| 20 de setembro, 2002 - Publicado às 15h35 GMT |
| Economia do Brasil tem salvação, diz Jeffrey Sachs |
 Mercado no Brasil continua muito instável
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Silvia Salek, enviada especial a Nova York
O economista americano Jeffrey Sachs, que recentemente transferiu-se da Universidade de Harvard para a Universidade de Columbia, acredita que a economia brasileira está numa situação melhor do que o mercado financeiro sinaliza.
"O Brasil tem muitos problemas e desafios, mas não é um país falido que precise decretar uma moratória", afirmou Sachs, em entrevista exclusiva à BBC Brasil. "A situação é frágil, mas tem salvação."
Mas Sachs acredita que o risco de uma moratória ainda existe, não por causa do estado da economia, mas devido ao pânico que tomou conta recentemente do mercado financeiro.
Para ele, o futuro do Brasil depende "cem vezes mais" do próximo presidente do que do FMI. Leia a seguir a entrevista concedida à BBC Brasil.
BBC Brasil - Desde os atentados de 11 de setembro, a política externa americana para a América Latina mudou. O sr. acha que a falta de interesse dos Estados Unidos na crise argentina é reflexo disso?
Jeffrey Sachs - Eu não acho que exista uma explicação racional para isso. A política externa dos Estados Unidos tem sido muito incoerente. Eu acho sim que a receita que tem vindo de Washington é mal elaborada, mas acho também que o governo argentino fez um trabalho muito ruim. E a postura do FMI, de insisir no corte de gastos, em meio àquele colapso econômico, só piorou as coisas.
BBC Brasil - Por que o Brasil teve um tratamento diferente e recebeu apoio do FMI?
Sachs - Quando a Argentina comecou a afundar e acabou a trazendo o risco Brasil para a berlinda, os Estados Unidos sentiram que deveriam fazer algo para frear essa tendência pelo menos até as eleições. O risco de que o Brasil entrasse em colapso e estivesse caminhando para o abismo aumentou muito, e eu fico satisfeito que eles tenham tomado essa decisão.
BBC Brasil - Será que o empréstimo do FMI será suficiente para tirar o Brasil do caminho do abismo ao qual o sr. se referiu?
Sachs - O acordo com o FMI provavelmente vai ajudar o Brasil a, pelo menos, a atravessar as eleições sem uma crise mais séria. Mas o FMI nunca salvou ninguém, temos que admitir isso. As receitas do FMI são muito simplistas e apontam para o lado errado na minha opinião. Somente os próprios países podem se salvar e, para isso, o próximo presidente terá que ser responsável e coerente em sua estratégia. No fim das contas, isso vai depender cem vezes mais do próximo presidente do que do FMI.
BBC Brasil - Esse último acordo acabou exigindo do Brasil um superávit no orçamento maior do que se esperava. Isso será bom para o Brasil?
Sachs - Se você segue a receita do FMI cegamente, corre o risco de acabar num abismo como outros países acabaram. O que quero dizer é que, algumas vezes, isso significa não obedecer totalmente ao que o FMI. Às vezes, é melhor tentar renegociar o que o FMI exige. Basta olhar para a vizinha Argentina para ver o que acontece. As políticas do FMI não faziam sentido, o diagnóstico do problema era ruim, os remédios não eram bons. A postura do FMI com a Argentina nunca fez sentido na minha opinião.
BBC Brasil - Algumas agências estão prevendo um risco maior de moratória para o Brasil depois das eleições. O sr. vê algum risco de isso acontecer no ano que vem?
Sachs - Existe um risco, porque os mercados financeiros estão muito instáveis. Se os credores, as agências de classificação e o FMI, juntos, concluírem que o Brasil é um lugar extremamente perigoso vão conseguir provocar um pânico que vai acabar impedindo que o governo role a dívida. E a moratória aconteceria como uma profecia auto-alimentada.
BBC Brasil – Mas não podemos dizer que a economia brasileira está tão bem assim. Afinal, ninguém conseguiria criar esse pânico todo se tudo estivesse realmente bem...
Sachs – Estou dizendo que a economia brasileira não é perfeita, mas não está tão ruim assim. A situação nao é terrível, mas o pior pode acontecer se as pessoas entrarem em pânico e acabarem criando as condições para isso acontecer. Muitas crises recentes, da crise asiática até esse nervosismo no Brasil hoje, têm um elemento de auto-alimentacao.
Temos uma passagem emblemática na nossa história, quando Franklin Roosevelt foi eleito presidente em meio à Grande Depressão, em 1933. Ele disse uma frase que acabou se transformando na mais famosa daquele período: a única coisa que temos que temer é o medo em si. As pessaos ficaram tão felizes em ouvir essa observação tão sensata de que era o medo e não uma fraqueza fundamental que era o verdadeiro problema. O Brasil tem muitos problemas e desafios, mas não é um país falido que precise decretar uma moratória.
BBC Brasil - Qual é o principal desafio do Brasil então?
