| 29 de julho, 2002 - Publicado às 23h01 GMT |
| Nobel de economia defende real atrelado ao dólar |
 O economista canadense Robert Mundell
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O economista canadense Robert Mundell, prêmio Nobel de Economia de 1999, disse em entrevista exclusiva ao programa De Olho no Mundo que atrelar o real ao dólar seria “uma decisão excelente para o Brasil”.
“Acredito que atrelar a moeda nacional à moeda de um país (os Estados Unidos) que responde por 25% da comércio mundial significa estabilidade em relação a uma cesta de produtos que compreende 25% da economia mundial. Isso não pode ser mal para nenhum país.”
A entrevista com Mundell abriu nesta segunda-feira a série “Os Rumos da Economia” que está sendo apresentada durante esta semana no De Olho no Mundo – uma co-produção da BBC Brasil e da Rádio Eldorado AM de São Paulo.
Os próximos entrevistados serão os economistas Celso Furtado, José Alexandre Scheinkman, Gustavo Loyola e Francisco Gros.
DONM - O senhor já defendeu a dolarização das economias latino-americanas. O senhor mantém esta posição?
Robert Mundell - O que eu disse no passado é que uma das grandes opções se se quiser criar uma moeda comum – não uma moeda única, mas uma moeda de uso comum entre os países – na área do Mercosul, era que todos atrelassem suas moedas ao dólar.
Haveria estabilidade entre elas, e isso poderia ser a base da criação de uma moeda comum. Eu nunca disse, nem mesmo ao Equador, que efetivamente dolarizou, que deveria dolarizar. Sugeri que alguns países adotassem um sistema de câmbio fixo porque isso permitiria que cada um deles mantivesse a sua moeda, ao mesmo tempo em que haveria uma taxa de câmbio estável.
DONM - E o senhor acredita que esta ainda é uma boa opção para o Brasil neste momento?
Mundell - Atrelar a moeda ao dólar é uma boa solução para os países menores. Para as grandes economias, como é o caso da brasileira, não é tão óbvio que essa seja a melhor solução. Esse foi o argumento que usei quando estive no Brasil em 2000 e andei conversando sobre isso.
Na época contra-argumentavam dizendo que, quando o dólar está forte, a moeda nacional tem de se valorizar muito em relação às outras moedas. Um dos problemas de se ficar atrelado ao dólar é depois ter de se submeter a todas as variações da moeda americana. Mas há um problema com todo sistema monetário. No Rio de Janeiro, em 2000, perguntei como o Brasil iria caminhar para a estabilidade.
A resposta que me deram é que a estabilidade viria com as metas de inflação, que eram de 6% ou 7% naquele ano, e seriam 4% no ano seguinte. Mas em 2001 a inflação não foi de 4%, foi mais alta do que no ano anterior. Então, essa não é uma meta da qual você pode depender de fato.
O fato é que nenhum sistema monetário que existe hoje pode ser perfeito porque, mesmo se você fixar a taxa de câmbio com uma moeda, essa outra moeda vai ficar flutuando em relação a várias outras. Você tem escolher qual é o menos pior dos sistemas.
Os Estados Unidos têm uma política monetária muito boa há 20 anos, e se qualquer país atrelar moeda a de outro que tem uma boa política monetária – principalmente um grande país, como os Estados Unidos, que respondem por 25% do comércio mundial – as moedas domésticas vão ficar estáveis em relação a uma cesta de bens que compreende pelo menos 25% da economia mundial e isso não pode ser ruim para nenhum país. Acho que seria algo excelente para o Brasil.
O governo não teria que ficar pensando o tempo inteiro se deve tomar empréstimos em dólar ou em real. Seria algo no que os investidores poderiam confiar como um âncora para suas decisões: se deveriam estar nos mercados domésticos ou internacionais, sem ter que pensar todo o tempo no risco de flutuações. Acho que atrelar a moeda ao dólar não é o ideal, mas acredito que seja a melhor solução para muitos países da América Latina.
DONM - A crise nas bolsas americanas e a perda de confiança nas empresas causada pelas fraudes contábeis não podem atrapalhar a liderança americana no mundo?
Mundell - Isso foi uma coisa que causou grandes perturbações e desestimulou alguns. Fez com que as pessoas ficassem descrentes em relação ao mercado de capitais. Mas basicamente o que faz as pessoas buscarem esses mercados é a expectativa de lucros e, se a economia se recuperar direito, as coisas vão voltar aos trilhos.
