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A Copa Rota Durante alguns anos, aqui na BBC e cercanias, eu disputei, amistosamente, com o amigo e jornalista Jader de Oliveira, a Copa Rota. Não confundir, em hipótese alguma, com a Copa Roca, aquela que nós nos bons, ou maus tempos, dependendo do ponto de vista, disputávamos com a Argentina. Seguinte: o Jader, além de ser casado com argentina, morou em Buenos Aires algum tempo, fez amigos portenhos, conhece e canta tangos e boleros, acompanhou futebol e, apesar de tudo, não conseguiu deixar de lado algo que só os brasileiros com uma certa idade têm intimidade: a extraordinária pinimba entre Brasil e Argentina. Fico apenas no campo de futebol. No estádio São Januário - sim, a coisa antecede, e em muito, o Maracanã -, na Bombonera, nas últimas páginas dos jornais, no papo exaltado dos grandes botequins que ainda tinham serragem no chão. Fico lá pelo miolo, ocasionalmente disparando pelas pontas. Nem vou falar na disputa entre cidades. Que o Rio era mil vezes superior a Buenos Aires por isso e por aquilo, que a Argentina tinha uma civilização e nós não, as centenas de casos demonstrando o desprezo que os argentinos tinham por nós, ocasionalmente - dizia-se - por eles chamados de "macaquitos brasileños". Lembro-me também de uma história, possível lenda urbana, de que havia hotéis aonde na recepção dizeres deixavam claro que não aceitavam hóspedes brasileiros. Pode ser que sim, pode ser que não. Jader nunca defendeu, nunca tomou o lado da Argentina. Também seria demais, ora bolas! Mas se divirtia quase tanto quanto eu em inventar novas contendas na Copa Rota. Na Copa Rota, eu tacava todas as comparações depreciativas do dia. Nos anos de chumbo nossos, nos deles. Nos aspectos físicos de Menem e, para citar um, Itamar Franco. Na vida pessoal do mesmo Menem e, para citar outro, Fernando Collor de Mello. Respectivas esposas, coisa e tal. Era a Copa Rota, que pode não ter, mas em minha mente sempre terá, um enorme circunflexo. Agora, aí estamos de novo disputando a Copa das Américas e, finalmente, encestando um, depois de seis jogos: o Peru, um velho freguês. Em compensação, pergunta-se: tem graça uma Copa sem a Argentina? Ou o Uruguai? Que, para nós, misteriosamente, sempre foi mais ou menos a mesma coisa. Aí estamos disputando nova rodada na Copa Rota. Com recessão, PIB, dolarização, fintas econômicas. Na verdade, podem ter mudado os times e as regras. O jogo prossegue. Catimbado como sempre. Com aquela verdade eterna: bom é ganhar no último minuto de jogo com gol roubado de pênalti.
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