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25 de novembro, 2002 - Publicado às 23h46 GMT
América Latina precisa crescer para atrair dinheiro novo
Amann (esq): investimentos dependem de crescimento (foto: Canning House)
Amann (esq): investimentos dependem de crescimento (foto: Canning House)

Cassuça Benevides

Os retorno dos investimentos externos diretos (FDI) para a América Latina só deve acontecer a longo prazo por causa da incerteza nas principais economias da região e da aversão ao risco por parte dos investidores, provocada pelo fraco desempenho dos mercados nos países desenvolvidos.

Esse parece ter sido o consenso entre os participantes de um seminário promovido pela Canning House (Conselho hispânico luso-brasileiro), em Londres, para discutir os investimentos diretos europeus na região.

"Os mercados internacionais financeiros vão demorar muito tempo para terem uma visão mais otimista da América Latina", acredita Edmond Amann, professor de estudos econômicos da Universidade de Manchester.

Amann foi o autor do capítulo sobre investimentos britânicos do livro "Investimento Estrangeiro na América Latina - o papel dos investidores europeus", editado pelo Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (Bird) e apresentado durante o encontro.

Gás

Mas investidores convidados para o lançamento do livro, que é uma coletânea de diversos autores, mostraram que ainda há oportunidades de investimento na região.

O grupo BG, do qual a British Gas é uma subsidiária, investiu US$ 50 milhões (cerca de R$ 178 milhões) em 2001, na construção de um gasoduto na Argentina, em 2001, por exemplo.

Geoffrey Bothamley, gerente de Relações Governamentais do BG, diz que a visão do grupo para a região é de longo prazo.

"Terminamos o gasoduto entre Buenos Aires e Montevidéu, estamos pensando em investir na Venezuela e descobrimos tanto gás na Bolívia que seria possível suprir o Brasil e ainda exportar para os Estados Unidos. E é o que queremos fazer", explica.

Mesmo assim, Bothamley admite que, no momento, ficou difícil exportar gás da Bolívia para São Paulo, por causa da desvalorização do real. "O preço do gás é fixado em dólares, a Comgas poderia tentar repassar o custo para os consumidores, mas isso seria difícil porque o custo para consuidores industriais seria menor usando óleo diesel".

Europeus

O BG é o exemplo típico do investidor europeu na América Latina.

A maioria se instalou na década de 90, quando os investimentos diretos estrangeiros aumentaram cerca de 30%, graças à liberalização dos mercados e às privatizações.

As áreas de atuação preferidas dos europeus foram as de serviços, serviços públicos (água, gás, eletricidade), telecomunicações e produção de petróleo.

"Os países europeus representaram a principal fonte de FDI para a América Latina e para o Caribe na segunda metade dos anos 90, enquanto os Estados Unidos permaneceram os principais investidores em termos de investimento direto em ações", afirmam Amann e Ziga Vodusek, economista senior do Bird, no prólogo do livro.

No início da década de 90, a América Latina e o Caribe recebiam juntos US$ 7,7 bilhões em FDI. Em 1999, o volume de FDI tinha chegado a US$ 93,8 bilhões. Um aumento de 9% para 11,4% do volume global de investimentos estrangeiros diretos.

Queda

Em 2000, depois de seis anos de crescimento contínuo, os FDI na região caíram para US$ 74,2 bilhões, de acordo com a publicação.

Cristiano Pinto da Costa, consultor de Governança para o Cone Sul da Shell, diz que o que a publicação mostra é o que todo mundo que entende de América Latina já sabia:

"Houve um grande boom de investimentos diretos logo depois do Plano Real, com a estabilização. E nos dois últimos anos os investimentos tiveram um descréscimo por causa da desaceleração da economia global, da crise na Argentina e das incertezas políticas no Brasil, além dos problemas sociais na Colômbia e na Venezuela".

Ele acredita que, para o retorno de volumes maiores de FDI, vai ser preciso esperar a economia global voltar a crescer e as moedas dos países latinos voltarem a se estabilizar.

De acordo com Amann, o retorno do investimento direto vai depender da "volta de um crescimento econômico sustentável na região e da redução da volatilidade da moeda".

Como o incentivo das privatizações precisa ser retomado, ele aposta em liberalização de mercados.

E lembra que nem tudo depende dos países da região: "Para que haja mais investimentos, é necessária uma melhor performance nos mercados de ações mundiais".


 
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