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Meu Indiano da Esquina Todo mundo aqui em Londres tem um indiano da esquina. Do bairro, na pior das hipóteses. Estou falando de restaurante e não de pequeno armazém ou mercearia, que esses também os há. O meu restaurante indiano da esquina fica a uns dois quarteirões de casa, chama-se Noor Jahan e, possivelmente, como acontece muito, é de paquistaneses ou bengaleses. Uns poucos metros adiante, há outro indiano da esquina. Mas é mais da rua principal do que "da esquina". É o Star of India. Esse é bem, já vi reportagem em revista e televisão sobre ele, parece que foi, na década de 50, um dos primeiros restaurantes indianos de Londres. O Noor Jahan é pequeno, dou uma chegada lá mais ou menos de 6 em 6 semanas, sempre no fim de semana, sempre na hora do almoço. Em geral, está às moscas. No sentido de estar quase vazio. É um restaurante -- ao menos em sua aparência externa -- limpíssimo e os garçons já me conhecem, cumprimentam-me com uma íntima cordialidade adquirida através dos anos. Nunca me preocupou o fato de estar vazio. Sei que os restaurantes faturam para valer é na hora do jantar e, justamente por isso, não janto nunca, mas nunca mesmo, fora. Nunca vi uma referência ao simpático Noor Jahan em coluna gastrônomica ou social, o que me parece o estado ideal das coisas: eu não sou gourmet, eles não têm estrelas. Ou melhor, não tinham. No domingo, 10 de setembro, a sopa Mulligatawny.(é um híbrido anglo-indiano) acabou. Lá estava na revista colorida do Sunday Times com seu mais de um milhão de exemplares vendidos: duas páginas sobre o Noor Jahan. A premissa básica é de que as celebridades -- por uma dessas coisas da moda e de ser celebridade -- estão desprezando os restaurantes ditos "bem" em troca dos… exatamente, indianos da esquina, parentes pobres e distantes dos primeiros. Desfilam então as celebridades (ô palavrinha antipática!) que mandam os motoristas ou guarda-costas darem uma chegadinha no Noor Jahan para pegar o almoço ou jantar para a viagem, conforme se dizia no meu tempo de Brasil, ou takeaway, como se diz aqui. Lá estão Madonna e o marido na lista. E o irmão de Diana, a falecida Princesa de Gales. E Hugh Grant. E a modelo Kate Moss. E a super-modelo Claudia Schiffer. Estou agora com medo de ir ao Noor Jahan. Mesmo no sábado. Na hora do almoço. E se os garçons não toparem mais minha falta de celebridade? Recolho-me à minha insignificância, aguardo -- pois disso sei -- que a moda, como essas celebridades todas, passará, passarão. Copyright 2000. The British Broadcasting Corporation. Todos os direitos reservados. |
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