| 13 de dezembro, 2002 - Publicado às 19h20 GMT |
| Argentina termina o ano longe de acordo com o FMI |
 Limites de saques nos bancos foi derrubado
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Marcia Carmo, de Buenos Aires
A Argentina termina o ano sem perspectivas de um acordo com o Fundo Monetário Internacional e sem saber como pagará em 2003 uma dívida de US$ 10 bilhões – o mesmo que o país possui de reservas no Banco Central – com os organismos multilaterais de crédito.
Pior: medidas como a desvalorização do peso e a moratória do pagamento com os investidores privados não alteraram o valor da dívida pública, que agora totaliza US$ 140 bilhões. O valor é recorde na história do país, representando 123% do Produto Interno Bruto (PIB).
Doze meses depois de iniciadas as negociações com o FMI, o impasse continua, porque a instituição financeira não confia nas promessas do governo do presidente interino Eduardo Duhalde.
É o que afirmam interlocutores diretos do FMI. "Estamos esperando as eleições presidencias (27 de abril próximo), com um governo eleito pelas urnas, para falar sério sobre um possível acordo", disse à BBC Brasil uma alta fonte do Fundo. "Nesses 12 meses, nenhum dos dois lados quis dar o braço a torcer e reconhecer que as atuais negociações não vão dar em nada."
Farpas
O objetivo do ministro da Economia, Roberto Lavagna, não é conseguir dinheiro novo para o país, mas adiar os vencimentos da dívida deste fim de ano e de 2003 com o próprio Fundo, o Banco Mundial (Bird) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Mas nem isso está sendo possível. E o que antes era troca de elogios mútuos, com o Fundo dizendo que confiava na Argentina e a Argentina afirmando estar "otimista" com o organismo, já é troca de farpas. E públicas.
"Nós não vamos assinar um cheque em branco", disse Duhalde. "Nós não somos obedientes. Só vamos assinar aquilo que for bom para o país."
Lavagna, por sua vez, intensificou as críticas aos organismos multilaterais de crédito. "Quando foram criados, esses organismos tinham o objetivo de proteger e prever crises. Mas não é o que está acontecendo", afirmou.
"Como pode ser que, na década de 70, a dívida externa argentina era de US$ 7 bilhões e agora é de US$ 140 bilhões?", questionou o ministro.
Segundo ele, o país pagou neste ano, em meio à pior crise da sua história, US$ 4,5 bilhões a essas instituições. Mas o fato não serviu para acabar com o impasse.
Da parte do Fundo, as críticas partem da vice-diretora-gerente, Anne Krueger. "A Argentina não está cumprindo o que combinamos", tem repetido.
Krueger tem, naturalmente, o apoio do diretório (board) do FMI, onde os Estados Unidos e os países do G-7 têm voto e resistência decisivos a uma rápida ajuda à Argentina.
Exigências do FMI
Para o ministro da Economia, é difícil cumprir todas as exigências sem que se tenha um acordo com o Fundo. Para o FMI, é o contrário: primeiro, exigências atendidas e depois um acordo.
 Cotação do dólar tem mantido mesmo patamar | Lavagna diz que o Fundo está encontrando, a cada semana, uma maneira para adiar esse tão sonhado pacto.
"Agora eles fazem novas exigências", reclamou. Na lista de exigências do FMI, estão a redução de gastos das províncias e o fim das moedas provinciais – medidas que não foram cumpridas -, o aumento das tarifas dos serviços de luz, gás, água e telefone e até a liberação total do câmbio.
Hoje, na Argentina, diferentes analistas econômicos concordam que é graças ao controle cambial, com intervenções do Banco Central, que o país termina o ano com o valor do dólar igual ao de cinco meses.
Entre eles estão Jorge Ávila, da consultoria e universidade CEMA, Júlio Piekarz, da consultoria IBCP, e Carlos Perez, da Fundação Capital, .
Esses economistas não apóiam a política econômica de Lavagna, mas entendem que, no contexto atual, a ação do BC acabou evitando a volta da hiperinflação.
Isto porque, já que o dólar não disparou, o valor não foi repassado para os preços. O país termina o ano com inflação de cerca de 40%, longe dos 200% que economistas de diferentes tendências estimaram, em janeiro, logo após a desvalorização do peso.
Acordo difícil
No Ministério da Economia, acredita-se que, mesmo se todas as metas forem atingidas, dificilmente o Fundo assinará um acordo com o país nos próximos meses.
O embaixador da Argentina em Washington, Diego Guelar, que está deixando o posto, responsabilizou o FMI por ter gerado a ilusão de que o acordo sairia ainda neste governo.
"O FMI cometeu um erro político com a Argentina. O Fundo não poderia ter pedido a um governo de transição, como o do presidente Duhalde, um programa econômico sustentável de longo prazo", criticou.
"Eles deveriam ter negociado um programa econômico de transição para se chegar até maio e, só então, depois da posse do novo presidente negociar um acordo de longo prazo com a Argentina”.
Seja como for, o país termina o ano desafiando e sendo desafiado pelo FMI. "Aqui não estamos discutindo questões ideológicas. Mas o fato de que, se romper com o Fundo, deixando de pagar o que deve aos organismos de crédito, a Argentina estará perdendo o único setor de crédito que ainda lhe resta", observou o economista Roberto Cachanosky.
"Será um isolamento ainda maior do mundo. Um país não pode viver sem crédito. Até aqui, o país foi se virando, mas essa é uma bomba relógio que pode explodir e gerar ainda mais desemprego e injustiça social."
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