| 15 de março, 2002 - Publicado às 21h24 GMT |
| Técnico atribui saída da seleção sul-africana a 'racismo' |
 Queiroz nega ter se demitido da seleção sul-africana
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Asdrúbal Figueiró, em Johanesburgo
O moçambicano Carlos Queiroz, ex-técnico da seleção da África do Sul, disse à BBC Brasil que não renunciou ao cargo, ao contrário do que havia anunciado a federação de futebol do país – em uma polêmica que envolveu até o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela.
"Eu não me demiti em nenhuma circunstância", disse Queiroz.
"O mundo caiu há dez semanas do Mundial, e não caiu por causa dos jogos, não caiu por causa das exibições. Caiu porque há racismo, porque há favoritismo, caiu porque não é de futebol que estamos a falar."
O suposto pedido de demissão de Queiroz foi anunciado pelo presidente da Safa (Associação Sul-Africana de Futebol) em entrevista coletiva na terça-feira.
Mandela
No mesmo evento, Molefi Oliphant revelou que o diretor-técnico da seleção, Jomo Sono, acumularia a função de treinador.
"A Safa já nomeou um treinador e com isso reconhece que rompeu os princípios contratuais comigo, e é isso que está em causa agora", disse Queiroz.
Sono havia sido nomeado diretor-técnico da seleção havia dois meses, depois que a África do Sul foi desclassificada da Copa Africana das Nações nas quartas-de-final.
A relação entre Queiroz e Sono ficou inviável na semana passada, quando o diretor-técnico decidiu chamar a si a responsabilidade pela escolha dos jogadores e do esquema tático da seleção.
A decisão não foi aceita por Queiroz.
"Quando querem me forçar a declinar essa responsabilidade, isto é, não ser eu a ter a última palavra na seleção dos jogadores, estão a violentar um princípio ético. E no fundo é uma humilhação para qualquer treinador."
Na sexta-feira passada, Queiroz e Sono tiveram conversas separadas com o ex-presidente Mandela.
O Prêmio Nobel da Paz de 1993 pediu que a imagem da África do Sul fosse colocada acima de tudo e que fosse encontrada uma saída digna para todas as partes.
Campanha
Segundo Oliphant, Queiroz havia aceitado o arranjo com Sono, mas a visão do treinador é diferente.
"Em qualquer país, o diretor-técnico tem as suas atribuições, mas entre elas não está selecionar os jogadores."
Queiroz diz também ter sido vítima de uma campanha em que o fato de ser branco em um esporte controlado por negros foi usado contra ele.
Ele diz ter sido acusado por dois jornais da comunidade negra de "favorecer" jogadores brancos e de "cor mista".
Jomo Sono, que jogou com Pelé no Cosmos e foi eleito jogador do século na África, é um ídolo entre os negros sul-africanos por sua militância anti-apartheid.
"A componente racial é só um sintoma da verdadeira motivação. Diria que foi uma carta que foi jogada", disse Queiroz.
"O meu maior erro foi qualificar a equipe para o Mundial. Depois que a mesa está posta, é fácil vir se sentar e comer."
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