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14 de abril, 2002 - Publicado às 15h37 GMT
Números comprovam que crise argentina afeta Mercosul
A crise argentina já extrapolou as fronteiras do país
A crise argentina já extrapolou as fronteiras do país

Marcia Carmo, de Buenos Aires

A recessão argentina está afetando diretamente a economia dos sócios do Mercosul - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

No Brasil, o setor exportador é o que mais está sentindo os efeitos da crise. Os exportadores estão em busca de novos mercados e a Argentina já não é mais o primeiro destino das exportações brasileiras.

Agora, o vizinho ocupa o quarto lugar nesta lista, atrás dos Estados Unidos, Japão e Holanda.

Graças à crise agentina, o Uruguai também perdeu seu título de investment Grade – ou seja, de país seguro para investidores. Agora, os uruguaios tentam acelerar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos e descolar sua imagem da Argentina.

O Paraguai, que vinha aumentando suas vendas para a Argentina, também perde espaço neste mercado.

Recessão

A Argentina está no seu quarto ano de recessão, fato que reduziu o poder de compra dos argentinos e, conseqüentemente, as importações feitas pelo país.

Com a desvalorização do peso, que hoje vale menos que o real e que o peso uruguaio, também passou a ser caro para a Argentina comprar dos países vizinhos.

"A Argentina é um país de indústria sucateada. Um país que vivia dos importados e que agora vai demorar para voltar a ter seus próprios produtos", afirmou um diplomata brasileiro.

"Porém, enquanto as coisas não melhoram, eles vivem com o que o país tem a oferecer."

Ouvido pela BBC Brasil, o especialista em Mercosul Jorge Campbell, ex-secretário de relações internacionais do governo Menem, observou que o problema não é do bloco comercial, mas a Argentina.

"A crise argentina mostrou, no entanto, o amadurecimento do bloco. A Argentina recebeu apoio político dos seus sócios, especialmente do Brasil. Além disso, não houve o tão temido contágio financeiro da Argentina no Brasil", diz ele

Quando perguntado se a crise não afeta a imagem do bloco junto aos investidores estrangeiros, ele respondeu: "o Mercosul não corre perigo. O problema está na Argentina. Os investidores deixam de investir aqui e talvez prefiram o Brasil, onde, hoje, se sentem mais seguros."

Segundo dados do Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos) e do Centro de Estudos Bonaerenses (CEB), em março, as vendas do Brasil para a Argentina caíram 71,5% em relação ao mesmo mês do ano passado.

"No mês passado, o Brasil vendeu ao nosso país um total de US$ 151 milhões. Em março do ano passado, as compras argentinas do Brasil foram de US$ 530 milhões", disse o economista Dante Sica, presidente do CEB.

"Os dados de março da balança comercial entre o Brasil e a Argentina também servem para confirmar que a desvalorização do peso ainda não gerou melhorias nas exportações argentinas."

Queda nas exportações

De acordo com dados do CEB, apesar do fim da conversibilidade, que manteve o peso atrelado ao dólar durante quase 11 anos, as exportações argentinas para o Brasil também caíram.

A queda registrada foi de 27,6%, em relação ao mesmo mês do ano passado.

Em março de 2002, a Argentina vendeu produtos no valor de US$ 419 milhões para o Brasil.

No ano anterior, durante aquele mesmo mês, as vendas foram de US$ 579 milhões.

"A desvalorização Argentina é muito diferente da brasileira. Aqui, estamos em recessão, temos um corralito financeiro (congelamento parcial dos depósitos) e a expectativa de uma ajuda, ou não, do FMI", avaliou o economista Carlos Arbía, da consultora Exante.

"Além disso, a diferença também está na situação política. Quando o Brasil desvalorizou também não tinha seus preços atrelados ao dólar", completou o analista Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Mayoria.

Brasil x Argentina

Apesar destes últimos resultados de março, o saldo da balança Comercial dos dois principais sócios do Mercosul – Brasil e Argentina – continua favorável à Argentina.

Entre janeiro e março deste ano, a Argentina acumulou um saldo favorável de US$ 300 milhões.

No mesmo período do ano passado, antes da desvalorização do peso, este valor era de US$ 170,6 milhões.

Mas nestes tempos de crise argentina, o Uruguai tem sido o mais prejudicado na balança comercial do bloco.

E não só por questões comerciais, mas também financeiras.

"No caso do Uruguai, diferente do Brasil, houve contágio financeiro", admitiu um diplomata uruguaio.

Isso aconteceu porque muitos argentinos levaram o seu dinheiro para o setor bancário do Uruguai, pouco antes da criação do corralito, de autoria do ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo.

País de 3,5 milhões de habitantes, com o melhor nível de vida Da região, o Uruguai tem uma economia umbilicalmente vinculada à Argentina.

Nesta relação, o Uruguai é favorecido especialmente pelo turismo dos argentinos – Punta del Este, entre outros locais - e pelos depósitos bancários dos argentinos que se sentem (ou se sentiam) seguros naquele paraíso fiscal.

O Uruguai exporta lácteos, arroz, couro e carne. Mas não tem escala, observou o diplomata brasileiro, para atender a grandes mercados.

Paraguai

Já o Paraguai, país de quase seis milhões de habitantes, envia para a Argentina, por exemplo, a erva mate
usada no chimarrão.

No ano passado, o Paraguai vendeu US$ 303 milhões em produtos para a Argentina.

O Uruguai vendeu um pouco mais, US$ 338 milhões - mas perde cada vez mais terreno neste mercado vizinho.

E o Brasil, US$ 5.277,66 bilhões em sapatos e frango, insumos, entre tantos outros.

Em janeiro deste ano, o Paraguai já superou o Uruguai em relação a todos os anos anteriores.

Exportou US$ 16,5 milhões em produtos para a Argentina. E o Uruguai US$ 10,6 milhões.

Na opinião de diferentes especialistas, a tendência é que os empresários brasileiros continuem buscando novos mercados e que o mesmo acabe sendo feito pelos uruguaios e paraguaios, enquanto a economia argentina não voltar a dar sinais de reativação.
 
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