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21 de abril, 2000 Publicado às 20h20 GMT

Especial Brasil 500: Historiadores
História pode revelar um novo Brasil
O historiador português Joaquim Romero Magalhães

Rafael Gomez e Babeth Bettencourt

Os brasileiros ainda têm muito a conhecer sobre a história de seu país.

Aos poucos, os pesquisadores vão preenchendo as lacunas e desfazendo os equívocos assimilados pela história oficialmente contada durante muito tempo.

E muitos dos dados que estão vindo à luz são até surpreendentes, como o fato de que uma das primeiras riquezas naturais a chamar a atenção do colonizador português foram os papagaios que existiam por todos os lados nas matas recém-descobertas.

Por outro lado, historiadores modernos lamentam que a opinião dos índios brasileiros sobre o descobrimento permanece em um injusto segundo plano na história que é ensinadas nas escolas.

E muita gente esquece que durante 60 anos o Brasil pertenceu à Espanha, e esse domínio deixou marcas em sua história.

A verdade é que, 500 anos depois da chegada de Pedro Álvares Cabral ao sul da Bahia, o Brasil ainda é um país que busca um melhor conhecimento de si mesmo.

Papagaios e pau-brasil

A carta de Pero Vaz de Caminha já falava das grandes riquezas que a terra descoberta pela expedição de Pedro Álvares Cabral poderia proporcionar à Coroa portuguesa.

Mas foram apenas dois produtos naturais da terra que chamaram a atenção dos exploradores logo no descobrimento, segundo o historiador Joaquim Romero Magalhães, diretor da Comissão Portuguesa para o Descobrimento.

O primeiro foi o pau-brasil, usado como matéria-prima para um importante tipo de tingimento para roupas usado na Europa do século 16.

Durante mais de um século o pau-brasil foi o grande produto de exportação da nova colônia.

O outro é bem mais pitoresco e teve importância econômica muito menor: os papagaios que abundavam no Brasil e que os europeus gostavam muito de ter como um exótico animal de estimação.

Romero Magalhães explica que o Brasil só passou a ter real importância econômica para Portugal depois que os colonos portugueses começaram a plantar cana-de-açúcar.

Esse interesse tardio da Coroa portuguesa por suas novas terras é a grande diferença da colonização brasileira com aquela que foi promovida na colônias americanas da Espanha.

Segundo Magalhães, desde o início os espanhóis procuraram desbravar o interior do continente em busca de metais preciosos, enquanto os portugueses mal roçaram o litoral brasileiro.

Foi com a descoberta das grandes reservas de ouro em Minas Gerais, no século 17, que a Coroa portuguesa passou a dar mais valor à exploração do interior brasileiro.

"Massacre" de índios

A chegada do colonizador português foi uma tragédia do ponto-de-vista dos índios que viviam no atual território brasileiro.

Essa é a opinião do historiador José Jobson Arruda, para quem é equivocada a idéia de que os europeus só trouxeram evolução para as Américas.

As estimativas mais confiáveis colocam em cerca de 5 milhões o número de índios que viviam no Brasil em 1500.

A variedade cultural dos vários povos indígenas era muito grande, segundo José Jobson Arruda, e até hoje a versão deles para a chegada dos portugueses é ignorada nos bancos escolares.

O historiador diz que a colonização representou a redução do total de número de índios para menos de 400 mil.

Hoje, lamenta ele, os índios estão cada vez mais integrados às regiões urbanas, deixando para trás seu legado cultural.

A palavra "massacre" é apontada por muitos historiadores como o termo mais adequado para descrever o que aconteceu com os índios das Américas.

Por outro lado, José Jobson Arruda acha que a evolução do Brasil poderia ter sido pior caso o país houvesse sido colonizado pela Espanha ou pela Inglaterra.

Ele afirma que os portugueses tiveram uma preocupação muito maior em incentivar a integração entre colônia e metrópole do que esses outros países.

O papel da Espanha

A Espanha desempenhou um papel importante na história do Brasil, mas poucos brasileiros estão conscientes disso.

O historiador espanhol Rafael Valladares lembra que Portugal esteve sob domínio da Coroa espanhola entre 1580 e 1640 – e a colonização do Brasil nessa época esteve sujeita aos interesses espanhóis.

Ele ressalta que, a princípio, a Espanha, a exemplo de Portugal, teve pouco interesse em explorar o Brasil.

No final do século 16, porém, a ameaça de invasões estrangeiras em território brasileiro ficou cada vez mais evidente, e o governo espanhol achou por bem prestar um pouco mais de atenção à antiga colônia portuguesa.

Valladares lembra ainda que, quando Portugal voltou a se separar da Espanha, em 1641, um grupo de moradores do Brasil enviou um representante a Madri para propor que a colônia continuasse sob domínio espanhol.

Mas Portugal manteve os direitos sobre o Brasil e, nos séculos seguintes, deu maior prioridade ao desenvolvimento econômico e ao desbravamento da colônia.

Rafael Valladares, que faz parte do Conselho Superior de Investigação Científica da Espanha, acredita que os espanhóis tinham a ambição de dominar toda a América e por isso ficaram frustrados por ter que ceder o Brasil aos portugueses.

 







 

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