Sempre vamos encontrar corrupção em todos os continentes, e isso é muito ruim. Na verdade foi um efeito cumulativo, com as fraudes contábeis e também as fraudes praticadas por executivos, o que causou um grande choque nos Estados Unidos e no resto do mundo. Mas não acho que isso vai mudar fundamentalmente o que as pessoas sempre fizeram no sistema capitalista, que é fazer investimentos quando houver perspectivas de lucros futuros.
DONM - Professor, na sua opinião, quais foram as implicações econômicas dos atentados de 11 de setembro?
Mundell - Os impactos são bem pequenos. Falaram muito sobre isso, e é claro que foi uma grande tragédia, mas não acho que os efeitos sobre a economia tenham sido tão fortes assim.
DONM - Quando o senhor participou do De Olho no Mundo em 2000, previu uma redução na atividade da economia americana e um fortalecimento do euro. O que está acontecendo agora reflete a opinião dada na época?
Mundell - Já naquele momento, todo mundo podia ver uma desaceleração na economia mundial e na economia americana, porque elas tiveram uma expansão quase sem interrupção por dez anos, sem nenhuma recessão. Então, já era tempo de uma desaceleração, que de fato ocorreu.
Quanto ao euro, ele só existe como uma verdadeira moeda desde 1º de julho, quando foi finalizada a transição. Depois disso o euro recuperou-se e, no longo prazo, quando o euro começar a ser usado como uma moeda para investimento, ele vai se expandir e ficar mais forte. Mas, ao mesmo tempo, um problema de longo prazo para os Estados Unidos vai ser o déficit em contas correntes e o endividamento cada vez maior do governo americano.
DONM - O que vai acontecer nos próximos meses e anos com o euro?
Mundell - O euro foi um grande benefício para o povo da Europa, que hoje tem a segunda moeda mais importante do mundo. Ela é reconhecida em todo o planeta, e usada em todo o mundo. Agora, as empresas européias têm um acesso aos mercados de capitais que não tinham antes. Principalmente os países mais fracos, do sul da Europa, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia.
Há dez anos, eles tinham taxas de juros próximas a 15% ao ano. Hoje as taxas são inferiores a 5%. Isso gera grandes ganhos, vai fortalecer as economias européias e, ao mesmo tempo, vai chamar a atenção para grandes problemas da economia européia. Há problemas estruturais, como o excesso de legislação trabalhista e em mercados de commodities.
Os gastos governamentais são muito altos e o sistema de benefícios sociais é insustentável com a atual situação demográfica européia. Então, se por um lado ele tem grandes benefícios para a Europa, por outro, revela problemas muito profundos que a União Européia tem de resolver.
Mas problema há em todos os países. O importante é saber se eles são reconhecidos, se há uma preocupação em relação a eles e se há mecanismos de ajustes funcionando. Na Europa, há reuniões a cada seis meses, as cúpulas. E em todas as vezes eles estão discutindo esses problemas.
E a Europa está tentando se tornar de fato mais produtiva e se mexendo muito para aumentar a integração, agora também com a Europa Central e a Europa Oriental. Então, toda esta dinâmica está na política, mas esse dinamismo também tem que ser incorporado pelos mercados. Mercados mais dinâmicos deixariam a Europa muito mais forte. No fim das contas, acho que o euro vai ficar forte. Isso não significa que ele vá manter a paridade com o dólar.
O euro pode cair um pouco – pode ficar em um nível de US$ 0,92 ou US$ 0,93, ou até mesmo de US$ 0,90 –, mas vai voltar a subir em algum momento. Para prever o movimento do euro agora, o mais importante é saber como vai ser o ritmo de recuperação da economia americana. Se a economia dos Estados Unidos se recuperar muito rápido, o euro não vai manter o mesmo nível. Ele pode recuar um pouco, mas, no longo prazo, vai permanecer forte.
DONM - Mas se os Estados Unidos vão manter a liderança no mundo econômico, a Europa vai ter condições de manter o euro como uma moeda forte. Há espaço para duas moedas fortes?
Mundell - Acho que sim, porque já tivemos experiências de ciclos de dólar muito forte, mas também tivemos a experiência de um dólar muito fraco no fim dos anos 60 e no começo dos anos 70 – o que ajudou a inspirar a necessidade de um melhor sistema monetário na Europa.
Mais tarde, o dólar se recuperou. Depois de 1973, quando o mundo passou a flutuar as taxas de câmbio. Mas depois, houve de novo um movimento de dólar fraco, no fim dos anos 70, provocado por políticas inflacionárias. E o dólar só se recuperou de novo no começo dos anos 80, com a política expansionista da era Reagan. Mais tarde, em 1985, o dólar voltou a cair.
