| 19 de novembro, 2001 - Publicado às 18h07 GMT |
| Vencer ociosidade é desafio do dia-a-dia |
 Aulas de computador ajudam a passar o tempo
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Isabel Murray, de São Paulo
A rotina em um presídio feminino já foi tema de muitos filmes e livros.
No presídio Nelson Hungria, região central do Rio de Janeiro, o dia-a-dia não é cinematográfico, mas as detentas tentam levar a vida com dignidade, dentro das limitações.
O presídio faz parte do complexo penitenciário Frei Caneca.
É um prédio de dois andares, onde estão presas mais de 200 mulheres, divididas em celas de 24, 18 ou 12 detentas.
Escola
 Juliana canta para se distrair | Não há oficinas de trabalho, mas para fazer o tempo passar, as presas que se interessarem podem aprender noções básicas de computação.
As monitoras são detentas que já fizeram um curso básico e agora transmitem o conhecimento para as companheiras.
Outra saída para fugir da ociosidade no Nelson Hungria é a escola.
As presas têm aulas de alfabetização e primeiro grau, além de organizarem peças de teatro.
Ginástica
A diretora do Nelson Hungria, Sônia Alves de Oliveira, me levou para um passeio pelas instalações sob os olhares curiosos das detentas e começou me explicando qual a diferença entre presídio e penitenciária.
"Na penitenciária, elas vivem em celas individuais e aqui, em celas coletivas", disse Sônia. "As celas ficam trancadas o dia todo. Mas elas acabam se acostumando com a situação, criando uma atividade aí dentro."
Durante a visita, vi presas fazendo ginástica dentro das celas, mas a maioria estava fazendo trabalhos manuais ou apenas conversando.
Falta de trabalho
Quando alguém precisa sair da cela, a saída é controlada por senhas.
A falta de trabalho é um dos principais problemas do Nelson Hungria.
Quem consegue uma ocupação lá dentro fica feliz.
As refeições são preparadas por uma empresa privada, mas a verificação e a distribuição da comida são feitas pelas detentas, que também trabalham na limpeza.
E um outro grupo dá apoio na parte administrativa. Essas são as que se destacam por bom comportamento, e têm direito a uma cela só para elas, por medida de segurança.
Mas a diretora Sônia diz que a medida é apenas preventiva, porque ninguém sofreu ameaças.
Ela afirma que qualquer uma pode trabalhar na administração, basta se adaptar ao perfil desejado.
Para quem se apegou à religião, outra forma de passar o tempo é assistindo aos cultos que acontecem com freqüência.
No Nelson Hungria, atuam a Pastoral Penal, de padres católicos, além da Igreja Batista e da Igreja Universal do Reino de Deus.
Divisão das celas
"Temos vários tipos de divisão de celas", explica a diretora.
"Tem cela de evangélicas, com pessoas da mesma idade, com mesmo tipo de comportamento. Tem filha, mãe, tem prima... A gente atende aos pedidos delas, se não causar nenhum transtorno para nossa segurança."
Entrei em uma cela de 18 metros quadrados, onde estavam 18 mulheres, todas sorridentes.
O ambiente é úmido e escuro, mas limpo. No fundo da cela, o banheiro com vaso sanitário e chuveiro coletivo.
A mais animada dessa cela é Juliana Damasceno, que afirma cantar para entreter as companheiras. Ela canta uma música de Marisa Monte e é aplaudida com entusiasmo.
171
Juliana não se denanima nem quando conta porque foi presa.
"Fui presa porque sou 171 (gíria para estelionato), mãe de quatro filhos. Estava presa, saí, não deram oportunidade, fui tentar arranjar um emprego, fui de novo com meu 171 e estou aqui no Nelson Hungria", conta ela.
"Vou sair, tentar me estabelecer, senão volto para meu 171", Juliana afirma, sem medo.
"Quando você fala que é ex-presidiária, ninguem te dá oportunidade. Mas meu sonho é ser cantora e tenho voz, não tenho?"
A visita acaba com a despedida de Juliana
"Erramos e vamos pagar por nossos erros. Até nossa tão sonhada felicidade chegar."
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