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Desculpa, foi sem querer Hoje mesmo, no metrô, eu esbarrei numa senhora e, imediatamente, pedi desculpas. Ela respondeu, em inglês, com o equivalente a "não tem de quê". Um episódio corriqueiro, sem graça, sem moral nenhuma. Acontece que eu vinha lendo, na viagem de casa para o trabalho, um artigo sobre essa conferência sobre o racismo que vem se realizando em Durban, na África do Sul. No meio de saída intempestiva de representante americano e israelense, o que mais tem se discutido é a questão, delicadíssima, de país pedir desculpa a outro país para, em seguida, tratar da questão de restituição, ou melhor, compensação. O papa, que supostamente é infalível, já andou pedindo perdão por tudo que a Igreja Católica andou fazendo de errado. Embora muita gente boa tenha reclamado de não se tocar na questão das relações entre o Vaticano e os nazistas. Fica parecendo algo mais sério que impertinência os líderes reunidos no sul do continente africano se recusarem a pedir desculpas por aquilo que seus remotos antepassados andaram fazendo por lá mesmo. Num desses artigos que andei lendo, alguém apontou, com uma certa razão, que seria tão tolo pedir desculpas pelo que nossos antepassados andaram fazendo do que se gabar por suas conquistas. Compreendo o argumento. Em tese. Na prática, tudo se complica. Até onde e com quem parar de pedir desculpas? Os ingleses, com suas complicadíssimas, relações, digamos assim, com os irlandeses, mal saberiam onde começar, embora o primeiro-ministro Tony Blair já tenha dado um passo adiante - se assim se pode dizer - pedindo desculpas pelos "transtornos" criados no século passado com a devastadora crise da batata. Mas e os Cruzados? E o Império Otomano? E o Império Romano aqui mesmo, nestas ilhas? E os indianos com suas castas de intocáveis? E a China e o Tibete? A lista não acaba mais. O garantido é que ninguém vai chegar a um acordo final em Durban. O assunto é complexo demais, a humanidade prefere sempre as opções simples. Humano que sou, neste 7 de setembro, peço - em caráter pessoal - desculpas aos portugueses por nosso grito de independência. Daí paro e penso um pouco. Mas peraí, tá errado: não seriam os portugueses que deveriam pedir desculpas a mim, a nós, pela colonização e subseqüente império? Viu? Eu não disse que o assunto era complicadérrimo. Copyright 2000. The British Broadcasting Corporation. Todos os direitos reservados. |
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