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23 de junho, 2003 - Publicado às 11h23 GMT
Guerras passadas



 Clique aqui para ouvir esta coluna do Ivan Lessa

Não há paz que dure, não há guerra que acabe.

Eu vinha negociando uma rendição condicional com as forças de ocupação do Iraque quando, numa revista – The Spectator, nas bancas desde 1828 –, o jornalista Neil Clark, em artigo de cinco colunas, vem mexer com minha cabeça lembrando o remotíssimo ano de 1999 e o esquecidérrimo conflito na antiga Iugoslávia, ou seja, Kosovo, quando os aliados, então sob a égide da Otan, dispuseram-se a libertar os kosovares, daquele bordão que, na época, chamavam de "limpeza étnica".

Neil Clark lembra que, em fevereiro de 1999, em Rambouillet, os sérvios já haviam concordado com todas as propostas dos aliados (sim, Estados Unidos e Reino Unido, principalmente) quanto à autonomia de Kosovo, inclusive com o envio para a região de uma força de paz das Nações Unidas, mas não da Otan.

Como a guerra já fora decidida, isso vinha a atrapalhar os planos do então presidente Bill Clinton e o mesmíssimo primeiro-ministro Tony Blair.

Era necessário, e urgente, um casus belli, daí a inserção no acordo, segundo o articulista, de novos termos destinados a serem rejeitados por Slobodan Milosevic, hoje julgado por crimes de guerra.

Esta a explicação para o Apêndice B ao Capítulo Sete do documento: ocupação de Kosovo pela Otan, além de "acesso irrestrito" a aviões, tanques e forças armadas da Organização por todo o território iugoslavo.

O texto integral do acordo foi publicado em 17 de abril pelo Le Monde Diplomatique, quando a guerra ia completando um mês.

Milosevic já era universalmente tido como o agressor e Tony Blair se referira aos eventos em Kosovo como "um genocídio racial".

Abria-se um jornal e lá estava: milhares executados, 100 mil desaparecidos, 400 mil massacrados, estupro sistemático de albanesas e assim por diante. Eu quase me esquecera, humano e canalha que sou.

Vem agora Neil Clark me afirmar que, até agora, em Kosovo, de garantido "apenas" perto de 3 mil civis mortos, grande parte devido aos bombardeios da Otan, entre eles um bom número de sérvios.

Em carta endereçada ao The Spectator, na semana seguinte, o leitor Dr. Michael Pravica, lembra que, desde a ocupação de Kosovo pela Otan, mais de 250 mil não-albaneses foram mortos ou encontram-se desaparecidos, além de 100 igrejas sérvias destruídas.

Durma-se com os mudos bombardeios das guerras passadas.

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