| 01 de abril, 2002 - Publicado às 00h39 GMT |
| 'Esperei a morte chegar', diz marinheiro |
 Bote salva-vidas deixa o General Belgrano
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José Luis Ferreira sobreviveu a um dos episódios mais trágicos e polêmicos da Guerra das Malvinas: o afundamento do navio General Belgrano, no dia 2 de maio de 1982.
Trezentos e vinte e três argentinos morreram quando o navio, atingido por torpedos disparados pelo submarino britânico Conqueror, desapareceu sob as águas do Atlântico.
O navio estava em águas argentinas e fora da zona de guerra. Familiares das vítimas tentaram processar o governo britânico pelo ato, mas a Corte de Direitos Humanos da Europa recusou ação no ano 2000.
Jose Luis Ferreira tinha apenas 17 anos na época do ataque e a seguir descreve sua experiência:
"Tudo sacudiu"
"Todo dia eu fazia trabalhos de apoio, como controlar a rota do barco e cuidar para que não entrasse água por baixo do navio. Além disso, tinha um posto de combate: era carregador de pólvora de um canhão do lado esquerdo da proa.
No dia do ataque, eu estava terminando a guarda que fazia das 12h às 16h. Estava no compartimento do canhão com sete ou oito pessoas, esperando o descanso.
O primeiro torpedo atingiu a popa, na sala de máquinas. O ruído foi seco, mais forte do que um trovão. Tudo sacudiu. O barco ficou sem energia, às escuras e senti um forte cheiro de pólvora.
Dois minutos depois, o segundo torpedo arrancou 15 metros da proa do navio, o lugar onde dormíamos despareceu. Se tivéssemos entregado a guarda na hora, não estaríamos vivos.
Lembro que do meu lado havia um marinheiro muito jovem que realizava sua primeira viagem no Belgrano e um oficial com uns 20 ou 25 anos de serviço que conhecia cada canto do barco.
Quando começou o ataque, o novato disse: 'Aviões, aviões'. E o lobo do mar o corrigiu: 'Não, é um torpedo. E fiquem quietos que vai vir outro.' Ficamos gelados. Estávamos relaxados depois de abandonar a zona de exclusão.
Vi um oficial saindo com grandes queimaduras. Ele tinha sido atingido pela explosão enquanto tomava banho. Essa foi uma das primeiras coisas que me impressionaram.
 O barco se inclinava, fazia redemoinhos e o vento nos empurrava contra ele  | | José Luis Ferreira | Tudo ficou em silêncio, à espera de um terceiro torpedo. Todos permaneceram em seus lugares. Vi que a água fazia redemoinhos ao redor do barco, sinal de que não estávamos mais navegando. O Belgrano estava inutilizado.
Formou-se um grande tumulto porque a tripulação começou a circular para pegar os botes salva-vidas. Cada um tinha uma posição designada. Ouviam-se gritos, mas eram das pessoas que estavam organizando o procedimento (de abandono do barco) ou tentavam encontrar seus companheiros. Alguns choravam em pânico.
Quando eu e os que estavam do meu lado começamos a nos dirigir para os botes, vi algo incrível: os quinze metros de proa do Belgrano haviam desabado. Nesse momento entendi que haviam morrido muitas pessoas. Percebi isso rápida e friamente. É que tudo aconteceu tão rápido.
Vivi cada segundo. Estava determinado a sair com vida, não queria morrer. Eu tinha a vantagem de não estar ferido.
Os botes eram de borracha e se inflavam ao cair na água. O barco estava se inclinando, fazia redemoinhos, e o vento nos empurrava contra ele. Precisávamos remar com força, para não batermos na chapa afiada que estava pendurada em uma parte do navio.
Nesse momento vi outra coisa que me chocou: a corrente da âncora começou a se esticar e se rompeu. A âncora caiu em cima de um bote. De lá ninguém saiu vivo.
Na minha balsa éramos umas 20 pessoas. Agíamos de forma ordenada, mas não pudemos evitar o choque com o barco. O bote arrebentou e começou a se esvaziar. Tivemos que nos jogar ao mar.
A primeira coisa que eu fiz foi tirar as botas para nadar em direção a outro bote. No caminho encontrei um companheiro que não sabia nadar. Não sei como podia estar a bordo do Belgrano. Ele gritava por socorro.
Nesse momento o mar tinha se transformado em uma grande mancha negra. Haviam atirado os barris de petróleo na água para evitar um incêndio. O rapaz que não sabia nadar estava coberto de petróleo e, no seu desespero, afundava.
Quando consegui subir em um bote, tentei ajudá-lo. Mas ele não parava de chorar e de gritar. Senti que ele ia desequilibrar todos nós.
O movimento das ondas enchia o bote de água. Se anoitecesse, morreríamos de frio. Fiquei deitado por alguns minutos. Até dormi, por causa do frio e porque estava exausto.
Vi o Belgrano desaparecer na água. Um oficial dizia: 'Não olhe, não olhe'.
Fez-se um grande silêncio. Estávamos no meio do nada: era só água e céu. Era uma tarde fria, estava nublado. Começava a escurecer.
 De vez em quando, tentávamos iniciar uma conversa. Não durava mais de cinco minutos. | | José Luis Ferreira | Tivemos que passar para outra balsa que não tinha muita gente a bordo.
A primeira coisa que fizemos foi contar em quantos éramos. Depois cada um deu seu nome. Tivemos a sorte de ter um médico a bordo.
Não havia feridos. Lembro que um dos chefes estava do meu lado, era um militar de 40 anos muito rígido que nos repreendia quando não estávamos penteados ou arrumados.
Ele chorava e repetia: 'Vamos morrer todos'. De repente, o médico lhe deu um soco para acalmá-lo. O homem não falou mais. Eu pensei: E esses são os militares?
De vez em quando, cantávamos ou tentávamos iniciar uma conversa. Um perguntava ao outro à que divisão pertencia e qual era a sua função. O diálogo não durava mais de cinco minutos.
 Esperávamos a morte chegar e tudo acabar | | José Luis Ferreira | Não podíamos descansar, porque, com o frio, quem dormisse não acordaria mais. Não sentíamos mais as nossas pernas. Chegamos a urinar em nós mesmos para nos manter aquecidos.
Não comemos. Os botes só vinham com artigos de primeiros socorros que continham balas, torrões de açúcar, caramelos, chicletes e comprimidos para tornar a água potável.
Como não sabíamos quanto tempo íamos ficar à deriva, tratamos de forçar o corpo ao limite da resistência sem consumir nada.
No dia seguinte, ninguém queria rezar, nem cantar, nem falar. Esperávamos a morte chegar.
Horas depois escutamos o apito do barco que vinha nos resgatar. Tudo mudou rapidamente. As pessoas começaram a festejar, a comer os alimentos e a beber a água armanezada.
Desde então sinto que tudo na vida é passageiro e que devo desfrutar plenamente de cada momento".
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