Histórias escolhidas a dedo

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

Quando o ônibus espacial Atlantis decolou, em novembro passado, o comandante Jeff Williams levava com ele um globo de plástico. Diante de uma câmera, contemplando pela janela, rodou nosso planetinha e parou, assim com o dedo a esmo, em cima de uma cidade.

Um repórter e um cinegrafista da rede CBS partiram para lá. A primeira cidade foi na Índia, Rewari, ao sul de Nova Déli, nordestinamente pobre, com um milhão de habitantes.

Diante de várias testemunhas numa praça, ele, o repórter, pegava um guia telefônico da cidade, abria numa página qualquer, e punha o dedo embaixo de um nome. E saía em busca. O repórter contou que na cidade nunca tinham visto um americano e o personagem "dedado" no guia "jamais veria um": era cego.

O senhor Kushirani era professor mas ficou cego aos 20 anos por alguma doença nunca bem diagnosticada. Hoje, aos 78, ele ganha quatro dólares por dia moendo trigo.

Com poucos dentes na frente, não tem muito a dizer, mas a vida em volta dele conta uma rica história.

Na casa, grande e limpa, vivem 13 parentes de quatro gerações. O filho mais velho tem uma pequena construtora, outro tem uma lanchonete. O ambiente é de prosperidade e o inusitado é a conta bancaria: só uma para todos os parentes. Quem precisa, pede e recebe. Prosperidade com atrito zero, uma lição de comunismo doméstico bem sucedido e intransplantável, que começou com um casamento harmonioso e já dura 57 anos.

A segunda dedada do astronauta levou a equipe para Liejapa na Letônia, antiga União Soviética. Com outra dedada no guia telefônico a equipe chegou à academia de ginástica de Mr. Sveldukus, um homem bonito de 50 anos, olhos azuis, corpo de Arnold Schwarzenegger nos bons tempos.

Quando criança, o letão teve uma hepatite grave e ficou raquítico. Era criança deboche. Um dia assistiu ao filme Hércules, com Steve Reeves, e descobriu um modelo.

No comunismo as academias de beleza e o fortalecimento corporal eram símbolos da decadência ocidental. Proibidas e desprezadas. Musculatura, só para fins olímpicos. A cidade, à beira mar, tinha um porto onde o raquítico comprava revistas de musculatura dos marinheiros no mercado negro. Exercitava às escondidas e cresceu, cresceu...

Quando o muro de Berlim caiu, em novembro de 89, o patola "saiu do armário" para as capas de dezenas de revistas europeias. Está superfeliz, próspero e casado com uma mulher mais bonita do que ele.

A última viagem da série levou a equipe à cidade de Mascate, no muçulmano Omã, perto do Iêmen. O guia telefônico levou o repórter judeu e sua câmera à casa de Abdulah Shikaly, que o recebeu com um banquete tradicional e uma história ainda mais saborosa.

Nasceu numa família tão pobre que morava, de graça, em ruínas milenares, sem água nem esgoto, no deserto. Nunca passou um dia na escola nem teve um centavo no bolso antes do primeiro emprego.

Aos 21 anos, foi um dos cinco contratados para trabalhar numa companhia americana de exploração de petróleo. As condições eram tão abomináveis que Abdulah organizou a primeira greve na história do país. E venceu. Melhorou a situação dos empregados e sua capacidade de liderança, em vez de castigada, inteligentemente, foi premiada. Hoje, rico, ele ensina outros engenheiros a procurar petróleo.

Na década de 80, fascinado com as possibilidades das mudanças no Brasil e inspirado numa série de reportagens da CBS chamada On The Road, com Charles Kuralt, eu sugeri ao então diretor de jornalismo da Globo, Alberico Souza Cruz, uma série que se chamaria No Coração do Brasil. Sairia do Amazonas e chegaria ao Rio Grande do Sul, ou vice versa, um carro/casa para fazer reportagens com pessoas, animais, plantas, enfim, com o que fosse interessante em cada cidade.

A ideia do guia telefônico nunca me ocorreu porque nem pensei que haveria guia telefônico na roça. Acho que anos depois o Jornal Nacional fez uma série parecida e muito bem produzida com o Pedro Bial.

A ideia do "encontro às cegas" é ainda mais fascinante neste mundo muito maior criado pela internet. Esta semana, o site revolucionário é o Chatroulette. Você entra, clica e não sabe quem vai encontrar.

Pedi minha colega Angélica, produtora executiva do Conexão, para dar uma olhada e ver se valia a pena colocar no nosso programa Manhattan Connection. O primeiro personagem que ela encontrou foi um homem zarolho de tão afoito, em plena masturbação.

Ele com certeza tinha uma história para contar, mas a Angélica não quis interromper o embalo. Ela foi pra casa com uma boa história para contar pro marido e os amigos no jantar, e eu tenho uma para contar pra vocês na BBC.

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