| 11 de outubro, 2002 - Publicado às 02h35 GMT |
| Governo faz 'terrorismo' contra PT, diz Delfim |
 Delfim diz que governo tentou atacar Lula
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Edson Porto, de São Paulo
O deputado federal Delfim Netto diz que o governo não resistiu à tentação de usar o "terrorismo econômico" para tentar atacar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para o ex-ministro - um crítico de longa data da atual política econômica - o sucesso do Plano Real interditou o debate econômico e levou o governo a escolhas que seriam o motivo da crise atual.
A novidade, porém, é que agora Delfim não só critica o governo, como diz que sua alternativa nas eleições deste ano não assusta – pelo contrário, seria a melhor saída.
Nesta entrevista, o deputado, que foi reeleito para o seu quinto mandato no Congresso, fala sobre Armínio Fraga e sua visão sobre os planos econômicos dos petistas.
BBC Brasil - Qual a sua opinião sobre a postura que o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, assumiu na quarta-feira em relação à eleição?
Delfim Netto - Eu confesso – e talvez isso não tenha muita importância – que fiquei muito decepcionado com a exposição do doutor Armínio Fraga. Tenho grande admiração pelo Armínio, acho que foi um excelente presidente de Banco Central, fez um grande esforço, enfrentou um problema muito delicado, que é sustentar um programa de metas inflacionárias com choques extraordinários que nós sofremos, isso é na verdade uma demonstração de competência. O fato de a inflação ter ficado onde ficou com o choque energético do ano passado – o Brasil perdeu 2% do PIB, quer dizer, a maior barbeiragem do governo Fernando Henrique - não impediu que as coisas caminhassem lentamente e bem. Mas ontem (quarta-feira, dia 9), ele deixou o chapéu coco de presidente do Banco Central e vestiu o boné de cabo eleitoral. Acho que
ele ajudou a aumentar o pânico, confirmando que, de uma maneira ou de outra, o governo quer fazer terrorismo econômico para obter resultados políticos.
BBC Brasil - O senhor acha que ele foi um mensageiro do governo ou simplesmente estava expondo a dificuldade de lidar com a situação?
Delfim - Ele confessou que foi mensageiro. Na verdade, quando começaram a questioná-lo, ele disse "não ataquem o mensageiro". Ele estava dizendo o seguinte: estou trazendo a má notícia, mas por favor não cortem o meu pescoço, como era comum quando se mandava a má notícia para o imperador. Mas é claro que ele estava refletindo a opinião que se formou no almoço do qual ele tinha participado com o presidente da República, o ministro da Fazenda e outros membros do governo. O que parece é que isso confirma a idéia de que o governo não resiste à tentação de usar o terrorismo (econômico) em seu benefício. Agora, eu não entendo é isto: se a situação está tão dramática, quem produziu essa situação foi o presidente Fernando Henrique Cardoso e o seu pessoal.
BBC Brasil - Mas o governo alega que tem enfrentado um série de crises internacionais que tem atrapalhado o desempenho da economia...
Delfim - Essa é uma das grandes piadas que podem ser vendidas para pessoas desinformadas. Existem duas testemunhas que esclarecem esse fato: o Chile e o México. Os dois tiveram os mesmos problemas internacionais, sofreram as mesmas crises, fizeram programas de estabilização parecidos com o nosso, e os dois terminam tendo um crescimento maior do que o do Brasil nos últimos cinco anos, tendo uma inflação menor do que a do Brasil nos último cinco anos, tendo uma taxa de juros no Chile que é um quarto da do Brasil e, no México, de um terço da do Brasil.
BBC Brasil - Por que essa diferença?
Delfim - Porque eles tiveram políticas externas. O que o governo está querendo é que a gente acredite no seguinte fato: nos últimos quatro anos, ele foi ao Fundo Monetário (Internacional, FMI) três vezes, mas não para pedir dinheiro. Foi o Fundo que, em dificuldades, veio buscar forças no Brasil. É uma das coisas mais fantásticas do mundo. Quer dizer, quando um país vai três vezes em quatro anos ao FMI e comparado com o México e o Chile mostra grandes diferenças, será que há razão para acreditar que o problema é externo? No Chile, o peso também se desvalorizou um pouco e no México também. Os riscos dos dois países também subiram um pouco. Ou seja, na melhor das hipóteses, olhando com magnanimidade, um terço do problema é externo, dois terços são made in Brazil.