Sachs - O Brasil precisa botar na cabeça que tem que ir atrás do mercado internacional sendo competitivo. O Brasil olhou muito para dentro na sua história econômica recente. Somente em 1999, com a desvalorização do real, que os empresários brasileiros se deram conta de que estavam produzindo apenas para o mercado interno, e esse foi o grande erro do Brasil.
Enquanto a China estava numa fase de boom, conquistando mercados que o Brasil poderia ter, as principais autoridades brasileiras ficava dizendo: "O Brasil não precisa competir, temos um mercado interno tão grande". Esse foi o maior erro. O Brasil tem uma base industrial forte que precisa ir atrás de mercados no mundo inteiro, que precisa competir com a China, Europa, entrar no mercado americano. Essa é a principal chave para o desenvolvimento do Brasil.
BBC Brasil - O discurso oficial mudou e está agora em sintonia com o que você diz. O Brasil está no caminho certo?
Sachs - Muitas coisas precisam ser feitas. Eu gostaria de ver mais investimentos em ciência e tecnologia no Brasil, mais ênfase no desenvolvimento tecnológico, em setores de alta tecnologia, em educação universitária. O que eu estou tentando deixar claro é que as preocupações têm que ser, pelo menos, de médio prazo. Não podem ser apenas preocupações imediatistas, como as do FMI e as da Standard & Poors por exemplo.
O Brasil precisa de uma economia orientada para a exportação, baseada em produtos de maior tecnologia. Tem que ser responsável na política fiscal, mas não pode deixar a economia ir para o buraco só cortando gastos e aumentando impostos.
BBC Brasil - O sr. está fazendo uma crítica à forma como o atual governo comandou a economia até recentemente?
Sachs - Os últimos anos foram difíceis para todos os países em desenvolvimento. Mas o Brasil demorou demais para desvalorizar o real por exemplo. Falei por anos seguidos, desde 1995, para o Brasil não esperar por uma crise, para manter a taxa de câmbio competitiva porque, no fim das contas, as exportações
vão segurar a barra.
Mas o governo brasileiro tinha uma visão diferente, quis manter a moeda forte. Foi uma decisão errada, a moeda entrou em colapso, veio a crise. Em 2000 e 2001, as coisas começaram a mudar. Em 2003 pode voltar a ser um ano de crescimento. O novo presidente pode entrar num cenário positivo e se concentrar em um plano de médio prazo em que, basicamente, haveria criação de empregos no setor exportador. Mas para isso é preciso se preocupar em manter uma taxa de câmbio realista.
BBC Brasil – O sr. fala da importância do próximo presidente. Se fosse brasileiro, votaria em quem?
Sachs - Qualquer um que tivesse um plano responsável para os próximos anos. Isso significa para mim entender que o Brasil tem potencial para ser uma grande força na economia mundial. Não pode ser uma
pessoa que afaste o Brasil da economia mundial. O candidato não pode fazer provocações de nenhum tipo,
que só pioram as coisas.
BBC Brasil - Mas o que o sr. acha do temor que a esquerda causa em alguns investidores por exemplo?
Sachs - É importante que todos os candidatos falem sobre suas visões econômicas com muita clareza para que os eleitores possam julgar com sensatez. Mas posso dizer que todos os candidatos me parecem ter o potencial de controlar a economia com responsabilidade. A situacao é frágil, mas tem salvação. Isso não requer uma obediência cega às regras do FMI. Basta olhar para a Argentina para ver o que aconteceu quando se pensava apenas em cortar gastos em um período de crise.
BBC Brasil - O ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, disse recentemente que o país estaria entrando em um caminho de recuperação e que haveria uma elevação do PIB neste segundo semestre. O sr. acredita nisso?
Sachs - A economia afundou demais. Quando chega ao fundo do poco, pode subir um pouco, mas pode ser uma recuperação puramente numérica. Não vejo nenhuma recuperação no padrão de vida da população ou no mercado de trabalho. É possível mesmo que eles já tenham atingido o fundo do poço, mas para que eles saiam do fundo do poço, é preciso uma estratégia. Isso eu ainda nao vi.
BBC Brasil - Que estratégia funcionaria na sua opinião?
Sachs - O sistema bancário precisa voltar a funcionar bem, e a confiança da moeda precisa ser restabelecida. Não vi o governo fazer nada para isso, e as receitas do FMI também não ajudam em nada.
BBC Brasil – O sr. ainda acredita que a dolarização seja o melhor caminho como dizia antes?
Sachs – Sim. Ainda é o melhor caminho para a Argentina. Não há nenhum povo no mundo que desconfie mais da moeda nacional do que o argentino. Não há nenhum país do mundo que desconfie mais do sistema bancário do que a Argentina. Você tem uma crise de confiança tão profunda que é preciso alguma garantia de que a nova moeda será estável.
Com um outro peso, não vai funcionar. Estamos falando de um país que pulverizou mais moedas do que qualquer outro país no mundo. Depois de dez anos de promessas de que eles não iriam nunca desvalorizar de novo, fizeram exatamente isso. O povo argentino está exausto, não confia no governo, não confia nos políticos, não confia no FMI. Por isso eu proponho a dolarização como uma medida extrema, mas talvez sensata. Não é ideal, mas pelo menos o dólar é algo em que os argentinos acreditam.
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