Viva o pessimismo!

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

No mais fundo da fossa econômica americana nesta grande recessão estão os negros. O número de desempregados é o dobro dos brancos e a renda média deles caiu quase 3% desde 2007, mas o número de otimistas entre eles dobrou nos últimos dois anos (de 20% para 39%).

Você pode ver o número pelo outro lado, 61% continuam negativos, mas a maioria (53%) acha que a vida vai melhorar. Não vamos esmiuçar os números, porque podem ser vistos de vários ângulos, mas o responsável pelo otimismo é, como você sacou, o presidente Obama.


Barbara Ehrenreich, cabeça de esquerda, escritora, jornalista e ensaísta, não vê nenhum motivo para otimismo. Ela é a profeta do pessimismo. E eu, com meu DNA mineiro, carregado de desconfiança, estou com a Barbara.

Ela começou como cientista, brilhou. Formou-se em física, fez doutorado em biologia molecular, mas, filha de um mineiro de cobre, viu na década de 70 um mundo injusto, com Johnson, Nixon , a guerra do Vietnã, pobreza e injustiça. Encasquetou e foi fazer revolução.

Numa das marchas, conheceu seu marido, teve dois filhos, separou, encontrou o segundo, separou, se engajou na carreira de jornalista e escritora. Já publicou vinte livros, quase todos críticos da sociedade americana. Um deles tem o objetivo título This Land is Their Land : Reports from a Divided Nation, outro, o grande sucesso dela, Nickel and Dimed: On ( NOT ) Getting By in America.

Entre um livro e outro, escreveu para a revista Time, e ainda contribui com The Progressive, New York Times , The New Republic, The Atlantic Monthly e várias outras publicações liberais, mas sua carreira foi interrompida em 2001 por um câncer de mama.


Na recuperação aproveitou para escrever Welcome to Cancerland (Bem-vindo à Terra do Câncer ) na revista Harper’s, onde levantou várias questões e críticas sobre a indústria médica americana.

Foi neste período de tratamento do câncer que ela diagnosticou um câncer nos Estados Unidos: o otimismo.

Barbara frequentava grupos de apoio em que a atitude era “sorria ou morra” e a ideologia cultuava o positivo, o otimismo, a boa disposição permanente: “tudo que nos pode fazer mais sadios vai curar nosso câncer”, ela escreveu no novo livro Bright Sided: How Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Sufocado pela Luz: Como a Incansável Promoção do Pensamento Positivo Enfraqueceu a América).

O choque que ela levou não foi no grupo de apoio a cancerosos, mas dos desempregados de “colarinho branco”. Descobriu a mesma arenga da luta contra o câncer, o do despertar e sair da cama com pensamento positivo: ”quem deseja alguma coisa com absoluta convicção acaba conseguindo, porque gente positiva atrai forças positivas".

“Eu via pessoas com graves problemas de câncer e desemprego cair neste conto todo o tempo."


Sempre fui criticado pelo meu pessimismo e pela minha fé na teoria de Murphy (com certeza teve influência de Minas ), que diz que “se pode dar errado, vai dar errado” . É melhor se preparar para o pior. Se vier o melhor, é muito mais fácil se adaptar sem perder a desconfiança.

Esta minha fé mineira foi abalada quando uma amiga íntima, ainda na faixa dos 50 anos, com um câncer inoperável, decidiu cometer suicídio com ajuda dos médicos.

Eu, o marido e meia dúzia de amigos estávamos no quarto, e a disposição dela, já depois de ter tomado os remédios que iriam matá-la, era infinitamente melhor que a nossa. Não tinha religião, mas dava a impressão que ia partir para umas férias maravilhosas. Bye bye para nós, os patetas, que ficávamos neste mundo sujo e mau.

Então, seria melhor uma atitude de profunda depressão, ou positiva, de "viva a morte!"?

A Barbara não esclarece esta dúvida no livro, mas investe contra as megaigrejas e Wall Street. Ela culpa os líderes evangélicos que deram a milhões de pobres a ilusão de que poderiam ser donos de casas caras e de bens materiais. Eles se endividaram até o pescoço embalados por sermões que prometiam mundos e fundos. São vítimas e cúmplices desta grande fossa.


E se na Wall Street, se banqueiros e investidores tivessem sido mais desconfiados e duvidosos, os pobres não teriam conseguido os empréstimos e não teríamos perdido trilhões.

Quem está doente ou desempregado, diz Barbara, "deve sair da cama certo de que há forças contra ele e, apesar de tudo, vai enfrentar a doença e a pobreza e correr atrás de um emprego e da cura com realismo, sem a infantilidade do otimismo”.


Nos últimos meses eu levanto todo dia e penso: a bolsa da China vai furar. E a do Brasil vai junto. Se cuide. Dias piores virão.

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