Então, há esses altos e baixos e eu acho que ter uma moeda alternativa – que permita a troca de uma para a outra em caso de desvalorização de uma delas – é uma boa coisa para a economia mundial. Acho que fortalece a economia mundial haver uma moeda que seja uma alternativa para o dólar.
DONM - O Mercosul poderia seguir o exemplo da Europa e também criar uma moeda única?
Mundell - A Europa criou uma moeda única para 12 países e isto só pode ser feito com um alto grau de integração política, talvez até mais do que a Europa tenha agora. A maioria dos Europeus considera que é necessária mais integração política do que a que existe hoje para fazer a economia européia funcionar direito.
Não acho que haja esse tipo de integração política no Mercosul. Se houvesse uma moeda única, teríamos que perguntar quem iria liderá-la e quem iria administrá-la. Seria o Brasil? Seria a Argentina? Seria um consórcio dos dois? Qual seria a política e quem tomaria as decisões? Primeiro é preciso lidar com essas questões.
Pessoalmente, acho que forçar agora a idéia de uma moeda única para o Mercosul, enquanto nem mesmo as estruturas tarifárias estão definidas, é o meio errado. O melhor é cada país restaurar ou manter sua estabilidade monetária. Quando isso estiver feito, tem que se fazer esforços para ajustar um sistema de câmbio.
Não acho que os países já estejam prontos para essa transformação. Ela só poderia ser feita se houvesse uma espécie de imperialismo e não acho que haja um império que possa tomar esta função para si. Até agora, não há um império na região.
DONM - Qual deve ser o caminho de integração para o Mercosul? Deveria haver uma integração interna, ou o senhor os países deveriam partir imediatamente para Área de Livre Comércio das Américas (Alca)?
Mundell - Essa é uma questão muito política, e para a qual você vai ter respostas diferentes, dependendo de onde você quiser chegar. Se você pensa em formar um bloco político de importância na América do Sul, ou na área do Mercosul, há um argumento para integrar primeiro dentro do bloco.
Mas a questão é qual o tamanho e qual a importância de um bloco desses. Ele tem de ser grande o suficiente para fazer alguma diferença no mundo. É necessário saber se o custos dessa integração, as distorções econômicas e os desvios de comércio provocados por ela.
Haverá vantagens políticas para superar os custos econômicos de uma união deste tipo, para compensar uma aproximação com o Nafta. Eu tendo a pensar que os ganhos políticos, se é que eles realmente existem, são muito pequenos e incertos para valer a pena. Valeria a pena se eles aumentassem a resistência das estruturas industriais no Brasil, na Argentina, no Uruguai… Principalmente em áreas como tecnologia, computadores e Internet. A melhor política é a abertura, porque isso aumenta a tecnologia e melhora a qualidade do capital humano.
DONM - E que vai acontecer com a Argentina?
Mundell - Fiquei muito chateado com o que aconteceu, porque a Argentina era uma economia instável nos anos 80 e quando adotaram o câmbio fixo foi uma boa idéia. Só que a Argentina abusou dele, fazendo o que nenhum país pode fazer, que foi continuar tendo déficits orçamentários e fazendo empréstimos, até chegar a um ponto de perda total da credibilidade.
E tudo acabou entrando em colapso. É uma pena tudo o que aconteceu no último ano e meio. Se o problema do sistema de câmbio atrelado ao dólar era a supervalorização do peso – porque o dólar estava forte –, então talvez fosse melhor apenas desvalorizar o peso e fixá-lo em um novo patamar.
Não há nada de errado com o sistema. Hoje ninguém sabe qual sistema existe. Não há nenhuma âncora de estabilidade e é difícil ver até quais são as implicações legais da moratória. É uma pena porque os Argentinos são pessoas muito capazes, têm muito capital humano. Têm um país rico, com muitos recursos naturais. Deveria ser um país de alta renda, mas está sendo mal administrado.
DONM - O senhor já disse que previa um futuro mais próspero para a economia mundial. Isso também vale para os países em desenvolvimento, como o Brasil e a Índia, e também para países de fato subdesenvolvidos, como os do sul da África?
Mundell - Acho que haverá cenários diferentes. Em muitos países há um problema sério, tanto de organização política, quanto de organização econômica. O grande problema que eu vejo nos países em desenvolvimento é a desorganização no sistema monetário internacional.
Pelo menos no pós-guerra, havia um sistema monetário internacional coerente, que dava um receita de o que cada país deveria fazer para conseguir atingir a estabilidade monetária. Mas agora, todo mundo faz o que quer e, na minha opinião, os países não recebem bons conselhos, nem do Fundo Monetário Internacional.
