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03 de julho, 2000 Publicado às 13h00 GMT

 
Rio é apenas ramal secundário do narcotráfico

Os moradores do Jacarezinho têm relação de dependência com os traficantes

Iain Bruce, no Rio de Janeiro

No grande esquema internacional do narcotráfico, o Rio de Janeiro é a parada final de um ramal secundário.

É o ponto de venda da cocaína de baixa qualidade - a "batizada" - que sai da Bolívia.

"A droga é jogada aqui pelo intermediário, e ele não quer saber o que vão fazer com ela", diz o delegado licenciado Vinícius Jorge, da Polícia Civil.

O delegado licenciado trabalha atualmente como deputado estadual do PT no Rio.

Os "donos" do morro são varejistas, o que a polícia chama de traficantes de terceiro nível, sem conhecimento do tráfico em grande escala.

Crime sem organização

"Fala-se de crime organizado. Não existe organização nenhuma. O cara da favela, ele não sabe lavar dinheiro, não sabe como funciona o mercado financeiro."

Na avaliação do delegado, o traficante Fernandinho Beira-mar não é o grande traficante mostrado pela imprensa.

Teria apenas começado a penetrar no segundo nível, o dos intermediários.

São muito poucos os casos de pessoas no nível dos intermediários que a justiça consegue punir.

Acima deles, no primeiro nível, estão os grandes produtores das drogas, os financiadores e lavadores de dinheiro.

Segundo o delegado Vinícius Jorge, nunca foi pego ninguém no Brasil do chamado primeiro nível do narcotráfico.

Favelas

O tráfico controla quase todas as 600 favelas da cidade do Rio de Janeiro. A ocupação dos morros pelo tráfico aconteceu durante a década de 80.

Contribuiu para isso uma série de circunstâncias: o afrouxamento relativo da presença policial nos primeiros anos de governo civil; a decadência econômica da chamada "década perdida", que aumentou a oferta de mão-de-obra barata e levou a cortes cada mais severos nos poucos serviços públicos que existiam nas favelas; e o crescimento do tráfico de drogas nos países andinos.

Na década de 80, os cartéis colombianos de Medellín e Cali consolidaram o seu monopólio nos mercados ricos do hemisfério norte.

Já produtores de menor porte, na Bolívia, por exemplo, buscaram mercados regionais onde poderiam escoar o seu produto, de qualidade inferior. Mercados como os do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O Rio de Janeiro foi usado também como base para a venda de drogas para outros países. Mas, segundo a Polícia Federal, o volume nunca foi muito significativo. O grosso do tráfico no Rio se destina ao consumo interno.

História pessoal

A história de Nélson, irmão mais novo do "dono" de um dos morros, não é muito diferente da de muitos jovens nas favelas cariocas.

Nélson (ele prefere omitir o nome verdadeiro) diz que sempre procurou não se envolver com o trafico. Mas seu irmão mais novo é o "dono" de um dos morros no Rio de Janeiro.

A irmã, que toma conta do dinheiro, é o braço-direito do irmão traficante. Estão em guerra com dois morros vizinhos, que querem tomar conta do ponto deles.

Uma vez, lembra Nélson, um colega dele foi acusado pelo irmão de estar trabalhando com os outros, com os inimigos.

O irmão queria matar o "traidor".

Nélson insistiu na defesa do colega e conseguiu convencer o irmão a desistir da execução.

Duas semanas depois, de volta ao morro, Nélson descobriu que o seu colega tinha voltado e matado dois integrantes do grupo do irmão. Desta vez, o irmão insistiu.

Nélson teria que acompanhá-los na caravana que fariam para ir matar o "traidor". E assim foi feito.

Nélson diz que morre muita gente justamente em conflitos, em "guerras" pelo controle dos pontos de vendas de outros traficantes.

Dentro do próprio morro, é diferente.

"A gente da comunidade jamais vai ter medo do traficante. Como eles dependem da gente, a gente depende deles", diz Nélson.

Ambigüidade

A presença do narcotráfico nas favelas é ambígua: há a violência, a intimidação, o envolvimento de adolescentes no tráfico, mas também existe um lado assistencialista.

A favela Jacarezinho, na zona norte do Rio, é um exemplo de como o tráfico se instalou nas áreas mais pobres da cidade.

O Jacarezinho é uma das maiores favelas da América do Sul. O tráfico tem uma presença importante e controla a favela.

Dona Irene, de 64 anos, se lembra da ajuda que recebeu quando a sua casa sofreu na enchente de março passado.

"As autoridades não deram nada. Só o pessoal da comunidade que deu roupa e um colchonete."

Rumba Gabriel, presidente da Associação de Moradores do Jacarezinho, explica mais tarde que a "comunidade", no caso, foram os traficantes.

Outra moradora da favela, Michele, de 23 anos, diz que quase todos seus amigos estão "no mundo", como se refere ao narcotráfico.

E são eles mesmos que organizam a distribuição de cestas básicas às famílias mais necessitadas. Até a mãe de Michele ajuda a distribuir, segundo a garota.

"Natural"

Rumba Gabriel tenta explicar.

"É uma coisa normal. Antes de ser traficante, ele é morador da comunidade. É filho de alguém, vizinho de alguém. Outros grandes bandidos já fizeram isso: Cara de Cavalo, Mineirinho, que assaltava caminhões de leite e distribuía na favela."

O advogado do Centro Cultural de Jacarezinho, Dr. Sérgio, elabora mais a explicação.

"O Robin Hood da favela só existe porque houve omissão do poder público. A fome não tem moral."

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