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03 de abril, 2002 - Publicado às 10h34 GMT
1974: Alemanha conquista bicampeonato
Time da casa vence Holanda e comemora o título
Time da casa vence Holanda e comemora o título

Ricardo Acampora

Em 1974, o brasileiro João Havelange substituiu o inglês Stanley Houss na presidência da Fifa. Havelange se tornaria o primeiro não-europeu a ocupar o cargo, que manteria por 24 anos.

Na Alemanha, estava em disputa, pela primeira vez, a Taça do Mundo, um troféu de 37 centímetros de altura, em ouro maciço, obra do artista italiano Silvio Gazzaniga.

A nova taça não seria mais retida em definitivo. Segundo determinação da Fifa, o campeão passaria a reter o troféu por 4 anos até a próxima Copa, quando então recebe em troca uma réplica.

Para a Copa da Alemanha houve novo recorde de inscrições, com 94 países disputando as eliminatórias. Os ingleses, campeões do mundo em 66, também passavam por uma fase de renovação e não se classificaram.

Brasil

Em 74, o futebol brasileiro se encontrava numa das chamadas fases de "entressafra", com o envelhecimento da geração tricampeã.

O comando ficou com o técnico da campanha de 70, Mário Jorge Lobo Zagalo, que lamentava a perda dos craques: "O Gerson parou, perdemos o Carlos Alberto e o Clodoaldo, e o Pelé preferiu ficar de fora."

O time brasileiro chegou à Alemanha mal preparado, com um futebol antiquado.

Em entrevista concedida à BBC dois meses antes da Copa, Zagalo demonstrou total desconhecimento do novo futebol jogado pelos europeus. Desconhecia até a grande novidade da época: o "futebol-total", da Holanda, o "Carrossel" treinado por Rhinus Michel.

Sem Pelé, a camisa 10 da seleção foi entregue a Rivelino, que, com Jairzinho e Paulo César, formava a grande esperança da torcida brasileira. Entre as revelações, despontavam o goleiro Leão, do Palmeiras, e o lateral Marinho Chagas, do Botafogo.

Estréia

No dia 13 de julho, o Brasil estreou sem brilho contra a Iugoslávia, na partida de abertura do mundial. A trave e uma ótima atuação do goleiro Leão garantiram o 0 a 0. O Brasil não era mais o bicho-papão de 70.

No segundo jogo da seleção brasileira, outro empate sem graça com a esforaçada equipe da Escócia. Para se classificar, o Brasil precisava ganhar do Zaire por três a zero. Gols de Jairzinho, Rivelino e um de Valdomiro, ajudado por uma falha do goleiro adversário, asseguraram a passagem para a fase seguinte.

O Brasil ficou no grupo A, com Alemanha Oriental, Argentina e a poderosa Holanda, que deslumbrava o mundo com um futebol coletivo, rápido e ágil, em que todos defendiam e atacavam em bloco, não dando chance ao adversário.

No time holandês, as posições não eram fixas e as jogadas rápidas de contra-ataque eram praticamente fatais.

Contra os alemães orientais, o Brasil continuou se arrastando. Um gol de falta de Rivelino garantiu a vitória magra.

No jogo seguinte, contra a Argentina, o Brasil se apresentou bem melhor, com os jogadores
nitidamente mais à vontade, por enfrentar um adversário sul-americano que também jogava um futebol ultrapassado, lento, incapaz de romper as defesas européias.

Um gol de Jairzinho e outro de Rivelino contra um de Brindisi, asseguraram a vitória brasileira por dois a um.

'Laranja Mecânica'

O próximo adversário do Brasil, a Holanda, impressionava a todos. O time, comandado em campo pelo incrível Johan Cruyff - considerado o maior jogador do mundo no momento - contava com o talento do líbero Rud Krol, do meia Neeskens e dos pontas Rep e Resenbrink.

A campanha dos dois times mostrava bem as diferenças entre as seleções do Brasil e da Holanda. Enquanto o Brasil tinha suado para se classificar e nos cinco primeiros jogos tinha vencido apenas três, marcando apenas 6 gols, os holandeses contabilizavam quatro vitórias e 12 gols.

Surpreendentemente, o Brasil fez contra a Holanda o seu melhor jogo na Copa de 74 e, se Jairzinho e Paulo César não tivessem perdido gols fáceis, os brasileiros teriam deixado o campo no intervalo vencendo por dois a zero.

Segundo Jairzinho, os holandeses "tremeram diante da seleção brasileira e só no segundo tempo encontraram seu jogo."

Um gol de Neeskens e outro de Cruyff, completando rápidos contra-ataques, foram suficientes para despachar o Brasil, fazendo justiça à melhor campanha da chamada "Laranja Mecânica".

