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21 de junho, 2002 - Publicado às 10h59 GMT
Tsunami de um jogão



 Clique aqui para ouvir esta coluna do Ivan Lessa

Futebol, o esporte das multidões, diz o lugar-comum. O meu erro foi exatamente esse: assistir Brasil x Inglaterra no meio da multidão.

Mais de duas pessoas perto de mim constituem multidão. Os claustrófobos, feito eu, devem ficar em casa e acompanhar tudo quanto é esporte pela televisão – acompanhar até a vida, ouso dizer exagerando um pouco.

Todos os outros jogos, eu vi em casa, sossegado, torcendo à minha maneira. Ninguém viu meus pulos, ninguém ouviu meus palavrões. Mas torci.

Desta vez, nesta sexta, foi difícil. A exacerbação midiática, as páginas e mais páginas de jornal, as horas de televisão, a repetição ad infinitum de estatísticas e opiniões desinteressantes.

E as bandeiras? Eu não agüentava mais ver bandeira de São Jorge, a da Inglaterra, a de triste conotação com os hooligans e a extrema-direita política, em tudo quanto é lugar.

Eram em número bem menor que as do Brasil. Mas perdiam nos tambores, que eu quase que juro ouvir à noite, vindos do bairro de Bayswater, aqui chamado de Brasilwater, e de Notting Hill, onde está a nossa escola de samba.

O pior é que eles, os ingleses, são fãs incondicionais de nosso futebol. Exercem para conosco o que sobrou do famoso fairplay britânicol.

Tanto exageraram que ontem, quinta-feira, um dos editoriais do The Guardian, jornalão sério, faço questão de esclarecer, era sobre a incomparável beleza de nosso hino nacional, não só em matéria de letra como também em melodia e harmonia.

Resultado: tanto me chatearam que eu queria que os dois times perdessem. Empate, nunca. Significaria mais meia-hora de jogo com a possibilidade da odiosa ida para a decisão por pênaltis.

Exausto, insone, de mau humor, serei franco: eu torci por uma tsunami. Sim, tsunami. Vocês sabem o que é. Uma daquelas ondas enormes que, vez por outra, como o futebol, dá lá por aquelas bandas. Uma tsunami que viesse e varresse do mapa todo mundo: os dois times, torcedores, altas autoridades presentes, o diabo.

 Clique aqui para ouvir esta coluna do Ivan Lessa

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