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Eu, psicopata

Atualizado em  17 de junho, 2011 - 05:04 (Brasília) 08:04 GMT
Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Jon Ronson é um jornalista e escritor que só se pode classificar de “figurinha difícil”. Ele vai onde os outros de sua profissão não vão. Bizarro, idiossincrático, suas pautas, suas agendas, o que lhe interessa, enfim, é aquilo para o qual a maior parte de seus colegas profissionais não dá pelota.

Jon Ronson, de 44 anos, dá bola. E muita. Tem vários livros e documentários de televisão na bagagem profissional. Um virou até filme que vocês devem conhecer. É aquele Os homens que encaravam cabras, com o George Clooney tentando fazer humor e mantendo a um mínimo suas boquinhas e seus olhos úmidos enternecidos viradinhos para nós e a câmera.

Jon Ronson publicou este ano um livro que deu bastante o que falar. Seu título que aqui traduzo (e recomendo uma tradução decente no Brasil) é O Teste do Psicopata. Vamos deixar claro, antes de mais nada, que não se trata de um teste para os psicopatas responderem, mas, se quiserem, nada os impede, aliás nada deve impedir ou ficar no caminho de um psicopata na acepção rigorosa do termo.

Jon Ronson ouviu um galo diferente cantar: que os psicopatas não são bem aquilo que os livros, filmes e séries policiais de TV nos ensinaram. Na verdade, e esse o argumento central de seu livro, os psicopatas são os verdadeiros donos do mundo em que vivemos. Sem matar ou esfolar.

Ele enfileira dados fascinantes (Ronson bate perna para completar seus escritos). Apenas um por cento da população mundial é composta de psicopatas (ou ao menos com tendências psicopatas) tal como a gente aprendeu no colégio. E esse, em geral, é um professor de matemática, feito desses de filme sueco dos anos 50.

Quarenta e cinco por cento dos psicopatas são líderes nos mundos dos negócios e da política. A psicopatia, argumenta Ronson, e vai adiantando dados, moldou, molda e continuará moldando o mundo que vivemos. Os psicopatas de cartola e casaca, digamos assim. Nada a ver com Hitler ou Jack o Estripador. Aquele camaradinha que está nas colunas sociais e nas páginas ditas nobres dos órgãos de comunicação.

Jon Ronson narra como, por volta dos anos 60, um jovem psiquiatra canadense, Elliott Barker, chegou à conclusão de que tinha matado a charada da psicopatia. Depois de visitar algumas dezenas de clinicas terapêuticas pelo mundo inteiro, Barker “deduziu” que a maior parte das pessoas oculta sua considerável camada psicopata sob um aspecto exterior da maior naturalidade, ou, se preferirmos, no máximo com uma neurazinha, que essas todos nós a temos.

Um pesquisador forneceu material precioso para o preciosista Jon Ronson: o pesquisador Robert Hare, autor de um questionário que objetiva dar nosso índice de psicopatia. Sim, parece coisa de revista ou suplemento de jornal, mas a coisa é séria e levada a sério por quem é do ramo. Passando os olhos no tal questionário, sem ter nada de melhor a fazer, coisa comum para mim, fui botando um “x” nos quesitos enumerados.

Não entrarei em muitos detalhes, para não devassar minha intimidade nem assustar aquelas pobres almas que ainda me toleram por uma ou duas horas por semana. Vou logo esclarecendo que a psicopatia, em seus dois conceitos, não tem solução. É pastar com o resto do rebanho ou dar um tiro (no bom sentido) na praça mais que pública da política e dos negócios.

São 20 as perguntas do questionário. Dou uma pala de apenas qualquer coisa como lá pela metade das questões que respondi no afirmativo. O teste quer saber se eu sou metido a besta. Sim, senhor, sou sim, e já fui mais. Sim de novo, também achava que eu tinha um certo charme, que o teste, safado, insiste em chamar de “superficial” (superficial é os tinfas, “seu” teste).

E, na corrida, alinhavo outras perguntas que eu, como bom psicopata que sou respondi sem mentir (sabiam que o psicopata de Robert Hare não mente? Acredita piamente em tudo que diz): é, o tédio me faz companhia constante; sim, preciso muito de ser estimulado; não posso negar que a verdade, total, nunca foi de minha intimidade, eu costumava “exagerar” um pouquinho, digamos assim; batata, sou brutal em minhas respostas: difícil eu me sentir culpado de uma coisa ou ter remorsos de outra, culpo sempre quem estiver mais à mão dando sopa; sempre fui impulsivo; e prossigo: a irresponsabilidade foi minha companheira fiel durante décadas, uma espécie de violão de estimação; mais: nunca assumi responsabilidade pelos meus atos, não importa sua natureza, pois não sou trouxa.

Pronto. Sinto-me despido. Mas meio em paz comigo mesmo, que já não era sem tempo. Posso não ter matado ninguém nem ter enriquecido ou sido eleito deputado (o que dá na mesma, confere?), mas a confissão me lava a alma, corta meu cabelo, as unhas das mãos e dos pés. Eu também, irmãos, como quase todos nós, sou um psicopata.

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