Marcia Maia, de Buenos Aires
A decisão do juiz federal Jorge Urso de deter o ex-presidente da Argentina Carlos Menem provocou polêmica entre os argentinos e preocupação no mercado financeiro.
Investidores temem que o fato dê início a uma nova crise política, com consequências negativas para a economia argentina.
Menem é um dos líderes do principal partido de oposição do país, o Partido Justicialista (peronista), que tem maioria no Senado.
A prisão preventiva do ex-presidente foi decretada nesta quinta-feira. Menem deve cumprir prisão domiciliar, por ter 70 anos de idade.
Partidários visam Cavallo
A estratégia dos partidários de Menem, os chamados menemistas, é tentar implicar o atual ministro da Economia, Domingo Cavallo, no escândalo de venda ilegal de armas para o Equador e a Croácia.
Cavallo também comandou a economia argentina durante parte do governo do ex-presidente.
Ele é o único ministro que também assinou os decretos sobre a venda de armas ao Equador e à Croácia e ainda não foi convocado pela Justiça a dar explicações sobre o caso.
Quando questionado sobre o assunto, o ministro respondeu: "Se convocado, não tenho nenhum problema em depor".
Na quarta-feira, foi preso o ex-ministro do Exército, general Martín Balza, um militar expulso do Clube Militar por ter reconhecido publicamente erros da ditadura imposta nos anos 70.
No dia 7 de abril, já havia sido detido o ex-cunhado de Menem, Emir Yoma. Quarenta dias mais tarde, no dia 24 de abril, foi a vez do ex-ministro da Defesa, Erman González. Em todos os casos, eles foram presos no dia e hora marcados para prestar depoimento.
Processo
O processo da venda ilegal de armas foi aberto há seis anos, ainda durante a gestão de Carlos Menem. Os decretos assinados por ele e seus ministros autorizavam a venda de armas à Venezuela e ao Panamá.
Mas os destinos do carregamento foram outros, o Equador - que estava em guerra com o Peru - e a Croácia - que estava impedida de receber armas.
Ontem, o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa, disse que seu governo não se envolveria neste caso porque "aqui reina a independência entre os Poderes".
Os partidários de Menem discordam. "Se a causa do Senado, onde os senadores foram acusados de receber propina, levando à renúncia do vice-presidente Carlos Chacho Alvarez, for levada adiante, então De la Rúa também acabará preso", disse o ex-embaixador Jorge Assís.
"O que estão fazendo com Menem é um canibalismo político num ano de eleições legislativas", afirmou o ex-embaixador.
Governadores
Talvez por ser este um ano de eleições, os três principais governadores da Argentina, que são do mesmo partido de Menem, preferiram ficar bem longe da polêmica.
Os três - José Manuel de la Sota, de Córdoba, Carlos Ruckauf, de Buenos Aires, e Carlos Reutemann, de Santa Fé - têm o mesmo objetivo político que Menem: disputar a sucessão de De la Rúa, em 2003.
"Não acredito que esse fato (a prisão de Menem) afete a governabilidade", disse, nesta manhã, o ministro do Interior, Ramon Mestre.
Os advogados de Carlos Menem alegam que não tiveram tempo para produzir a estratégia de defesa do ex-presidente, que teve que responder a 200 perguntas sobre a caso.
O depoimento de Menem estava marcado para o dia 13 de julho, mas o juiz decidiu antecipar seu interrogatório para esta quinta-feira.
A decisão foi tomada por causa de um pedido do próprio ex-presidente, feito na última segunda-feira, para que ele pudesse passar duas semanas de lua-de-mel com a mulher, Cecília Bolocco, com quem se casou há 15 dias.
"Sou inocente"
Ao entrar no tribunal de Justiça, uma hora antes de seu depoimento, Menem disse: "Sou inocente e não tenho nada a temer. Não cometemos nenhuma irregularidade".
Do lado de fora do tribunal, uma multidão erguia faixas e cartazes em apoio ao ex-presidente.
Para evitar tumultos entre menemistas e anti-menemistas, a tropa de choque cercou o local. O ex-presidente deveria sair acompanhado de Cecília Bolocco, direto para a prisão domiciliar.
O local poderá ser a fazenda de um amigo, nas redondezas de Buenos Aires.
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