| 19 de novembro, 2001 - Publicado às 18h05 GMT |
| Rejeição social dificulta reintegração à sociedade |
 Volta à selva urbana não é fácil
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Isabel Murray, de São Paulo
Se passar anos atrás das grades já é difícil, para a maioria é apenas o começo de mais uma fase ainda mais dura – a reintegração à sociedade.
Não há dados oficiais sobre reincidência no Brasil.
No presídio feminino de São Paulo, a taxa é de 28%.
Especialistas afirmam que, normalmente, as mulheres voltam ao crime por falta de opção.
Computador
Cícera Teodoro Silva, de 31 anos, espera que isso não aconteça com ela.
No dia em que visitei a Penitenciária Feminina de São Paulo, Cícera estava deixando a cadeia, após passar um ano e três meses lá dentro.
A despedida das colegas aconteceu num misto de choro e alegria.
Cícera levava uma pequena mala com pertences pessoais e seu violão.
"A primeira coisa que vou fazer é procurar uma igreja e agradecer a Deus", contou ela, emocionada. "E abraçar minha família. É uma felicidade imensa, estou super feliz."
Cícera disse que aproveitou o tempo presa para completar o segundo grau, aprender computação, bordado, crochê e pensar muito na vida.
Com o dinheiro ganho nas oficinas de trabalho, vai realizar o sonho de comprar um computador para os filhos, que moram no interior do Estado.
Depois da euforia de encontrar os familiares e comprar o computador para os filhos, Cícera vai enfrentar uma dura realidade e um problema duplo – a falta de emprego para pessoas com baixa escolaridade e o preconceito da sociedade em relação aos ex-presidiários.
Preconceito
O preconceito é velado.
Pouca gente admite que não empregaria uma ex-presidiária.
Normalmente dizem que depende muito de qual crime cometeu ou se foi indicada por alguém de confiança.
Temendo não conseguir uma segunda chance, uma ex-presidiária prefere não revelar o nome.
Ela cumpriu pena por 4 anos, está em liberdade há 8 meses, e continua desempregada.
"É muito difícil, todos querem antecedentes criminais. Aí eu já nem volto, é um constrangimento a menos", diz ela.
Rosângela, de 35 anos, ficou presa por 5 anos e já está em liberdade há um ano e meio, mas continua desempregada.
"Eu roubei. Quando as pessoas sabem disso, mandam voltar no dia seguinte e aí eu dou com a cara na porta", afirma Rosângela.
"O pessoal tem medo. Minhas ex-patroas nem atendem a telefonemas meus, achando que estou armando alguma."
Passado escondido
Se as coisas são difíceis para quem sai da cadeia jovem, para quem já tem uma certa idade o cenário fica ainda pior.
Maria Aparecida, de 51 anos, foi solta há 7 anos e desde então vive entrando e saindo de empregos informais, nos quais não precisa mostrar documentos. Diz que no atual emprego, como empregada, a patroa não sabe de seu passado.
"Ela não sabe que eu já estive presa. Imagine!", diz Maria Aparecida, que até se espanta com a pergunta. "Eu tomo conta da casa, dos filhos, se ela souber, me manda embora."
A Funape, Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso, se esforça conseguindo colocações no mercado para as presidiárias que estão no regime semi-aberto – ou seja, passam o dia trabalhando, mas voltam para dormir na prisão.
Mas depois que elas estão em liberdade, a situação fica mais difícil, e o círculo vicioso continua.
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