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23 de junho, 2000 Publicado às 23h00 GMT

 
Brasil é cortado por duas rotas de tráfico

Iain Bruce, repórter especial da BBC

O Brasil passou a desempenhar um papel mais importante no narcotráfico internacional na década de 90.

A droga produzida nos países andinos começou a ser exportada para os Estados Unidos e para a Europa através do país.

Essa foi uma saída natural, uma tentativa de fugir da vigilância nas rotas tradicionais.

Hoje, a droga ainda é levada aos grandes centros de consumo através do México e do Caribe, mas há rotas já consolidadas que incluem o Brasil.

Pasta de coca

Na década de 80, e até meados dos 90, a folha de coca era cultivada e transformada em pasta-base principalmente na Bolívia e no Peru.

De lá, a pasta-base era levada até a Colômbia, para ser processada e transformada em em cloridrato de cocaína, HCI, a cocaína pura.

Daí, então, a coca era levada, via Caribe, e depois via México, para os grandes mercados: Estados Unidos e Europa.

Pistas de pouso

A rota Peru-Colômbia era muito vigiada.

O Peru e os Estados Unidos assinaram um acordo permitindo que pequenos aviões, que estariam transportando a droga, fossem abatidos no ar.

Para fugir desta vigilância, os aviões passaram a usar o espaço aéreo brasileiro.

A pasta de coca era transportada também, num volume menor, pelos rios da Amazônia brasileira.

Os aviões usados pelo tráfico não tinham grande autonomia de vôo.

Daí a necessidade de se construírem pistas de pouso clandestinas na mata.

Repressão

Na segunda metade da década de 90, com o aumento à repressão ao cultivo no Peru e Bolívia, a produção foi deslocada.

A Colômbia passou a controlar todo o processo: do plantio ao refino.

Nessa mesma época, o controle do narcotráfico na Colômbia estava se descentralizando, depois do desmantelamento dos cartéis de Medellín e Cali.

O papel do Brasil no narcotráfico mudou. O Brasil passou a ser rota de transporte da droga para a Europa.

A Polícia Federal diz que não é possível fazer uma avaliação precisa do volume de droga que passa pelo Brasil.

Sabe-se que as rotas mais importantes de exportação para o norte ainda passam pelo México e pelo Caribe.

Mas, há dois anos, investigadores europeus disseram que cerca de 8% de toda a cocaína dos países andinos já passava pelo território brasileiro.

Esses países são responsáveis por 80% da produção mundial.

Rotas

Há duas rotas principais no Brasil.

A parte que vai para o consumo interno nas grandes cidades do centro-sul, em geral cocaína de baixa qualidade, vem principalmente da Bolívia e do Paraguai, via Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Uma parte da cocaína que vai para Europa e Estados Unidos também passaria por essa rota, saindo pelos principais portos do país, como Santos e Rio.

Mas esse volume não é muito significativo.

A outra rota, pelo norte da Amazônia, abasteceria principalmente a Europa, e talvez em parte os Estados Unidos.

A droga é transportada por rio e em pequenos aeronaves.

Suriname

Uma das conexões mais importantes seria via Suriname - ex-colônia holandesa - e, de lá, até Roterdã, na Holanda.

A próxima fase, sobre as quais ainda não há provas muito claras, é a transferência dos laboratórios de refino da pasta de cocaína para a Amazônia brasileira.

Esses laboratórios estariam na região de Manaus e Belém, mais uma vez fugindo da repressão à produção da cocaína na Colômbia.

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