores e candidatos à reeleição Teotônio Vilella Filho (PSDB) e Renan Calheiros (PMDB).

O coordenador técnico do projeto, Denison Tenório, explicou que a obra está sendo planejada de maneira modular.

"Como é um projeto muito grande, vamos construí-lo aos módulos, de modo que uma parte possa ser colocada em operação antes de tudo estar concluído."

Os R$ 30 milhões que em princípio já estão garantidos no orçamento são suficientes para construir a tomada de água no lago da barragem de Paulo Afonso, no Rio São Francisco e para fazer as estações elevatórias, que fazem a água escoar pelos canais sertão adentro.

Mas estes recursos ainda não são suficientes para iniciar a contrução dos canais de fato.

Por enquanto, a retomada das obras está beneficiando a população pobre da região de Delmiro Gouveia, que faz divisa com a Bahia e com Pernambuco.

No povoado de São José, dezenas de homens ficam por horas esperando sentados ao longo da única rua que um funcionário da empreiteira Odebrecht , a responsável pelo trabalho, venha "fichar" – cadastrar trabalhadores interessados em uma vaga.

"Eu tenho uma vendinha aqui perto mas, estou precisando de dinheiro. Se alguém vier fichar eu ficho", me disse José Fernandes.

Mas ele não tem muita esperança de que este trabalho vá durar muito tempo. "Tem muitos anos que tem este acampamento da Odebrecht aí. E cada vez que tem eleições começam a dizer que vão pegar gente para trabalhar", disse.

Outro trabalhador em busca de emprego no Canal do Sertão é Francisco Roberto. Ele estava morando em São Paulo mas decidiu voltar a Alagoas.

Roberto é mais otimista. "Eu acho que eles vão levar a sério desta vez. Eu torço para isso, porque o povo brasileiro está precisando muito de trabalho."


 Clique aqui para ouvir a reportagem de Paulo Cabral
 
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