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 Você está em: Economia
22 de novembro, 2001 - Publicado às 21h20 GMT
'Perda de soberania imposta pela moeda única é benéfica'
Euro trará benefícios no médio prazo, garante economista
Euro trará benefícios no médio prazo, garante economista

Na opinião do economista holandês Willem H. Buiter a perda de soberania vale a pena, pois no médio prazo, o país que adotar o euro terá uma estrutura mais estável e forte, capaz de lidar com as oscilações econômicas.


Willem Buiter também é professor da London School of Economics
Willem Buiter é economista-chefe e principal conselheiro da presidência do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento. Em 1997, ele foi membro do Comitê de Política Monetária do Bank of England, o banco central da Grã-Bretanha.

Em entrevista à BBC Brasil, Willem Buiter falou sobre as implicações da adoção do euro e disse que o Mercosul ainda não está preparado para adotar uma moeda única.


BBC- Quais são as maiores vantagens do euro?

Willem Buiter - As maiores vantagens para os 12 países que participam é que agora eles fazem parte da maior área de estabilidade cambial do mundo. Agora podem usufruir os benefícios desta integração financeira sem ameaça da volatilidade das taxas cambiais que desestabiliza os negócios.

BBC - Na sua opinião as enormes diferenças entre as economias dos diferentes países europeus poderão dificultar a determinação de uma politíca monetária única?

Willem Buiter - Na verdade, não. Só será um problema se acreditarmos que os países podem melhorar o ciclo econômico através de uma taxa cambial flexível e com controle sobre a taxa de juros. Essa teoria que acredita que a política monetária pode melhorar a economia é a meu ver uma ilusão.

BBC - Até que ponto um país perde a soberania ao adotar a moeda única?

Willem Buiter - Inevitavelmente a adoção de uma moeda única envolve a entrega de soberania nacional ao centro. No caso do euro, ao Banco Central Europeu. Não é só um ato técnico e politico mas também um ato constitucional. Por isso, sim, existe uma perda de soberania nacional em relação ao instrumento monetário. Afinal esse instrumento faz parte do arsenal do Estado para a extração de rendimento e ativação da economia. Eu acho que este preço vale a pena pagar, porque numa pequena economia aberta, como é a da Grã Bretanha, por exemplo, uma moeda nacional independente é um luxo que custa caro. Tem-se mais a aparência de soberania do que a própria substancia, num mundo onde a capacidade de controlar a taxa cambial, controlar efetivamente a atividade econômica é de fato muito limitada. Acredito que esta perda de soberania vale a pena para se ter uma estrutura mais estável e forte, capaz de lidar com oscilações econômicas e estabilizar a economia a médio e longo prazos.

BBC - Como duas nações muito diferentes economicamente, como Alemanha e Irlanda, podem aplicar com sucesso a mesma política monetária?

A pergunta presume que uma política monetária nacional, distinta, poderia ter resultados positivos. Não se pode fazer muito sem atacar diretamente as estruturas, a falta de flexibilidade que provoca situações como o desemprego. Não se deve superestimar o valor da política monetária. Isso é um erro comum. As oscilações da taxa cambial podem destruir planos empresariais. A vida dos empresários já é bastante difícil e taxas cambiais flutuantes não ajudam em nada.

BBC- Que resposta o senhor daria aos críticos que dizem que nunca houve uma união monetária que durasse?

Willem Buiter - Creio que nesse caso não se deve usar a história para defender uma idéia política. As uniões monetárias não podem sobreviver sem integração política, isso é uma condição chave. Ela envolve uma transferência de soberania a um corpo supra-nacional, mas também presupõe várias instituições políticas supra-nacionais sérias que agregam os diferentes elementos da união. É por isso que eu acho que uma união monetária como por exemplo com o Canadá e os EUA ou com o México, não pode funcionar, porque não existem instituições transnacionais válidas nem estruturas que unam esses países. Na UE o grau de intergração politica ainda é pequeno, ainda não é federal, mas já existem instituições como o Parlamento Europeu, a Comissão Européia, o Conselho de Ministros e o Tribunal Europeu, que permitem sua existência e sobrevivência. E issso é um grande contraste entre as antigas uniões monetárias como a escandinava e a latina (romana). Portanto, minha resposta seria: Cuidem da política que a economia caminhará por si só.

BBC - Que considerações o senhor teria a fazer sobre uma possivel moeda única para o Mercosul?

Willem Buiter - As mesmas que fiz antes. Só se pode ter uma união monetária com um mínimo grau de união política. Esse grau não existe entre o Brasil e a Argentina, por isso qualquer noção sobre uma moeda única não tem nenhum fundamento. Esses países têm que aprender a administrar suas moedas de uma maneira mais responsável. Precisam criar instituições que possam garantir a estabilidade de preços, e para conseguir isso têm que conseguir manter um equilíbiro político doméstico, uma coalizão que deixe bem claro que o orçamento não vai entrar em descontrole. É um esforço conjunto de consolidar e construir instituições políticas, fiscais e orçamentárias. E não é uma uma moeda única apenas aparente que vai permitir que estes países, ou qualquer país, se livrem do ponto fundamental, que é ter uma política fiscal/orçamentária ordenada.

BBC - Então quer dizer que ainda falta muito tempo para que o Mercosul possa ter uma moeda única?

São casos distintos para a Argentina e para o Brasil. A Argentina conseguiu eliminar a hiperinflação há 10 anos com algum sucesso, mas nestes 4, 5 anos estagnou, entrando numa recessão a longo prazo e existem sérias dúvidas nos mercados sobre a sustentabilidade da sua posição em relação à dívida e à taxa cambial. Esse é um problema que tem que ser resolvido, está sendo resolvido neste momento, mas é uma solução que a curto prazo é muito dificil. Já o Brasil não tem os mesmos problemas da taxa cambial, nem o problema de uma dívida externa como a Argentina. Mas o Brasil também não dispõe de uma política fiscal eficiente a médio e longo prazo. Ambos os países têm que conseguir estabelecer uma coalizão política que possa apoiar uma poliítica fiscal responsável a longo prazo. Isto vai requerer que tanto Brasil como Argentina ataquem, entre outros, os problemas da relação entre o governo central e as regiões, o que não é fácil. Há 10 anos tentam fazer isso, sem sucesso. Estes países têm que trabalhar sobre os pontos fundamentais de política fiscal e orçamentária. O regime da taxa cambial não devia intervir nesse esforço, não faz parte da solução. O tema da taxa cambial deixa de ser um problema quando os pontos fundamentais da política orçamentária são resolvidos.

BBC - Após seu lançamento como moeda escritural, em 1999, o euro perdeu valor em relação ao dólar. O que o senhor acha que pode ocorrer em janeiro?

Willem Buiter - É verdade que o euro perdeu parte do seu valor, mas é preciso ver que agora já está estável há bastante tempo. E acredito que é provável que se equipare ao dólar e ao iene. Mas prever cotações é um jogo impossível, e muitos economistas já perderam suas reputações tentando fazer previsões. Não podemos saber, nem quero tentar advinhar.
 
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