Não se trata de dizer que a culpa é do FMI, mas o fato é que o sistema dentro do qual o FMI deveria ser um regulador não existe mais. Os países em desenvolvimento vão sofrer por conta disso. Mas, dito isso, não vamos conseguir ir mais além enquanto não prosseguirmos com uma reforma do sistema financeiro e monetário em escala mundial, mudando nosso sistema internacional de trocas.
Mas, no meio tempo, os países que quiserem manter a estabilidade econômica devem evitar ao máximo a corrupção e fazer com que a economia funcione de maneira correta, sem muitos gastos do governo. Uma coisa muito importante é buscar políticas que atraiam o investimento estrangeiro.
Acho que esses países terão sucesso. Acho que o modelo para a América do Sul e para a África deve ser o dos países asiáticos. Eles se deram bem porque deram atenção aos seus sistemas educacionais, o que lhes permitiu atrair e importar tecnologia. Ao mesmo tempo, eles mantinham suas econômicas abertas o suficiente para permitir a entrada de investimento estrangeiro, trazendo junto um com o capital tecnologia e mercado. É isso que os países têm de buscar hoje: capital, tecnologia e mercado.
DONM - A atração de investimento estrangeiro direto agora não pode criar problemas no futuro? No momento em que os investimentos começarem a produzir os seus lucros e os enviarem às suas matrizes, não vai haver algum desequilíbrio nas contas?
Mundell - Isso nunca foi um problema no passado. A História teve muito investimento direto. Os Estados Unidos se desenvolveram no século XIX e até a I Guerra Mundial como importadores de capital e os credores – principalmente a Grã-Bretanha, mas também a França – tinham enormes investimentos nos Estados Unidos.
Os Estados Unidos tiveram que fazer grandes pagamentos para a Europa, mas isso foi mandado de volta para o exterior na forma de superávits comerciais. O Brasil tem dívidas enormes, mas quando a crise das dívidas aconteceu no início dos anos 80 o Brasil tinha um grande superávit comercial, pois estava enviando investimentos e assim pôde se financiar.
Se você cria dívidas, então tem que compensar o pagamento dos juros com investimento estrangeiro, ou com um saldo positivo na balança comercial. Ao mesmo tempo esses investimentos geram empregos. Não acho que nenhum país possa se construir e manter-se por longo tempo criando dívidas mobiliárias, mas investimento direto estrangeiro é algo muito favorável.
Os países que podem atraí-lo estão bem. O melhor exemplo é a China, que hoje é o país que mais atrai investimentos estrangeiros no mundo, com algo como US$ 40 bilhões (cerca de R$ 125 bilhões) por ano ou até mais. É um valor fantástico e que está sendo muito bem usado. O dinheiro está vindo com tecnologia, muita tecnologia avançada, e fazendo com que a China se torne uma potência industrial. Brasil também tem essa capacidade e, embora não seja tão grande quanto à China, pode com certeza ir na mesma direção.
DONM - O que o senhor acha das barreiras protecionistas e subsídios dos países ricos, principalmente em relação à agricultura?
Mundell - Temos um grande problema com os produtos agrícolas. A União Européia tem a sua Política Agrícola Comum, que acredito ser danosa para as exportações agrícolas dos países em desenvolvimento. E a mesma coisa acontece nos Estados Unidos. Acho muito ruim que isso aconteça, mas é assim que funciona. Não vejo uma grande revolução nessas políticas vindo a envolver os Estados Unidos e a Europa. O que eles querem é proteger os seus fazendeiros.
DONM - E o que os países em desenvolvimento podem fazer neste caso, se a agricultura segue fechada e eles não têm condições de competir nos setores de indústria ou serviços?
Mundell - Eles têm que aceitar o mundo como ele é. Talvez esses países possam formar os seus próprios grupos e mercados comuns. Mas tenha em mente que, em especial quando se fala dos Estados Unidos – que é uma das economias mais abertas do mundo –, eles têm problemas com algumas coisas, como a agricultura e o aço.
Mas, por outro lado, as importações dos Estados Unidos são gigantescas, cerca de US$ 1 trilhão (R$ 3,13 trilhões) por ano. É absurdamente alto, uma loucura. Veja o benefício para o resto do mundo, que exporta todo este valor para os Estados Unidos. Ainda assim, se você olhar o sistema de proteção econômica dos países em desenvolvimento, ele é muito mais fraco do que o dos Estados Unidos.
Durante esta semana o "De Olho no Mundo" teve sua duração normal de 30 minutos aumentada para uma hora, sendo apresentado das 9h30 às 10h30 (horário de Brasília), nos 700khz da Rádio Eldorado AM. O programa também pode ser ouvido por meio de um link na primeira página deste site e via satélite no canal 300 da Sky.
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