No final do jogo, o zagueiro brasileiro, Luis Pereira, foi expulso depois de atingir o holandês Neeskens com uma entrada desleal e escandalosa.

Ao Brasil, restava a disputa do terceiro lugar contra a Polônia. Os holandeses seguiam para fazer a grande final contra a segunda melhor seleção de 74, a dona da casa, a Alemanha.

Num jogo disputado em ritmo de treino, o Brasil perdeu de um a zero para a Polônia, com um gol do ponta Lato, aproveitando um avanço do lateral Marinho. O Brasil perdia merecidamente o terceiro lugar para o eficiente time polonês.

Final

No dia 7 de julho, a seleção holandesa pisou o gramado do estádio Olímpico, em Munique, como grande favorita, para fazer a primeira final de uma Copa do Mundo da sua história.

Mas o time alemão era igualmente respeitável, com o eficiente goleiro Sepp Mayer, o lateral Paul Breitner e o capitão Franz Beckembauer, os meio-campistas Bonhof e Overath, e o eficiente artilheiro Gerd Muller.

No começo da partida, Cruyff e companhia envolveram os alemães com seus toques de primeira e deslocamentos rápidos. Antes que um adversário tocasse na bola, o craque Johan Cruyff foi derrubado na entrada da área por Vogts e Hoeness. Pênalti, que Neeskens converteu.

Mas o experiente time alemão fez uma marcação cerrada sobre Cruyff, anulando o cérebro do time, emperrando a engrenagem principal do carrossel.

Antes do término do primeiro tempo, a Alemanha já tinha virado o jogo com um gol de pênalti cobrado por Breitner e um outro do oportunista centroavante Muller.

No segundo tempo, os holandeses se intimidaram e os alemães seguiram administrando a vantagem sem descuidar da defesa.

Como na final de 54 contra a Hungria, a Alemanha reverteu um favoritismo quase que unânime para conquistar o bicampeonato.

Apesar do quarto lugar, a inexpressiva campanha da seleção brasileira foi duramente criticada pela imprensa brasileira. O técnico Zagalo foi chamado de medroso e de retranqueiro, numa alusão ao esquema excessivamente defensivo e cauteloso do técnico campeão de 70.

Seleção brasileira:

Leão, Valdir Peres, Renato, Zé Maria, Nelinho, Luis Pereira, Marinho Perez, Wilson Piazza, Alfredo, Marinho Chagas, Marco Antônio, Paulo Cesar Carpegiani, Rivelino, Ademir da Guia, Jairzinho, Valdomiro, Cesar, Mirandinha, Leivinha, Paulo Cesar Lima, Edu e Dirceu.

Resultados:

Grupo 1:

Alemanha Ocidental 1 X 0 Chile
Alemanha Oriental 2 X 0 Austrália
Chile 1 X 1 Alemanha Oriental
Alemanha Ocidental 3 X 0 Austrália
Austrália 0 X 0 Chile
Alemanha Oriental 1 X 0 Alemanha Ocidental

Grupo 2:

Brasil 0 X 0 Iugoslávia
Escócia 2 X 0 Zaire
Iugoslávia 9 X 0 Zaire
Escócia 0 X 0 Brasil
Escócia 1 X 1 Iugoslávia
Brasil 3 X 0 Zaire

Grupo 3:

Suécia 0 X 0 Bulgária
Holanda 2 X 0 Uruguai
Holanda 0 X 0 Suécia
Bulgária 1 X 1 Uruguai
Holanda 4 X 1 Bulgária
Suécia 3 X 0 Uruguai

Grupo 4:

Itália 3 X 1 Haiti
Polônia 3 X 2 Argentina
Polônia 7 X 0 Haiti
Argentina 1 X 1 Itália
Argentina 4 X 1 Haiti
Polônia 2 X 1 Itália

Fase final

Grupo A:

Holanda 4 X 0 Argentina
Brasil 1 X 0 Alemanha Oriental
Holanda 2 X 0 Alemanha Oriental
Brasil 2 X 1 Argentina
Holanda 2 X 0 Brasil
Argentina 1 X 1 Alemanha Oriental

Grupo B:

Alemanha Ocidental 2 X 0 Iugoslávia
Polônia 1 X 0 Suécia
Alemanha Ocidental 4 X 2 Suécia
Polônia 2 X 1 Iugoslávia
Suécia 2 X 1 Iugoslávia
Alemanha Ocidental 1 X 0 Polônia

Disputa pelo terceiro lugar:

Polônia 1 X 0 Brasil

Final:

Alemanha Ocidental 2 X 1 Holanda

Clique aqui para ver a galeria de imagens da Copa de 1974

Clique aqui para ouvir a história desta Copa (em Real Audio), com narração de Ricardo Acampora
 
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