| 11 de dezembro, 2001 - Publicado às 11h31 GMT |
| O segredo do sucesso da Estônia |
 Sinais do passado quase desapareceram em Tallinn
|
Rafael Gomez, de Tallinn
Dez da noite na principal praça de Tallinn, capital da Estônia. Uma roda de jovens se forma ao redor de um tocador de violão.
O músico de rua, que aparenta ter uns 25 anos, canta Hotel California em um inglês quase perfeito. Depois, decide partir para um repertório de músicas russas.
"Sou russo, mas vivo aqui há muito tempo", diz ele. "E se você é um bom jornalista, deveria falar sobre a situação de pessoas como eu. Amo a Estônia, este é o meu país".
"Mas não consigo emprego porque não falo essa língua, o estoniano. Também tenho Aids - e as pessoas têm medo de mim. Mas, apesar de tudo, prefiro ficar nas ruas cantando, cantando bem alto, para as pessoas saberem que, apesar dos problemas, eu sou feliz".
Revolução cantante
A Estônia é o mais setentrional dos três países bálticos (os outros são a Letônia e a Lituânia), e um dos primeiros países a declarar independência da URSS, em 1991.
Os países bálticos são bem pequenos - a Estônia, por exemplo, é menor que o estado do Rio Grande do Norte, e tem um Produto Interno Bruto menor do que o do estado da Paraíba.
Durante a Segunda Guerra, os alemães chegaram a ocupar o território estoniano, mas foram expulsos pelos soviéticos.
Quando a guerra terminou, os russos ficaram - e para a maioria dos estonianos, eles nunca deixaram de ser os invasores.
Esse sentimento anti-rússia veio à tona com força total no final dos anos 80, com as reformas introduzidas na URSS por Mikhail Gorbachev - que aparentemente estava disposto a dar mais autonomia às repúblicas soviéticas.
A independência veio com a chamada "revolução cantante", em que os cidadãos do pequeno país se reuniam nas ruas para cantar e celebrar o fim do domínio de Moscou.
"Havia um grande entusiasmo, as pessoas queriam fazer tudo o que tinham ficado proibidas de fazer. Muitas saíram às ruas vestindo roupas só com as cores da bandeira do país, branco, preto e azul", explica Inga Saare, uma tradutora em Tallinn.
Economia
Uma pessoa desatenta que visite a capital estoniana talvez não encontre um sinal sequer de que, há dez anos, o país fazia parte da poderosa URSS.
Os habitantes do país mostram orgulho ao falar das origens étnicas da nação - que foi dominada por dinamarqueses e alemães.
A religião predominante no país, o cristianismo luterano, é uma herança da dominação dinamarquesa.
Em termos econômicos, o governo praticamente já encerrou o processo de transição da economia estatal para a economia de mercado e o país goza os benefícios da evolução econômica.
A taxa de inflação anual é de 6%, e a renda per capita é de cerca de US$ 3 mil , em comparação com cerca de US$ 2,4 mil da Rússia ou os US$1,2 mil da Ucrânia.
"É difícil resumir a receita do sucesso, mas país foi beneficiado pelo seu tamanho, e não enfrentou problemas tão complicados na transição para o capitalismo quanto outras ex-repúblicas soviéticas", explica Alar Streimann, vice-secretário-geral dos Negócios Estrangeiros da Estônia.
E completa: "A Estônia já terminou o processo de privatização das empresas estatais, e hoje não há quase mais nenhum sinal do passado soviético na economia".
A entrada na União Européia é a grande ambição do governo estoniano atualmente. A Estônia foi incluída na próxima leva de países que devem passar a integrar a organização, provavelmente a partir de 2004.
Dessa forma, a Estônia passaria a ser o primeiro país da ex-União Soviética a integrar o bloco econômico.
Minoria
Mas apesar de boa parte dos estonianos estarem em situação melhor do que os habitantes de outros países da ex-URSS, há uma parcela da população para quem os benefícios estão demorando mais a chegar.
Trata-se da minoria russa, que representa cerca de um terço da população da Estônia.
Muitos russos que vivem no país acham que o governo não lhes oferece muitas oportunidades de melhorar de vida.
Milhares de russos vieram para o país durante os anos soviéticos por causa da política de "russificação" de Moscou.
 "Sem gente, sem problema" diz o cartaz de uma exposição em Tallinn sobre as deportações de Stalin | Seguindo essa política, o presidente Stalin deportou estonianos aos milhares para a Sibéria, enquanto estimulava a vinda de russos para o país.
Com isso, ele esperava garantir a presença e a influência russa na região. Hoje, os russos sofrem com as restrições impostas pelo governo. Situação semelhante ocorre nos demais países bálticos.
Hanon Barabaner é o presidente do Partido do Povo Unido, que luta pelos interesses da comunidade russa na Estônia. Segundo ele, a lei no país prejudica a comunidade que fala russo.
"Muitos russos vivem em regiões do país onde poucas pessoas falam estoniano e onde há menos oportunidade de estudar a língua do país", explica Barabaner.
"Por não saber a língua, eles não recebem a cidadania estoniana, e isso cria um outro problema - sem a cidadania, é mais difícil arranjar emprego. Para mudar isso, por hora bastaria o governo aceitar oficialmente que a comunidade russa possa se expressar em russo".
Prova difícil
Para obter cidadania estoniana, o candidato tem que ter nascido no país, ou que passar por uma prova de língua e cultura estoniana.
Há muitas pessoas de família russa que vivem há décadas na Estônia e que, por não passar no teste, não têm nacionalidade alguma.
Mas para Ruth Annus, vice-diretora do departamento de minorias estrangeiras do ministério do Interior estoniano, a comunidade russa não está sendo discriminada.
 Ruth Annus: "Temos que defender nossa cultura" |
"Muitos dos russos decidiram aprender estoniano e estudar as leis do país para passar no teste. A constituição diz isso claramente: preservar o estado e a cultura estonianos é parte dos objetivos de nossa república", explica.
A situação da comunidade que fala russo provoca tensão em certas partes do país, como na região de Narva, no nordeste - onde vive a maior parte dos russos estonianos.
Andrei Titov, editor de uma rádio que transmite em russo para toda a Estônia, reconhece que o ambiente é tenso entre as duas comunidades no país.
"Houve dois casos de violência", explica. "Em um deles, numa cidade chamada Paldiski, soldados estonianos bêbados foram pela rua perguntando para russos se eles falavam estoniano. Se o russo respondesse que não, era agredido. No segundo caso, soldados russos foram atacados por estonianos em um bar".
As autoridades do governo reconhecem que existem problemas, mas dizem que estão implantando projetos com o objetivo de integrar as duas comunidades. |
 |
|
|
|