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 Você está em: Economia
11 de dezembro, 2002 - Publicado às 17h21 GMT
Comerciantes estão na linha de fogo entre Israel e Palestina
Tempos difíceis: Khoury investiu tudo na cervejaria
Tempos difíceis: Khoury investiu tudo na cervejaria

Nick Mackie, da Cisjordânia

Nadim Khoury é o dono da única micro-cervejaria do Oriente Médio. Dois anos atrás, a procura por sua cerveja Taybeh estava nas alturas.

Nadim tinha 12 empregados e fabricava 4 mil garrafas por hora em sua fábrica, nos arredores de Ramallah.

A família Khoury voltou para a vila de Taybeh, nas montanhas, depois de 20 anos em Boston, e investiu US$ 1,2 milhão no negócio, depois do Tratado de Oslo, em 1993.

Agora, no entanto, com uma queda de 90% na produção, a renda mal dá para pagar a conta do telefone.

Dificuldades

Toques de recolher e barricadas atrasam consideravelmente as entregas enquanto os carregamentos de matérias-primas básicas, como levedura de cerveja britânica, malte belga, cevada alemã e as garrafas portuguesas ficam nas mãos das autoridades israelenses.


Os números do turismo caíram vertiginosamente
"Eles seguram o material só para nos atrasar a vida, para verificar se eles não são armas, por motivos de segurança", explica Khoury.

"Eles chegam a pegar algumas garrafas. Eles as inspecionam e, então, trazem-nas de volta e cobram pela abertura desses contêineres a cada vez", acrescenta.

Em uma encomenda recente de US$ 20 mil em garrafas importadas, a Cerveja Taybeh foi obrigada a pagar US$ 6 mil de custas por todas as verificações no porto israelense.

As autoridades dizem que esses atrasos poderiam ser evitados caso Khoury comprasse as garrafas de firmas israelenses.

Nos últimos 26 meses do conflito Israel-Palestina, quem tem pagado as contas são os comerciantes de ambos os lados.

A indústria do turismo, em especial, está no buraco. Com as freqüentes incursões do Exército israelense a Belém, o melhor traje para visitar o berço do Cristianismo é um colete à prova de balas, enquanto a ameaça de atentados suicidas de palestinos só não afastou os peregrinos mais corajosos das cidades israelenses.

Do alto do Monte das Oliveiras, na vista da Cidade Velha com sua cúpula dourada, o guia de turismo israelense Amir Orly conta que está praticamente desempregado.

Leia mais: "Belém se prepara para o Natal em Estado de sítio"

Turismo

Anos atrás, o local estaria repleto de centenas de turistas de todo o mundo. Hoje está normalmente deserto.

"O conflito Israel-Palestina está afetando todo mundo em todos os lugares hoje em dia", diz Orly, irritado.


Drori: milhares perderam seus empregos
"O turismo caiu vertiginosamente, a ponto de, como você pode constatar, estar tudo morto por aqui", completou o guia.

A indústria turística de Israel levantava US$ 4 bilhões em divisas estrangeiras todo ano. Isso representava 9% do produto interno bruto e significava empregos para 100 mil pessoas.

No entanto, desde o início da Intifada, em setembro de 2000, o número de turistas estrangeiros caiu 65%.

"Estamos falando de US$ 2,1 bilhões só no ano de 2001, em termos do dinheiro que deixou de entrar no país", diz Oren Drori, o ministro do Turismo israelense.

"Quase 30 mil pessoas perderam seus empregos. Não é preciso dizer que o impacto sobre a economia israelense é enorme", completa Drori.

O economista Yoram Gabbay, diretor da Peilim Portfolio Management Company, afirma que o conflito está atingindo todos os setores, da tecnologia de ponta à ponta de estoque.

Futuro negro

Muitas micro-empresas sobrevivem graças às suas economias. Outro ano de Intifada decretaria o fim de um quarto dessas firmas.

Para a economia de Israel, isso significaria um acréscimo nos atuais 10,6% de desempregados – aumentando a pressão sobre o orçamento do país, já estourado.

Companhias palestinas, cientes dos problemas em Israel, acusam o país de tentar aliviar seus próprios problemas com uma guerra comercial na carona do conflito armado.

Ação e inação da alfândega e do Exército israelenses estão acuando negócios outrora lucrativos como a Cerveja Taybeh – hoje incapazes de satisfazer a demanda dos seus clientes.

Empresários palestinos acusam as empresas israelenses de tirarem proveito da situação tensa para invadir os mercados de seus concorrentes.

No entanto, o ministro do Exterior israelense garante que não há nenhum plano secreto para beneficiar as suas companhias ou destruir a economia palestina.

A posição oficial é: se os ataques contra israelenses parassem, não haveria necessidade para medidas de segurança extrema e a vida econômica voltaria ao normal.

O argumento não consola a operadora de telefonia móvel Jawwal.

Telefonia

Por questões de segurança, Israel instalou US$ 4 milhões em torres e transmissores no aeroporto de Tel Aviv há pouco mais de um ano.

O resultado disso é que a Jawwal não pode expandir seus negócios e tem problemas para manter a qualidade dos seus serviços.

A direção da empresa está tentando manter seus consumidores apesar da concorrência israelense.

Essas companhias, com suas antenas nos assentamentos isralenses na Cisjordânia, oferecem pacotes pré-pagos em cidades palestinas – apesar de não terem licenças palestinas.


Kanafani: 'concorrência israelense é desleal'
"Eles acham que podem anunciar, vender, promover e levar seus negócios em frente sem ter que pagar a licença, ou os impostos de valor agregado. Isso, para eles, é a expansão nacional", reclama o diretor-chefe da Jawwal, Hakam Kanafani.

"Em Israel há 5,5 milhões de telefones móveis em uma população de 6 milhões. O mercado está completamente saturado", completa.

A principal operadora isralense, Cellcom, se recusou a responder essas alegações. A empresa apenas confirmou que oferece serviços aos assentados israelenses e aos militares na Cisjordânia.

Lojas de telefones celulares em cidades palestinas como Ramallah e Hebron exibem claramente o logotipo da Cellcom.

Em Taybeh – que significa "delicioso" em árabe – Nadim Khoury explica que quando ele não consegue fornecer cerveja aos seus clientes, eles são obrigados a optar por marcas européias ou israelenses.

Ele está encurralado. Enquanto a Intifada palestina continuar, a ação militar também vai, e ambas as economias vão sofrer as conseqüências.

No entanto, as empresas palestinas são as mais atingidas, já que deixam o que resta dos seus mercados à mercê dos concorrentes israelenses.

Nadim, em árabe, coincidentemente significa "aquele que traz a bebida". Ele o faria, se pudesse.

Clique aqui para ler o especial sobre a crise no Oriente Médio
 
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