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03 de setembro, 2002 - Publicado às 17h33 GMT
'Guerra ao terror' afastou os EUA da América Latina
Os presidentes Fox e Bush em encontro em 2001
Os presidentes Fox e Bush em encontro em 2001

Hugo Estenssoro

Os efeitos do 11 de setembro nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina foram imediatos e espetacularmente visíveis.

Até essa data, a questão hemisférica era uma das prioridades declaradas da administração Bush; no dia seguinte, tornava-se um detalhe de limitada importância.

Um episódio pinta graficamente essa transformação. No dia 6 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush ofereceu o seu primeiro banquete de Estado na Casa Branca, e seu convidado de honra era o mandatário mexicano, Vicente Fox.

O tema central das relações mexicano-americanas era então a migração de trabalhadores mexicanos para os Estados Unidos, e esperava-se iniciar um rápido processo de acordos para resolver o problema.

Mudança

Nada disso aconteceu. Pior ainda, as exigências do esquema de segurança deflagrado pela chamada "guerra ao terrorismo" fez com que os imigrantes mexicanos, legais e ilegais, passassem a enfrentar novas restrições.

Desde então, o governo Bush tem feito vários gestos de boa vontade. Mas não há maneira de esconder a baixa prioridade que Washington atribui ao hemisfério, embora seja amplamente reconhecido que há para isso excelentes razões.

Ao mesmo tempo fica cada dia mais claro que essa falta de atenção não poderia acontecer em piores circunstâncias, sobretudo na área econômica. O continente, de fato, passa por um de seus momentos mais difíceis desde a malfada década de 80.

É verdade que os próprios americanos amargam uma forte crise que tem derrubado seus mercados. Mas a paralisia de sua política latino-americana tem tido como efeito deixar sem saída os governos da região que têm apostado no modelo americano.

Segundo o evangélio desse modelo, o livre comércio deveria fornecer o estímulo necessário para seguir o exemplo dos Tigres Asiáticos e obter um crescimento rápido e sólido.

Mas a inação de Washington tem frustrado os projetos mais ambiciosos desse setor. O prazo fixado para o início da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é 2005, mas tudo indica que será muito difícil completar o projeto em tempo.

O ideal de criar um mercado hemisférico maior do que a União Européia parece hoje tão distante como na década passada.

Protecionismo

De fato, a necessidade do governo Bush de reconquistar o controle do Senado e aumentar sua maioria na Câmara de Representantes nas eleições de novembro o tem levado a promulgar medidas protecionistas em vários setores.

Apesar dos esforços por eximir a América Latina dos efeitos diretos dessas medidas, o surto protecionista americano - especialmente o programa de proteção agrícola do Congresso - afeta o continente num momento especialmente vulnerável.

Espera-se contudo que a situação mude radicalmente com a "autoridade de promoção comercial" que a presidência americana acaba de receber do Congresso depois de prolongados debates.

Munido dessa autorização especial, o Executivo poderá assinar tratados de livre comércio sem a interferência do Congresso, que só pode aceitá-los ou rejeitá-los sem acrescentar modificações.

O primeiro beneficiário será o Chile, que poderia aderir à área de livre comércio norte-americana (Nafta) até o final de 2002. Outros acordos bilaterais similares poderão ser iniciados e concluídos rapidamente.

O atrativo para a América Latina é evidente. Todos os países que adotaram reformas econômicas viram seus projetos frustrados pelas dificuldades de exportar ao mercado americano que, além de ser o maior do mundo, é também um parceiro natural em termos geográficos e políticos.

A Alca, porém, enfrenta enormes dificuldades, muito diferentes às dos tratados bilaterais. De fato, é um projeto tão complexo que dificilmente poderá ser objeto da atenção americana até a "guerra contra o terrorismo" atingir um ponto de equilíbrio.

O candidato presidencial George W. Bush, que prometeu fazer da América Latina uma "prioridade fundamental" de seu governo, não é o mesmo homem que na Presidência lançou uma cruzada contra o "eixo do mal".
 
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