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01 de dezembro, 2000 - Publicado às 12h03 GMT

A infecção pelo HIV/Aids na era das multiterapias
Pesquisa para uma vacina contra Aids
Pesquisa para uma vacina contra Aids

Márcio de Sá *

Três grandes condutas médicas determinam atualmente o tratamento da infecção pelo vírus HIV, causador da Aids:

1. A confirmação do uso de um tratamento contra o HIV utilizando uma triterapia (uso de no mínimo 3 medicamentos diferentes) altamente eficaz, associado, quando necessário, a um medicamento estimulante do sistema de defesa do organismo humano, o chamado sistema imunológico;

2. O início da utilização de tratamentos contra o HIV associando esta triterapia e vacinação terapêutica (uso de vacinas em pessoas soropositivas ao HIV, visando estimular as defesas do sistema imunológico específicas contra o vírus);

3. O início da utilização da chamada Interrupção Terapêutica Programada – ITP (sistema de tratamento no qual se alternam períodos de uso diário, contínuo, de uma triterapia com períodos de "férias terapêuticas" (período em que se interrompe o uso diário da triterapia).

1. 15 anos após o início do tratamento da infecção pelo HIV (o primeiro tratamento disponível, o medicamento AZT, foi colocado à disposição em 1985, nos Estados Unidos e em 1986, na Europa), tem-se como cientificamente comprovado a eficácia das triterapias altamente eficazes, desde que um tratamento seja necessário.

Constatou-se, ao longo deste período, que o uso de um único medicamento induz rapidamente ao aparecimento de resistência do vírus a este medicamento, com consequente agravamento da infecção. Na França, atualmente, 15 medicamentos anti-HIV, de 3 classes farmacológicas diferentes, são comercializados ou estão disponíveis (incluindo aqueles usados atualmente apenas em estudos de pesquisa terapêutica). Várias combinações diferentes de triterapia altamente eficazes são assim possíveis, utilizando-se os seguintes medicamentos: AZT, ddI, d4T, ddC, 3TC, Abacavir, Saquinavir, Ritonavir, Indinavir, Nelfinavir, Amprenavir, Lopinavir, Nevirapina, Efavirenz e Delavirdina. Pelo menos 4 outros medicamentos, de 4 classes farmacêuticas diferentes, começam a ser utilizados agora, através de estudos de pesquisa terapêutica : T20 (primeiro medicamento pertencente a uma nova classe farmacêutica, que impede a penetração do vírus HIV na célula humana), FTC, Tenofovir e Amprenavir-pródroga.

Bons resultados são obtidos com o uso das triterapias atualmente disponíveis, o que se traduz por um controle da infecção entre 80 e 90% dos pacientes. Um estimulante do sistema imunológico, a interleucina 2 (IL-2), pode ser utilizado nos pacientes nos quais um controle virológico da infecção é obtido (diminuição a níveis mínimos da quantidade de virus no organismo, a chamada carga viral indetectável), sem a obtenção de uma resposta adequada do sistema imunológico (aumento do número e da qualidade dos linfócitos T CD4+, responsáveis pela defesa do organismo humano).

2. O uso de vacinação terapêutica está em evolução nestes ultimos dois anos. Vacinação terapêutica é a estimulação específica do sistema imunológico de uma pessoa ja acometida pelo vírus HIV (soropositiva ao HIV) e que ainda não desenvolveu AIDS-doença.

Em outros termos, isto quer dizer que vacinar terapeuticamente uma pessoa soropositiva, obrigatoriamente em tratamento por triterapia altamente eficaz, significa administrar-lhe, ao mesmo tempo, um tratamento por triterapia e uma vacina dita terapêutica.

Isto visa, de um lado, controlar a multiplicação viral no organismo e, de outro, aumentar a resposta específica do sistema imunológico ao HIV (aumento do numéro e da qualidade dos linfócitos T CD4+).
Trata-se de um complemento do tratamento contra a infecção viral já em curso e seu objetivo final e ideal é poder interromper o tratamento por triterapia, ou seja, fazer com que o sistema imunológico possa, sozinho, "tratar", controlar o HIV no organismo.

Para se avaliar a capacidade de uma vacina terapêutica, o que se faz, na prática destes estudos terapêuticos, é interromper o uso diário da triterapia, quando da utilização da vacina, seguindo, de perto, a evolução do nível da carga viral. Obviamente, desde que o nível da carga viral ultrapassa os limites definidos como seguros, retoma-se imediatamente o uso diário da triterapia.

Vacinação terapêutica é diferente de vacinação preventiva, na qual se vacina uma pessoa não infectada pelo HIV (nao acometida pelo HIV). O objetivo é criar anticorpos específicos contra o HIV para proteger a pessoa de uma infecção por este vírus, no caso de um eventual contato (sobretudo sexual) com uma pessoa soropositiva.

Os avanços científicos são atualmente mais importantes em pesquisa sobre vacinação terapêutica do que em pesquisa sobre vacinação preventiva.

Assim, é mais provável, a médio-longo prazo, que as pesquisas possam chegar mais rapidamente a uma vacina terapêutica, tendo em vista a maior complexidade e dificuldade nas pesquisas de uma vacina preventiva.

Na França, dois estudos de pesquisa clínica sobre vacinação terapêutica estão atualmente em desenvolvimento, patrocinados pela ANRS, Agência Estatal Françesa de Pesquisa contra a AIDS: Estudo Vacciter e Estudo Vaccyl.
Um outro estudo internacional, Remune, patrocinado por um laboratório farmacêutico, está também em andamento. Outros estudos sobre vacinação preventiva também estão em desenvolvimento.

3. O sistema de tratamento chamado Interrupção Terapêutica Programada - ITP - é aquele no qual se alternam períodos de uso diário, contínuo, de uma triterapia altamente eficaz com períodos de "férias terapêuticas", período em que se interrompe o uso diário da triterapia.

Este sistema de tratamento apresenta dois grandes benefícios: a proporcionar ao paciente uma interrupção do uso diário da triterapia, o que pode ser altamente vantajoso para aqueles pacientes que são acometidos pelos vários efeitos colaterais que as triterapias podem apresentar, além da obrigação de tomar remédios diariamente; e proporcionar ao sistema imunológico a oportunidade de ter que combater, sozinho, sem "a ajuda" da triterapia, o vírus HIV. O que quer dizer, a exposição do organismo humano ao HIV, sem tratamento por triterapia pode, teoricamente, servir de auto-vacinação, já que a triterapia ao controlar a reprodução viral, inibe as defesas específicas do sistema imunológico contra o HIV.

Esta teoria começa a ser colocada em prática, visando a verificação da sua validade, em estudos terapêuticos já em desenvolvimento nos Estados Unidos. Em 2001, estudos semelhantes começarão a ser desenvolvidos na França.

* Márcio de Sá é médico da Unidade de Pesquisa Clínica / Hospital-Dia, do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris.

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