Silvia Salek
Se a violência nos protestos antiglobalização continuar, organizações não-governamentais pacíficas deverão intensificar o uso da internet para conseguir apoio da população.
"Essa é a alternativa mais viável para a violência nos protestos de rua. Pela internet, alcançamos milhões de pessoas", disse Michael Bailey, assessor político da Oxfam, organização humanitária com sede na Grã-Bretanha.
Ele cita como exemplo a campanha do Jubileu 2000, em que as ONGs conseguiram 25 milhões de assinaturas em apoio ao pedido de suspensão da dívida dos países pobres.
"Fica cada vez mais difícil fazer com que as pessoas que nos apóiam participem dos protestos. Cada vez menos gente está disposta a correr esse risco", disse Bailey em entrevista ao programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC e da Rádio Eldorado AM de São Paulo.
Anarquistas
No fim-de-semana, uma pessoa morreu e 500 ficaram feridas nos confrontos entre a polícia e os manifestantes durante a reunião do G-8 em Gênova, na Itália.
O tumulto, segundo a imprensa italiana, teria começado com um grupo de anarquistas. Mas a violência acabou prejudicando a imagem de organizações pacíficas, segundo Bailey.
"Não há uma distinção tão clara na imprensa. A violência é praticada por grupos menores que acabam roubando a cena. Compartilhamos com eles apenas a visão de que é preciso fazer algo contra os efeitos negativos da globalização", disse Bailey.
Para Sérgio Hadad, presidente da Associação Brasileira das Organizações não-Governamentais, ONGs pacíficas devem negociar com grupos que apelam para a violência.
"É preciso criar uma estratégia comum", disse Hadad, que também participou do De Olho no Mundo.
Isolamento
Para ele, a estratégia dos líderes do G-8 de evitar os grandes centros urbanos para sediar reuniões torna o grupo ainda menos democrático.
O G-8 - formado pelos sete países mais ricos do mundo e pela Rússia - decidiu que a próxima reunião do grupo, em 2002, será em Kananaskis, cidade localizada nas Montanhas Rochosas no Canadá.
"É difícil saber se os manifestantes conseguirão chegar perto desse encontro, mas o isolamento não é a melhor forma de acabar com os protestos", disse Hadad.
Para Michael Bailey, o isolamento dos líderes do G-8 vai fazer apenas com que a violência encontre outros alvos.
Soluções
"Os líderes mundiais erram ao pensar que afastando os manifestantes terão paz. A violência poderá aparecer em outros lugares, como o centro financeiro de Londres. Ela é um sintoma de um mal-estar profundo na sociedade que precisa de soluções", disse Bailey.
Para Sérgio Hadad, as decisões da reunião do G-8 deste fim-de-semana, como a criação de um fundo de saúde de US$ 1,3 bilhão para países pobres, não são suficientes.
"Houve progressos, mas ainda é preciso avançar muito, principalmente, no problema da dívida e da miséria no mundo. Em parte, esses progressos foram alcançados pela pressão das manifestações que, na minha opinião, tendem a ser cada vez maiores", disse Hadad.
Para recuperar Gênova dos danos causados pelos protestos do fim-de-semana, o governo italiano deverá liberar um pacote emergencial de US$ 45 milhões.
A área próxima ao local onde os líderes mundiais se encontraram está intacta devido à proteção da polícia e de uma cerca de quatro metros de altura.
Em outras áreas da cidade, no entanto, agências bancárias e lojas foram depredadas e caixas eletrônicos foram destruídos.
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