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Carnavais do Passado Segunda-feira gorda. Oquêi, vá lá que seja. Segunda-feira rechonchuda. O Carnaval de Notting Hill promete -- ou ameaça -- atrair 2 milhões de pessoas ao simpático bairro na região oeste de Londres. Não se pode ligar a televisão, ou abrir o jornal, sem dar lá com a fórmula logo na introdução, "o maior carnaval popular de rua do mundo". Não é que eu esteja de verde e amarelo, na arquibancada, torcendo pelos nossas sambistas e escolas, mas tenho lá minhas dúvidas. Mesmo com a redução de nosso carnaval a um desfile de escolas de sambas, com sambódromo e tudo, não me entra na cabeça que, nas ruas do Rio, ainda não tenha foliões, blocos do eu-sozinho, banho de mar à fantasia e tudo aquilo mais que constituía a tradição de nosso carnaval. Talvez na saída do sambódromo umas 10 mil pessoas rebolem um pouco a caminho do metrô, e eu quase que ia dizendo bonde. Era o quanto bastava para dar de dez a zero no carnaval de Notting Hill. Feito o Guga sem contusão e num dia sem empombação. A verdade é que eu estou acumulando uma dose dupla de saudosismo espalhada em épocas diferentes do ano. Primeiro, lá por fevereiro ou março, quando vejo notícias do carnaval no Rio, tenho saudades dos carnavais antigos, ou de antanho, para ficar mais de acordo com essas manias de velho. Depois, como agora, último fim de semana de agosto em Londres, despedida do verão, tenho saudades dos carnavais antigos de Notting Hill. Passada uma certa idade, o que se faz com mais autoridade, nesta vida, é reclamar da decadência de tudo. Tenho saudades dos carnavais antigos de Notting Hill sem nunca sequer ter passado perto de uma das festividades. Nem mesmo há 30 anos, quando -- dizem -- a coisa era mais pura, mais chegada às suas raízes afro-caribenhas. Uma conversa parecidíssima com aquele nosso papo sobre a comercialização do carnaval. Assim como no Brasil, e aí os carnavais se juntam, se dão as mãos, entram os dois no mesmo cordão, assim como no Brasil, dizia eu, os dois carnavais passaram a ser evento televisionado. Ao menos para mim. Eu que já amei estar no meio da multidão, gente suada, pulando e gritando, hoje vejo mais de seis pessoas no mesmo lado da calçada e sinto falta de ar e palpitação. O carnaval de Notting Hill não tem cobertura o tempo todo de televisão. Dão pequenos instantâneos. Como se fosse notícia do trânsito. Mas o melhor de tudo é que a música não tem a mais remota semelhança com qualquer de nossas marchas ou sambas. Aí descanso, fico em paz, não tenho com que me atormentar em matéria de coisas passadas. Copyright 2000. The British Broadcasting Corporation. Todos os direitos reservados. |
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