| 08 de maio, 2003 - Publicado às 18h45 GMT |
| Mercosul não está pronto para moeda única, dizem analistas |
 Comércio no bloco é mais importante para Argentina
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Maria Luiza Abbott
A criação de uma moeda única no Mercosul é vista por analistas como uma boa proposta, mas só para o futuro.
Antes de se chegar a ela, os países do bloco, especialmente a Argentina, precisam organizar as respectivas economias para que possam chegar a ciclos econômicos que sejam coincidentes.
Analistas ouvidos pela BBC Brasil também alertam para os problemas que a moeda única pode causar para as diferentes economias, como acontece com os países da zona do euro.
Ao abrir mão da soberania sobre a política monetária, os países perdem um instrumento precioso para conduzir suas economias, podendo ser prejudicados por uma política única de juros, como acontece agora com a França e a Alemanha na Europa, por exemplo.
Ciclos
Por outro lado, em uma zona aduaneira, a estabilidade cambial é fundamental para o crescimento do comércio e da economia dos países envolvidos, segundo especialistas.
Grandes diferenças no valor das moedas de países de uma zona aduaneira podem até impulsionar o comércio, mas levam ao caos econômico, como aconteceu com a Argentina até a desvalorização do peso, segundo Francisco Panizza, especialista em Mercosul da London School of Economics.
O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina – em média, cerca de 25% das exportações argentinas vão para o mercado brasileiro.
Desde a flutuação do real, em janeiro de 1999, o câmbio fixo na Argentina acabou inviabilizando a competitividade dos produtos argentinos em comparação aos brasileiros.
"A proposta de criação de uma moeda única em uma zona aduaneira é muito positiva, mas a política cambial não é isolada das demais políticas macroeconômicas", avalia Panizza.
"Antes de uma moeda única, os países precisam passar por um processo de convergência de suas economias e isso não é fácil, como mostra a experiência européia, em que a criação do euro demorou muitos anos", acrescenta.
Riscos
Quando um bloco de países adota uma moeda única, a responsabilidade sobre a política monetária – como a fixação dos juros – deixa de ser de cada país e passa a ser de um banco central comum.
Foi isso o que aconteceu com os 12 países da Europa que adotaram o euro como moeda. O banco central de cada um perdeu sua função de autoridade monetária, tranferida ao Banco Central Europeu (BCE).
O BCE fixa os juros de acordo com as condições econômicas da média dos países, o que significa que a taxa pode ser inadequada para alguns deles.
Neste momento, por exemplo, o euro valorizado prejudica as economias da Alemanha e da França, pois afeta a competitividade das exportações dos dois países, que têm inflação baixa e enfrentam uma desaceleração da economia.
Uma boa receita para os dois poderia ser o corte de juros, que reduziria a valorização da moeda e ainda impulsionaria o crescimento a partir da demanda doméstica.
No entanto, outros países da zona do euro – entre eles, a Espanha ou a Irlanda, por exemplo – têm inflação e taxa de crescimento mais elevadas e sofreriam com a queda das taxas.
O BCE tem que atender à média e, com isso, não pode baixar os juros a um limite que beneficiaria as duas maiores economias da zona do euro, Alemanha e França.
Interesse soberano
Situação semelhante acontece com a fixação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que é feita pela média das regiões do país e, com isso, também acaba beneficiando determinadas áreas e prejudicando outras, segundo Nuno Camara, economista para América Latina do banco de investimentos alemão Dresdner Kleiwort Wasserstein (DRKW).
"Dentro do mesmo país, essas diferenças podem ser resolvidas com outras políticas, inclusive de ordem fiscal, mas quando envolve países, isso vira uma problema nacional", observa Camara.
"A situação fica difícil quando o país perde a soberania sobre a política monetária, como mostram os problemas enfrentados pela França e pela Alemanha. A Grã-Bretanha reluta em aderir ao euro porque está vendo as dificuldades quando se abre mão de uma política monetária soberana", acrescenta.
Integração
Na avaliação de Camara, no caso da América do Sul, antes de começar a discutir uma moeda única, os países deveriam se concentrar na institucionalização de suas economias, além de ampliar o próprio comércio entre eles.
O economista argumenta que, embora o Brasil seja o maior parceiro comercial da Argentina, o inverso não é verdadeiro. Em média, o mercado argentino representa 12% do total de exportações brasileiras.
No caso dos países da zona do euro, o comércio entre eles representa a maior parcela de suas vendas externas.
Segundo Panizza, além de avaliar as dificuldades vistas em relação ao euro, os países precisam ter a convicção de que a criação de uma moeda única tem que ser precedida de uma profunda integração regional que ainda não existe no Mercosul.
"Os países do bloco precisam ter mobilidade de capitais e de mão de obra entre eles, avançar em uma infra-estrutura comum, além de acabar com barreiras ainda existentes no comércio regional", diz Panizza.
Camara considera que antes mesmo desse processo, a Argentina precisa criar um ambiente econômico interno saudável, fazer a reestruturação de sua dívida externa e entrar em uma fase de reestruturação efetiva da economia real. |
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