A Grã-Bretanha não tem (mais) talento

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Até os anos 70, o lugar-comum era o de que a Grã-Bretanha tinha o melhor teatro do mundo. E a menos ruim de todas as televisões. Sempre concordei com a primeira parte. A segunda, me parecia um certo exagero. Puro elitismo, dizia eu para os botões de minha TV.

De uns 20 anos para cá, o lugar-comum, como tudo mais, exige uma conferida. O teatro britânico ainda dá um banho nos outros. Só que não é de dez a zero. Cinco a dois, digamos. Cortesia dos musicais do nefasto Andrew Lloyd Webber que, por sua vez, geraram os musicais-compilação. Um teatro para turista local. Caipirada que vem no ônibus de excursão passar o dia em Londres para tomar chá e ver um "espetáculo".

Dava para se ir ao teatro todo dia. Média altíssima. Hoje, feito um bom restaurante em Paris, você tem que procurar, quando antes era lutar para encontrar um ruim. Sabiam que Paris tem apenas 64 restaurantes com estrelas Michelin, ao passo que Tóquio conta com 321? Garçom, meu sushi, silvuplé.

E a televisão? Essa, coitada, com a proliferação desenfreada de canais, imbecilizou-se de vez. O mundo teve que se imbecilizar. Mais. Sérgio Porto beirou a verdade quando escreveu que TV era "uma máquina de fazer doido". De fazer imbecis, gostaria de dizer. Só que não dava para cuspir na mão que o alimentava. Sérgio, ou Stanislaw Ponte Preta, se preferirem, defendia o leite das crianças precisamente com seu trabalho na TV. Besta ele não era.

Vieram para cá as incontáveis séries americanas. Sumiram os teledramaturgos. Rarearam os programas de atualidade. Telejornalismo investigativo? Babau. O que há é a missão de estupidificar o povo. Como se um vilão do 007 tivesse tomado a si o encargo de acabar com a vida civilizada nestas ilhas com as (agora) vastas telas de televisão. Uma televisão preguiçosa, sem caráter, sem outro objetivo a não ser o de faturar o máximo dando o mínimo para o maior número possível de pessoas. Besteira braba inevitável. O South Bank Show, programa de artes com mais de 30 anos, capitaneado por um intelectual de boa cepa, Melvin Bragg, perdeu o patrocinador. Poucas reclamações nos jornais.

A Grã-Bretanha tem talento. Em inglês é esse o nome do enfatiotado programa de calouros que, ainda outro dia, encaçapou 18 milhões de telespectadores. A Grã-Bretanha não tem o menor talento. Basta dar uma conferida em clipes no YouTube. Lá estão eles: imitadores que não pegariam a mais pífia versão do desfile de calouros de nosso bom Ary Barroso. Talento para ganhar dinheiro é outro papo.

Essa dona de casa que andou se popularizando globalmente, Susan Boyle, de 48 anos, o chamado "Rouxinol de Glasgow", perdeu a final para uma desgraça de um grupo de dançarinos que não ganhariam uma libra de esmola aporrinhando o pessoal no metrô ou na fila de cinema.

Que fez SuBo, como a chamam? Teve uma crise nervosa, claro. Perder é traumatizante. Não deveria fazer parte do que chamam, sem perceberem o ridículo, de "show de realidade", reality show. Foi internada em clínica de luxo. Os patrocinadores, de bolso fundo, pagam. O primeiro-ministro Gordon Brown, em galopante fase de azar, entrou em contato com dois jurados para saber do estado de saúde da distinta. Politicamente, uma boa. Sempre um mau sinal. Distrai a atenção do Zé Povão, que acompanha a crise política de corrupção parlamentar, barafustadas econômicas, o cano nas eleições locais e para o parlamento europeu, sem falar das próximas gerais.

Caixinha, obrigado! É o que dizem os responsáveis pelo desfile de falta de talento. Nesta sexta-feira, terá início em Birmingham um tour com dez finalistas da mais recente versão da rendosa empreitada amadorística.
A imprensa britânica (outro capítulo na história da decadência) pergunta se os organizadores de programas de calouros devem ou não dar mais apoio psicológico aos candidatos. Uma piada.

Em matéria de estupidez, a coisa continua e continuará. Na quinta-feira da semana passada, a 10ª série do Big Brother começou sua nova temporada de flagelação em horário nobre, com várias chegadas todos os dias em horários ignóbeis. Há 16 ignaras aves raras para todos os gostos: um cara em busca de asilo político, um pop star russo bisexual, modelos inglesas, uma anã de ébano lésbica, uma refugiada paquistanesa, uma moça com Lupus, um iraniano modista, um ex-Mr. Gay britânico, um americano aspirante a rapper, um ator de filmes pornô.
Um mundo cão de encomenda para um público néscio.

Ah, sim. Volto a nossa bandeira, que tanto hasteei semana passada. Parece que, este ano, tem brasileiro, e gaio, na casa. But of course.



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