BBC Brasil - E a derrapagem do câmbio?
Delfim - O câmbio derrapou porque os fundamentos são o que eles pensam. O câmbio derrapou porque o governo ajudou a criar esse estado de espírito. O câmbio derrapa desde que em abril o Banco Central cometeu seus pecadinhos, que foram crescendo. O câmbio derrapou depois que, na convenção do PSDB, o governo inventou um sambinha de pé quebrado dizendo que nós não queríamos virar a Argentina – quando não tinha nada que ver o Brasil e a Argentina. O câmbio derrapa por conta dos próprios tropeços do governo. É evidente que tem um efeito eleitoral, mas é o que sempre digo: o Lula não compra nem vende dólar. Quem faz isso é o sistema financeiro, que é amigo do governo.
BBC Brasil - Mas o que o governo fez de errado para chegar a essa situação que o senhor descreve?
Delfim - Na verdade, esse governo teve um plano de estabilização brilhante e terminou em 95, quando deveria ter começado a trabalhar. Foi tão brilhante que ele interditou o debate. Ninguém podia dizer que o câmbio estava errado – e estava - porque ele dizia que quem fizesse isso era do período jurássico.
Dizia que não se sabia que, no mundo moderno, déficit em contas correntes não deve ser levado em conta porque há agora liberdade de movimentos de capitais e sempre existirá quem queira financiá-los. Pois assim, ele acumulou US$ 100 bilhões de déficit no primeiro mandato, que foi de farra fiscal. O que é a coisa mais contraditória com o câmbio fixo.
Então os erros são aqui mesmo, nossos. Quando o governo conseguiu em 1998 a ajuda do FMI, de US$ 41 bilhões, e se reelegeu, a política mudou. O câmbio flutuou, foi introduzido um sistema de metas inflacionárias, foi aprovada uma lei de responsabilidade fiscal por inspiração do Fundo Monetário que é
uma excelente lei e que vai pôr ordem nas finanças do Brasil, mas que foi insuficiente para superar o que tinha sido feito.
Esse governo termina com a maior taxa de desemprego já vista neste país, termina com uma dívida externa quatro vezes o valor das exportações, termina com uma dívida interna de 60% do PIB. Tudo isso foi feito por quem? Pelo Espírito Santo? Pelo Lula? À noite o Lula operava e de dia os virtuosos corrigiam? Não. Esse governo está sofrendo as conseqüências da própria política. E agora os desempregados estão votando errado, o Brasil está votando errado, dois terços do Brasil não sabem o que estão fazendo.
É a maior demonstração de autoritarismo. Na verdade, é preciso das duas instituições: do mercado e da urna. O mercado só sobreviveu porque a urna corrigiu os seus defeitos. O capitalismo é antropofágico. Deixado a si mesmo, ele teria se comido. (Karl) Marx estava certo no Manifesto. Só errou porque não previu o efeito da urna. A urna é que organizou e civilizou o capitalismo. Estamos diante de completar esse grande ciclo que começou com a Constituição de 1988. Este é o grande passo democrático deste país. O futuro está na alternância.
BBC Brasil - Nessa crise toda, o que um governo do PT fará?
Delfim - Nada contrário ao mercado. Não vai violar a propriedade privada, não vai recusar os cumprimentos dos contratos, não vai renegar os acordos internacionais, se não ele não faz parte do mundo. Então o que vai fazer? Vai mudar lentamente as prioridades. Mas para isto é que existe a urna: para mudar prioridades. O PT não vai produzir o descalabro fiscal, pelo contrário, a tradição do partido é de absoluto respeito fiscal. Ele não vai produzir a idéia de que um pouco mais de inflação vai produzir um pouco mais de crescimento.
A verdade é que a política econômica do governo foi 90% de ideologia e 10% de má teoria econômica. |
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