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19 de novembro, 2001 - Publicado às 17h57 GMT
Estrangeiras sofrem com distância da família
Juana Muñoz, 25, dá aula de espanhol às colegas
Juana Muñoz, 25, dá aula de espanhol às colegas

Isabel Murray, de São Paulo

Estar presa em seu próprio país não é uma experiência agradável para ninguém, mas o que torna a vida mais leve é poder receber visitas da família e conversar com pessoas que, bem ou mal, entendem seus pontos de vista.

Passar por esta experiência em um país estranho, com uma cultura diferente, é uma prova de fogo para as estrangeiras presas no Brasil.

Zsuzsana Toth-Piti é uma delas. Húngara, de 20 anos, estudava veterinária em seu país quando foi atraída pela promessa de dinheiro fácil traficando drogas do Brasil para a Europa.

A história dela é o caso mais comum entre as estrangeiras.

Mais cultura

"Na verdade elas são 'mulas'", explica Maria da Penha Dias, diretora da Penitenciária Feminina de São Paulo.

"O objetivo das quadrilhas é fazê-las transitar de país para país. Aqui no Brasil, elas acabam sendo presas no aeroporto."

Maria da Penha diz que, por ter mais cultura do que as brasileiras, as estrangeiras têm muitos problemas de adaptação nos presídios brasileiros.

"Se você der uma regalia a mais para as estrangeiras, as brasileiras cobram. A gente toma muito cuidado com tudo que a gente faz com as estrangeiras, porque elas acabam sofrendo uma cobrança agressiva lá dentro do pavilhão."

Apesar das dificuldades de adaptação, a húngara Zsuzsana afirma preferir cumprir pena no Brasil, porque, quando voltar para a Hungria, não terá uma ficha policial.

Extradição

"Não estou feliz por estar presa, é claro, " diz Zsuzana, com um sotaque carregado.

"Uma grande parte do meu coração tem vergonha. No meu país, todos sabem, sou a primeira húngara que fica presa fora da Hungria. Quando eu voltar, com meu processo limpo, posso continuar veterinária."

Mas nem todas as presas estrangeiras pensam assim.

Muitas acreditam que podem ter mais conforto em seu país de origem.

É o caso da espanhola Juana Muñoz, de 25 anos.

"Agora eu já aprendi o que é sobreviver. No meu país há mais comodidade", diz Juana, que está dando aulas de espanhol para as companheiras no presídio de São Paulo.

Apesar de querer, vai ser difícil para Juana cumprir pena na Espanha. Isso porque o tráfico internacional foi cometido no Brasil, então não há extradição.

Famílias

"É crime de um estrangeiro em território brasileiro. O Estado de origem não teria interesse na extradição. O que pode acontecer é a expulsão", explica o advogado criminalista Maurides de Melo Ribeiro, que foi presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes, em São Paulo.

Para a maioria das estrangeiras, foi um grande problema contar para as famílias que estavam presas.

"No início, escondi muito, escondi por quatro meses que estava presa, pedi para que não contassem. Só se não tivesse jeito. Não vou admitir cobranças, porque já estou pagando" é o que diz a portuguesa Angela Margarida Lopes, de 24 anos, que está no presídio Nelson Hungria, no Rio.

"No momento em que eu sair daqui, quero que seja algo que aconteceu, que é passado, já era."

Angela afirma não ter tido problemas de adaptação com as companheiras brasileiras, só tem pena de não ter conhecido o Brasil que está do outro lado das grades.

 
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Links externos:
Relatório da ONG americana Human Rights Watch sobre condições nas cadeias brasileiras (em português)
Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
Febem-SP
Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo
Departamento Geral do Sistema Penintenciário do Rio de Janeiro
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