Graciela Damiano, enviada especial a Islamabad
A coreografia de uma manifestação de militantes pró-Talebã pode ser bem sofisticada. Já na saída da marcha desta terça-feira, da mesquita de Arshai, em Rawalpindi, cidade satélite de Islamabad, os organizadores ajeitaram as crianças em uma fila.
Vestidas com as calças de algodão e longas túnicas típicas da região, as crianças carregam varas de bambu com a altivez de quem carrega velas em uma procissão.
O abre-alas é uma caminhonete carregando líderes amontoados, um deles com megafone gritando palavras de ordem em urdu, cartazes com críticas aos Estados Unidos escritas nos traços sinuosos das línguas orientais e, em destaque, um menino de seis anos de idade.
Com uma faixa na cabeça, onde está escrito em urdu o nome do dissidente saudita Osama Bin Laden, o menino empunha o revólver de plástico que recebeu de adultos empolgados. A animação dos adultos contrasta com a perplexidade do garoto.
"Muçulmanos verdadeiros"
A manifestação traz os ataques verbais costumeiros aos Estados Unidos, mas começam a se intensificar as críticas aos países islâmicos que, com maior ou menor entusiasmo, vão aceitando entrar em uma forma de aliança com os americanos "infiéis".
Os fundamentalistas islâmicos do Paquistão aparentemente não se incomodam com o seu crescente isolamento.
Vários participantes da marcha fazem questão de dizer que os únicos muçulmanos verdadeiros são os fundamentalistas do Paquistão e os afegãos sob a liderança do Talebã.
Um manifestante me disse que nem lamentava muito pelos muçulmanos que morreram no atentado contra o World Trade Center, em Nova York.
"Mulheres que usam saia curta, homens que tomam bebidas alcoólicas, os que se dizem muçulmanos, mas adotaram o estilo de vida americano, não são olhados por Alá", afirmou.
O manifestantes disse que não tem medo da instabilidade que pode ocorrer no Paquistão caso os americanos ataquem o Afeganistão. O Paquistão prometeu ajudar os Estados Unidos num ataque, mas ainda não anunciou exatamente como.
Mas esse muçulmano falante sabe precisamente de onde vai conseguir comida, moradia e tranqüilidade. "Alá nos dará tudo", disse ele.
Sem mulheres
Para uma mulher ocidental, não é fácil arrancar muita conversa em uma manifestação de cerca de mil homens e meninos que fazem questão de se dizer unidos contra o mundo. Cobrindo a manifestação em meio a fotógrafos e cinegrafistas de vários países, eu tinha apenas uma jornalista italiana como companhia feminina.
Sem véu, mas coberta pela imagem simpática e um tanto misteriosa de um país distante em quilômetros e radicalismo de idéias - o Brasil -, eu me vi cercada de militantes fervorosos na defesa de suas posições. Em inglês ou até em urdu.
Mas não falta gente chegando e perguntando se sou americana.
A resposta, "Brasil", arranca sorrisos amistosos e intrigados.
Também não falta quem pergunte a minha religião. "Cristã?"
Depois de alimentar um pequeno debate sobre os porquês da crise do Afeganistão e sobre as provas que poderiam convencer esses homens de fé em punho da cumpabilidade de Bin Laden, acabei fazendo amigos.
"Não pergunte a religião dela! Ela é nossa convidada nessa conversa."
"Bush!"
Eu já ia deixando a manifestação com alguma esperança no convite ao diálogo, quando senti um empurrão de uma multidão que corria para toda a parte.
De trás da muralha de gente, ouviam-se gritos festivos, e subitamente apareceu uma fogueira. No asfalto, queimavam com rapidez fulminante os últimos vestígios de um grando boneco de algodão.
"Bush! Bush!", gritavam os manifestantes com entusiasmo.
Boneco queimado, cinzas voando por toda a parte, tarde caindo, boas fotos para Primeiras Páginas de todo o mundo. A manifestação e o diálogo chegavam ao fim.
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